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Enxuto sim, asséptico não

Postado em Novos Autores, Sobre Escrever, literatura com categorias, , , , às Outubro 11, 2008 por lmcolucci

 

 

Em entrevista concedida em 1948, Graciliano Ramos — reconhecido por ser econômico nos adjetivos e narrar através de períodos curtos — assim definiu a sua estética forjada no sertão nordestino:

 

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

 

Este deveria ser um mandamento para os novos autores, aspirantes a escritor: privilegiar o conteúdo em detrimento da retórica ou do simples exibicionismo erudito. Mas há que se ter cuidado. Uma análise apressada da proposta do autor de Vidas Secas pode deixar o texto truncado transformando-o num amontoado de frases desconectadas.  Ao levar estes conselhos ao pé da letra corre-se o risco de cortar onde não é necessário.

 

O escritor Valmor Bordin (em uma de nossas agradáveis conversas), identificou que a busca obstinada por um texto enxuto — ou seco, como preferiria Graciliano — pode torná-lo asséptico, extirpar-lhe as entranhas, as vísceras. E é justamente ali que o texto vive. Portanto cuidado ao torcer as roupas. Torça-as apenas até a última gota d’água, pare antes que o sangue se esvaia.

 

Créditos:

- A imagem acima é uma obra de João Werner. Conheça o trabalho do artista em  www.joaowerner.com.br;

- A transcrição da entrevista de Graciliano foi extraída da revista Discutindo Literatura nº 18;

 

O Patrão

Postado em Novos Autores, contos, literatura com categorias, , às Setembro 24, 2008 por lmcolucci

Quem já freqüentou as aulas do Charles Kiefer pode testemunhar a paixão com que ele fala sobre literatura. Muito mais do que formar autores, seu testemunho desperta o interesse dos alunos pela leitura de uma forma irreversível. Boa parte da movimentação que acontece na Feira do Livro, por exemplo, é um fruto da atuação do Charles.

Imaginem que ele já organizou sessão de autógrafos com mais de 100 autores estreantes. Todos os anos escritores que passaram por suas mãos estão na programação oficial da feira, seja lançando alguma obra ou simplesmente participando de debates relevantes sobre o grande produto da feira: o livro.

Além disso, é comum - e esse talvez seja o grande barato da feira - encontrar com os amigos e curtir o astral delicioso da Praça da Alfândega no início da primavera e passar a tarde garimpando livros que descobrimos através das dicas de leitura que surgiram em algum encontro promovido por ele ou simplesmente através de uma indicação pela rede de e-mails.

Isso quando ele próprio não está lançando alguma obra própria na feira, o que invariavelmente acontece no dia 05 de novembro, que é a sua data de aniversário.

Por essas e muitas outras, a 54ª Feira do Livro de Porto Alegre não poderia estar em melhores mãos.

Conheça mais sobre Charles Kiefer, o patrono da Feira em

 http://www.charleskiefer.com.br

Tolstói a qualquer hora

Postado em literatura com categorias, , às Julho 4, 2008 por lmcolucci

“Tolstói é o maior de todos os narradores”, assim Virgínia Woolf o define.

        Ainda que não seja uma verdade absoluta, também está longe de ser um absurdo. As opiniões acerca de quem é o melhor obviamente variam e nunca convergiram para um consenso, pois uma afirmação deste tipo precisa ser contextualizada, uma vez que não existe o autor sem o leitor. E quem julga é o leitor.

Bem, o fato é que Tolstoi é uma leitura envolvente não apenas pelo inegável poder narrativo - e isso sim se pode afirmar - mas pela sensibilidade com que ele constrói seus personagens. Seja qual for o contexto, seja qual for o conflito, seja qual for o caráter, Tolstói é preciso em todos.

        Recentemente li, assim meio que por acaso, “Felicidade Conjugal”, novela maravilhosa reunida em conjunto com “O Diabo” em uma edição da L&PM. Um livrinho de dez ou doze pilas que adquiri num dia em que estava de bobeira sem nada pra ler.

        E é essa a dica: está de bobeira? quer satisfação garantida? Tolstói é o cara. Ou ao menos é um deles.

Um amor de verdade

Postado em Uncategorized às Junho 24, 2008 por lmcolucci

[...]

“No começo a gente só transava quando bebia. Ficava um clima meio estranho. Mas eu fui achando cada vez melhor e mudei pro quarto dele. Aí passei a não querer mais vê-lo na rua e pedi que ficasse em casa que eu daria um jeito nas despesas. Eu trabalharia por nós dois.”

[...]

 

Descubra a história de uma de um amor de verdade que não pôde ser reprimido em “Dionísio e Eu” na página Contos deste mesmo sítio ou impressa no livro Inventário das Delicadezas da editora Nova Prova.

