Em entrevista concedida em 1948, Graciliano Ramos — reconhecido por ser econômico nos adjetivos e narrar através de períodos curtos — assim definiu a sua estética forjada no sertão nordestino:
“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”
Este deveria ser um mandamento para os novos autores, aspirantes a escritor: privilegiar o conteúdo em detrimento da retórica ou do simples exibicionismo erudito. Mas há que se ter cuidado. Uma análise apressada da proposta do autor de Vidas Secas pode deixar o texto truncado transformando-o num amontoado de frases desconectadas. Ao levar estes conselhos ao pé da letra corre-se o risco de cortar onde não é necessário.
O escritor Valmor Bordin (em uma de nossas agradáveis conversas), identificou que a busca obstinada por um texto enxuto — ou seco, como preferiria Graciliano — pode torná-lo asséptico, extirpar-lhe as entranhas, as vísceras. E é justamente ali que o texto vive. Portanto cuidado ao torcer as roupas. Torça-as apenas até a última gota d’água, pare antes que o sangue se esvaia.
Créditos:
- A imagem acima é uma obra de João Werner. Conheça o trabalho do artista em www.joaowerner.com.br;
- A transcrição da entrevista de Graciliano foi extraída da revista Discutindo Literatura nº 18;

