A manipulação do caráter em Wuthering Heights

Posted in Clássicos, Resenha, Sobre Livros with tags , , on julho 7, 2018 by Leonardo Colucci

O clássico “O Morro dos Ventos Uivantes”, da inglesa Emily Bronté, é uma excelente peça de estudo sobre formação do caráter.

Numa época em que os perfis psicológicos ainda não tinham sido mapeados e os estudos causais ainda não eram tão abundantes, a autora de Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), nos mostra como o caráter humano é volúvel e extremamente correlacionado com o ambiente e com os modelos que o formam.

Heathcliff, o filho bastardo do velho Earnshaw, é a primeira vítima dos danos emocionais que atitudes egoístas e dissimuladas causam, de forma indelével, à autoestima de uma criança. E, sabemos, é nessa fase que as mais profundas raízes da nossa psique se firmam.

Depois, o próprio Heathcliff, já adulto, se encarrega de destruir as virtudes da geração que o sucede – seu sobrinho, seu filho e sua sobrinha – anulando suas naturezas pacíficas, íntegras e amorosas, transformando-os em pequenos monstros insensíveis, cruéis, brutos e submissos. Carentes de amor próprio e de personalidade fraca.

Além de ser uma obra magistral da literatura do século XVIII, o Morro dos Ventos Uivantes é um relato de um período da sociedade onde os universos eram restritos às porteiras das propriedades ou a pequenos povoados, situados a poucas milhas de distância. Onde o único contato que se tinha com o mundo exterior se dava através dos livros ou das histórias que os viajantes contavam.

O isolamento em que os primos Catherine, Hareton e Linton viviam, bem como a submissão à hierarquia e ao poder, os tornava mais vulneráveis à manipulação de Heathcliff, visto que não tinham outros modelos que os fizesse questionar.

Apenas a menina Catherine – embora superprotegida pelo pai, Edgar Linton – teve discernimento para contestar o caráter opressor de seu tio, Heathcliff. Nem mesmo ela, porém, passou incólume, pois sofreu muito com o gênio volúvel e confuso de seus dois primos, Hareton e Linton, esses sim, totalmente controlados pelo rancoroso Heathcliff.

Por tudo isso (e muito mais), o Morro dos Ventos Uivantes é uma leitura fundamental. Uma daquelas obras que nos ajudam a compreender a natureza humana. E, humanos que somos, conhecer a nós mesmos.

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Eles sabem o que dizem IX

Posted in Gotas de Literatura, literatura with tags , on junho 23, 2018 by Leonardo Colucci

[…]

“Não consegui dormir. Continuava preso a outros rumores. E quando estes se esvaíam, indistintas imagens me acossavam.”

[…]

– Osman Lins, no conto “A Partida”

História da sua vida

Posted in Cinema, Resenha, Sobre Livros with tags , , , , on abril 14, 2018 by Leonardo Colucci

O título já causa estranheza. Narrativas em segunda pessoa costumam mexer mais profundamente com o leitor. É fácil ser capturado por uma boa história quando ela parece estar dialogando conosco. Já publiquei aqui um conto excelente do escritor Paulo Juner que utiliza de forma precisa essa técnica (veja no menu lateral o conto “Fuga”). Um outro exemplo deste tipo de narrativa está em Aura do argentino Carlos Fuentes.

História da sua vida é um conto de Ted Chiang que inspirou o filme “A Chegada”.

A narrativa é dirigida à filha de Louise Banks e contada por ela mesma, a própria Dra Banks, uma linguista que é recrutada pelo governo americano para tentar estabelecer uma comunicação com alienígenas que acabam de chegar na terra.

Em um exemplo magnífico de texto em “multicamadas”, temos a história aparente – a ponta do iceberg de Hemingway – que tem essa tentativa de contato como enredo principal, mas carrega toda a história de vida da protagonista.

O processo de comunicação evolui com sucesso, mas provoca na Dra Banks uma espécie de expansão na forma de compreender o mundo, especialmente no que diz respeito à percepção do tempo.

Então, a narrativa assume um tempo maleável onde passado, futuro e presente se fundem. O despertar para esta realidade onde o tempo flexível permite ver o futuro claramente como se uma lembrança fosse.

É transitando nessa circularidade do tempo, onde a sequência dos eventos parecem estar acontecendo em paralelo, porém defasados entre si, que a Dra Banks tem uma visão de toda a cronologia de sua vida.

