Jogadores

Posted in Clássicos, literatura with tags , , , , on julho 20, 2016 by Leonardo Colucci

“Não importa se ganho ou se perco, eu quero é apostar”

Charles Bukowski

“Oh, como me batia o coração! Não, não é que o dinheiro me fosse caro! O que eu queria, então, era apenas que, no dia seguinte, todos aqueles, todas aquelas magníficas senhoras, falassem de mim, contassem a minha história,  ficassem surpresos comigo, me elogiassem e reverenciassem o meu novo ganho”

— Fiódor Dostoiévski

Aí está um tema fascinante para a literatura. Especialmente para aqueles que  admiram personagens psicologicamente bem construídos. Humanamente vulneráveis.

As narrativas mais primorosas que têm a compulsão pelo jogo como traço marcante em seus protagonistas, nos revelam pessoas angustiadas, fora de controle, mas conscientes de sua fraqueza. Tentam justificar-se aos leitores fingindo ter domínio sobre seus impulsos e, de forma inútil, dissimulam a sua incapacidade de sucumbir ao vício.

Autores hábeis, reproduziram a atmosfera que envolve os cassinos e as casas de jogos, mas, principalmente, criaram anti-heróis que comovem por sua incapacidade de contrariar a próprio destino, mesmo que ele represente a falência e ruína moral.

 

Beatnik oriental

Posted in Beatniks, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on junho 18, 2016 by Leonardo Colucci

Sumire é uma aspirante a escritora, fã de Jack Kerouac, recém saída da adolescência e confusa em relação aos seus sentimentos e seu futuro. Enfim, confusa sobre si própria.

Seu único amigo é K. (o narrador), um professor alguns anos mais velho, que nutre uma paixão platônica por Sumire.

K nos conta a trajetória da garota e sua busca pelo texto perfeito. O próprio narrador reconhece que a alta produção de Sumire carece de qualidade, provavelmente pela imaturidade da autora, mas procura encorajá-la a insistir na sua escrita.

A paixão literária da protagonista sofre um abalo, quando Sumire conhece e se apaixona por Miu, uma mulher interessantíssima, conhecedora de vinhos e 17 anos mais velha. Em suas confidências ao amigo-narrador, Sumire descreve seu sentimento por Miu como um cataclismo que altera toda a sua hierarquia de prioridades. De repente, a escritora convicta, abre mão do isolamento e passa a gastar o seu tempo em torno de Miu.

É Miu que lhe dá o apelido de “Minha Pequena Sputinik”, numa referência aos beatniks, de quem Sumire é fã.

Sputnik, em russo, significa “companheiro de viagem”. E é durante uma viagem de férias que Sumire faz com Miu que a história do autor japonês “Haruki Murakami” ganha força. A jovem garota desaparece em uma ilha grega sem deixar pistas.

K. é chamado por Miu e, sem hesitação, embarca num voo até a Grécia. Quando chega a ilha os dois envolvem-se na busca pela garota que não pode ser encontrada em lugar nenhum.

K. tem a ideia de procurar os escritos de Sumire e ao ler os relatos de viagem encontra pistas para o seu desaparecimento.

Haruki Murakami é atualmente o autor japonês mais apreciado no oriente. Minha Querida Sputinik é um livro que mistura realismo puro, a moda dos próprios beatniks, com situações fantásticas com um resultado agradável de se ler.

Mal cozidos e mal temperados

Posted in Beatniks, Resenha with tags , , , on março 29, 2016 by Leonardo Colucci

Escrever é uma atividade solitária, repetem os autores sempre que precisam improvisar uma reflexão sobre o ofício. Quando dois autores se propõem a escrever em parceria é bem provável que o resultado seja pior do que o que cada um produziria separado.

É o que acontece em “E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques”, livro escrito “a quatro mãos” por Willian Burroughs e Jack Kerouac. A opção da dupla neste projeto, foi que cada um teria um narrador em primeira pessoa que, em capítulos alternados, contaria a história de um terceiro protagonista que seria o elo entre os dois personagens-narradores.

A ideia é boa, mas não funciona.

Burroughs (Will Dennison, no livro) se cansa da história modorrenta de Kerouac (Mike Ryko). A partir deste ponto, é Ryko quem assume o protagonismo da história e Dennison passa a ser um mero coadjuvante que perde a força e se torna completamente supérfluo ao texto.

Resultado; um livro dispensável e decepcionante a julgar pelos nomes que estão na capa.Kerouac e Burroughs

A revelação do russo

Posted in Clássicos, contos, literatura, Resenha, Sobre Livros with tags , , on março 10, 2016 by Leonardo Colucci

O mestre do conto, Anton Tchekhov, citado por nove entre dez escritores como um dos mais habilidosos autores de histórias curtas, também produziu belas peças de maior fôlego. Uma delas, publicada em edição caprichada pela editora 34, chegou às livrarias no ano passado. Trata-se de “O Duelo”.