 

 

 

Variações sobre o mesmo tema

Postado em contos, literatura com categorias, , , , às Junho 7, 2008 por lmcolucci

Os contos fantásticos de Guy de Maupassant reunidos pela L&PM (série Pocket) em “O Horla & outras histórias”, chamam atenção muito mais pelo potencial narrativo do que propriamente pelo enredo — neste aspecto Guy fica devendo muito a Poe. Algumas das obras que integram este livro — e os critérios de seleção não estão incluídos — carecem de verossimilhança interna.  Mesmo assim alguns contos se destacam como, A Morta e A Mãe dos Monstros.

 

No entanto, o livro traz outro aspecto interessante. Permite entender um pouco do processo criativo do autor: O Conto que dá título à coletânea, O Horla — que foi publicado em duas versões diferentes — foi ensaiado em Carta de um Louco. Em ambas histórias, o autor explora o potencial dos sentidos humanos, especialmente a visão que, por ser limitada, limita a nossa percepção de mundo. Os dois contos nos conduzem à cena diante do espelho, que parece ter sido a idéia central e ponto de partida para a busca da história perfeita.

 

A cena em questão — e até a ambiência (no caso o quarto) onde ela ocorre é a mesma nas duas histórias — é de um homem atormentado que se julga espionado por um ser invisível e acaba vivendo experiências sobrenaturais. Ele crê que uma forma de vida (humana?) de corpo transparente (portanto invisível) co-habita o seu quarto. O homem passa a tentar surpreendê-lo, tocá-lo, aprisioná-lo, porém sem sucesso. Até que um dia, após perceber um livro sendo folheado espontaneamente, ele avança sobre a cadeira onde o intruso estaria sentado e este salta (a cadeira se mexe) ficando supostamente encurralado no canto do cômodo onde há um grande espelho. O homem que se detém diante dele, não vê sua imagem refletida neste espelho ao que conclui que o Horla — assim ele o nominou — está entre eles.

 

Maupassant percebeu que tinha ouro nas mãos quando criou esta passagem e parece não ter ficado satisfeito com o resultado, ou ao menos inseguro com relação à melhor escolha.

São duas histórias, com três desfechos diferentes. Difícil dizer qual é o mais brilhante.

 

 

Aos Iniciantes

Postado em Novos Autores, contos, literatura com categorias, , , às Maio 13, 2008 por lmcolucci

O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação.

 

Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há somente um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isso: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até a hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.

 

O texto acima pertence a “Cartas a um Jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke, obra elaborada por Franz Kappus que reúne a correspondência trocada entre ambos onde Kappus, admirador da poesia de Rilke, pede conselhos ao mestre a cerca de sua obra. É uma leitura leve e delicada com reflexões sobre a arte de escrever e sobre a própria vida.

 

 

Por fim, as palavras de Rilke  - que quase me fizerem desistir de escrever - pregam respeito à literatura e nos desafiam a buscar a palavra certa com devoção e honestidade em cada linha que se escreve. Talento é outra coisa, mas o trabalho árduo está ao alcance de todos. 

Aconteceu na Cidade Baixa

Postado em Uncategorized com categorias, , , , , , às Abril 23, 2008 por lmcolucci

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… Uma garrafa de Johnny Walker vazia no chão e um copo ainda pela metade na mesa de cabeceira. O gosto adocicado na boca e a sensação de garganta, pulmão e narinas arrombadas denunciam o excesso. Sempre que eu bebo whisky as coisas saem do controle. O que teria sido desta vez?”

[...]

Trecho do conto “Uma Noite na Rua da República”

O que teria sido desta vez? 

Leia o texto na íntegra na página “Contos” deste mesmo Sítio e deixe suas impressões.

Texto publicado no livro “Inventário das Delicadezas”

Delatado pelo Coração

Postado em Novos Autores, contos, literatura com categorias, , , , às Abril 18, 2008 por lmcolucci

Um dia, em sala de aula, ouvi do escritor Charles Kiefer (vou falar muito nele aqui neste blog) um comentário a respeito do meu texto que mudou a minha forma de ler e, conseqüentemente, de escrever: “O mais importante não é quem matou, ou como matou e sim por que matou?”, dizia ele a cerca de um conto onde eu pretendia tornar a morte do personagem o ponto alto da narrativa. “Isso é uma armadilha em que todos os novos autores caem”, completou ele.