Nesta novela, Tchekhov nos apresenta o jovem Ivan Laiévski, um autêntico ícone do que Turguêniev chamou de “homem supérfluo”. Assim foi qualificado o intelectual que vem da classe média e não encontra espaço entre as elites detentoras do saber. Este grupo de indivíduos, surge para criticar e questionar padrões de uma sociedade conservadora que deseja manter a distância entre as camadas sociais.

Laiévski é, na verdade, um espírito livre. Porém, seus procedimentos perturbam os notáveis pensadores da época. Vive com uma mulher casada, desdenha dos títulos e demonstra pouca ambição. Ele próprio admite, a certa altura, que desperdiça seu tempo em atividades ignóbeis e inúteis.

Sufocado pelo marasmo e buscando libertar-se da passividade, decide abandonar o Cáucaso e retornar para o frio de Petersburgo.

Porém, antes da partida Laiévski tem uma (inexplicável) crise de choro que denota instabilidade emocional incompatível com os homens de bem. Sentindo-se humilhado, reage de forma agressiva de maneira a apagar rapidamente seu deslize tentando em vão, encontrar um adjetivo adequado para o ocorrido.

Neste episódio, vem à tona o verdadeiro duelo da trama: o embate íntimo que o protagonista trava consigo mesmo na relutância em se aceitar frágil.

 

Além de Jesusalem

Posted in literatura, Resenha, Sobre Livros with tags , on novembro 25, 2015 by Leonardo Colucci

Mwanito é o sensível narrador de “Antes de Nascer o Mundo” que conta a história de Jesusalem, um pedaço de terra onde habitam as últimas pessoas vivas sobre a face da terra.

Pouco se lembra da época em que vivia “no lado de lá”, e a recordação da Mãe é uma imagem difusa, sem rosto, idealizada muito mais pelo seu coração de menino do que que pelas vagas referências passadas pelo pai e pelo irmão mais velho.

Ao longo da brilhante e emocionante narrativa de Mia Couto, vamos descobrindo a verdade sobre Jesusalem.
O lugar escolhido por Silvestre Vitalício para viver com seus filhos, conta apenas com 4 humanos e uma jumenta em sua população. Mas isso não impede que haja uma organização de estado, onde o próprio Silvestre é o presidente e líder maior e o outro adulto, Zacarias Kalash, o chefe das forças armadas e ministro da caça.

A praça em frente à sede do governo é o local onde as cerimônias e pronunciamentos são feitos.
Nem a curiosidade interrogatória de Mwanito, então com 11 anos e vivendo há 7 em Jesusalém, é capaz de alterar a monotonia do lugar.

Até o dia em que uma mulher muda-se para a propriedade ao lado e o mundo fantástico que existe além das fronteiras de Jesusalém começa a se descortinar.

As descobertas que se sucedem revelam ao pequeno Mwanito um mundo imenso, vivo e cheio de emoções.

Antes de nascer o mundo é sobretudo um relato da esperança simbolizada pelos sonhos e fantasias do pequeno narrador que, mesmo vivendo em um ambiente desolador, acredita que um mundo melhor é possível.

Filosofia sem sal

Posted in Resenha, Sobre Livros with tags , on novembro 13, 2015 by Leonardo Colucci

O departamento de marketing das editoras às vezes prepara armadilhas que nos pegam na menor distração. É o que acontece, por exemplo, com “O Sal da Vida”, da antropóloga Françoise Héritier.

Com o apelo de “O Livro mais vendido na França” – selo estampado na capa – e um tema sempre interessante, é um convite à compra por impulso.

Porém, ao constatar, já no segundo capítulo, que são reflexões rasas e pessoais que fazem sentido apenas para a autora e seu interlocutor (a quem são dirigidas as missivas), perdemos rapidamente o interesse pelo texto do Best Seller francês..

A menos que tu gostes de estimular as reflexões através de clichês, esse livro pouco vai te acrescentar.

As grandes transformações são provocadas por ideias abertas, que nos causam algum tipo de estranhamento e perturbação que ficam repercutindo em nosso íntimo mesmo após encerrada a leitura. São ideias que nos dão uma outra percepção ou perspectiva sobre verdades até então, incontestáveis, à partir de onde não se consegue mais voltar ao estado original.

Infelizmente, não é o que acontece n”O Sal da Vida”. Héritier, nos oferece um prato sonso, sem gosto, apenas com o temperinho que já estamos acostumados a provar.

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