 

O que ele queria dizer é que o texto bom não é aquele que tem o compromisso de causar uma surpresa no leitor e sim aquele que se constrói a partir da psicologia dos personagens e de como eles encaram determinados fatos relatados no texto. Toda a ação transcorre dentro da verdade do texto (a famosa verossimilhança) e quando entramos na mente, no coração e na alma do personagem somos capazes de entender porque matou, porque traiu, porque fugiu, porque sofreu e assim por diante.

 

Claro que alguns autores gostam de mostrar até onde vai a sua capacidade de criar tramas complexas que apontam para várias direções antes de decidirem-se pela menos provável. Seria uma relação de manipulação desonesta se não houvesse leitores dispostos a entrar nesta disputa de quem é o mais esperto e eles, os leitores, até pagam por isso.

 

Talvez o melhor assassinato da literatura seja o narrado em “Coração Delator” de Edgar Allan Poe. No primeiro parágrafo já sabemos que o protagonista vai matar o seu vizinho de quarto por uma razão que pode parecer banal. De fato, se analisado fora do contexto — extraída da brilhante narrativa — diríamos que ninguém mataria uma pessoa que lhe é tão amável apenas por ter um defeito físico — no caso um olho descolorido, possivelmente devido a uma catarata ou algo parecido. Mas ouvindo a vós narrativa — neste caso em 1ª pessoa, o que é sempre mais convincente — não há como não entender os motivos do assassino e, para quem chega ao fim do texto ainda sem convencer-se, a última cena acaba por justifica-lo. Embora ele tenha se esforçado para provar o contrário durante toda a narrativa, o mote foi a demência.

 

 

Comendo Poeira

Postado em contos, literatura com categorias, , , , , , às Abril 8, 2008 por lmcolucci

Arturo Bandini é um aspirante a escritor que passa por apuros financeiros.  Vive num quarto barato de pensão no subúrbio de Los Angeles e está em busca da inspiração para sua grande obra.

Mesmo em situação de total penúria, Arturo Bandini mantém a dignidade. Anda bem vestido e comporta-se como se fosse um escritor consagrado.

 

Pouco importa se nenhum editor interessa-se por seus originais. Arturo Bandini está certo de que encontrará a história que inscreverá o seu nome no cânone dos escritores respeitáveis.

 

Em meio a este enredo de pura angústia autoral, que envolve a criação literária, ele conhece e apaixona-se por Camilla. Um amor platônico que ele procura sufocar demonstrando agressividade contra a moça que é garçonete em uma espelunca à qual Bandini não se cansa de freqüentar. Tratando-a com aparente desprezo ele procura fazer prevalecer seu nível intelectual superior, revelando total inabilidade com as mulheres.

 

E é dessa relação complicada com Camilla que Arturo tira sua inspiração. Levando-nos a crer que lhe faltava justamente o amor para que o seu texto vertesse.

 

Mas não é apenas nas tramas amorosas — Bandini ainda se envolveria com a misteriosa Vera Rivken — que está a força do romance. É a personalidade dele que faz com que este livro seja cultuado por aqueles que admiram personagens com caráter perturbador e apaixonante.

 

Peço ajuda de ninguém menos que Charles Bukowsky, que assina o prefácio das edições publicadas a partir de 1980 e sintetiza o impacto que Pergunte ao Pó é capaz de causar já nas primeiras linhas:

  

“Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.”

[...]

 “Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher.

Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e freqüentemente eu berrava para ela: “Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!”

 

 

PS.: Não tem nada a ver, mas escolhendo o título deste post lembrei de um baita som: Comendo Poeira da Estrada, um grande blues da banda Made in Brazil. Ouçam!

 

Cinqüenta anos de estrada

Postado em literatura com categorias, , , às Março 13, 2008 por lmcolucci

Muita gente torce o nariz para a literatura beat. De fato não se encontra primor literário nas obras produzidas pelos beatnicks. Escrevem com desleixo, sem preocupações estéticas e penetram pouco na psicologia humana. Mas e daí? São livros inspiradores. E isso basta. 

Jack Kerouac, talvez não tenha sido o mais importante representante deste movimento — essas coisas sempre são controversas —, mas On the Road — que este ano completa meio século de sua publicação — é o grande marco daquela geração. É meu livro de cabeceira; daqueles que podem ser abertos ao acaso e fornecer algum combustível para a noite ou (cuidado!) para a vida toda.  

Bem, On the Road, chega aos cinqüenta anos com sua reputação transgressora inabalada. E já não importa mais se ele representa uma época de contestação e rebeldia, que teve seu ápice nos anos 60 e arrefeceu. É um livro ainda capaz de causar uma revolução.  

[...]

“as únicas pessoas que me interessam são as loucas, as que são loucas por viver, loucas por falar, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam ou dizem uma coisa do senso comum … mas queimam, queimam, queimam como rojões através da noite”. 

[...]