Ela (re)vive com perturbadora clareza o sofrimento de enfrentar a morte da sua única filha ainda jovem e o quanto isso lhe foi insuportável, custando-lhe, inclusive o casamento.

Então, quando, saltando entre camadas, ela está de volta a um dos presentes possíveis, no momento em que ainda jovens, o marido está a lhe propor que tenham um filho. Mesmo conhecendo todo o sofrimento que teriam – tendo-o o vivido como se fosse ontem – ela concorda. E resolve passar por tudo outra vez, mesmo sabendo o quão doloroso seria.

Isso ela não diz, mas é a grande mensagem do conto – que fica, como o “retro-gosto de um  vinho forte”, a nos acompanhar por dias após finda a leitura.

Todo Mundo é uma Ilha

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , on outubro 25, 2017 by Leonardo Colucci

“Atenção!”, “Atenção, crianças!”, “Aqui e agora!”. Assim desperta Will Farnaby. O náufrago de Huxley que aporta na ilha de Pala e perde a consciência depois de despencar de um penhasco quando tenta escapara do mar bravio.

Recobrando os sentidos, Will descobre que aquelas advertências que o despertaram – e pareciam vir de um autofalante – eram proferidas por uma ave típica da fauna palanesa: o Mainá.

Segundo a sabedoria local, os Mainás repetem esse mantra para lembrar os habitantes da ilha de estarem sempre presentes. Presentes em si mesmos e conectados com o aqui e agora.

Essa é a base de uma sociedade que tem seus valores muito ligados aos preceitos do budismo, embora, confessem, sua filosofia aceita o hibridismo e se aproveita de virtudes que lhes façam sentido.

São adeptos da hipnose como ferramenta terapêutica e acreditam no amor livre.

A interiorização para o autoconhecimento é a base de toda a cultura local e a moksha – uma substância colhida de uma flor – é o veículo ministrado desde cedo aos jovens palaneses que lhes amplia a percepção e os conecta com a iluminação.

A experiência com a moksha faz uma clara referência aos ensaios que o autor fizera anos antes em as Portas da Percepção, onde o veículo deste novo olhar era a mescalina.

Como é de se esperar de um bom livro, a ideia de uma sociedade com valores mais humanos, mais naturais e mais simples transformam o protagonista e são capazes de iniciar uma pequena transformação no leitor.

A Ilha

Enquanto a primavera não chega

Posted in Beatniks, literatura, Resenha with tags , , , on agosto 4, 2017 by Leonardo Colucci

O inverno rigoroso no Colorado imobiliza a família Bandini. Com pouco serviço pelo acúmulo da neve, Svevo Bandini gasta suas horas de ócio na companhia de seu amigo Rocco, italiano como ele, mas uma má influência aos olhos de Maria, sua apaixonada esposa.

Sem crédito no armazém, Maria apela para a generosidade do proprietário para que possa “comprar” mais alguns mantimentos e abastecer a cozinha para alimentar os três meninos.

Svevo arranja como cliente uma viúva rica e vê ali a oportunidade de garantir um bom natal para sua família. Porém, a solitária viúva tem outras intenções e acaba envolvendo o hábil pedreiro em uma relação conflituosa que coloca frente a frente o orgulho e os valores do humilde imigrante.

Em meio a tudo isso, o pequeno Arturo – o mais velho dos três irmãos – está envolvido em um amor platônico e trágico de sua pré-adolescência.

De uma forma divertida somos apresentados à personalidade rebelde de Arturo Bandini, o o escritor atormentado de Pergunte ao Pó.

“Espere a primavera, Bandini”, é um presente de John Fante aos admiradores da sua obra e da sua capacidade de construir cenas cheias de significado.

 

 

Um russo no pampa

Posted in Autores Gaúchos, Clássicos, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on julho 4, 2017 by Leonardo Colucci

Os Ratos, obra mais importante do autor gaúcho Dionélio Machado, narra um dia na vida ordinária – opaca ou apática, poderíamos dizer – de Naziazeno Barbosa.

Nessa ocasião, o protagonista – um funcionário público como os personagens preferidos da literatura russa – encontra-se imobilizado diante de uma pequena dívida que tem a acertar com o leiteiro, mas que, embora se trate de um valor irrisório (pouco mais de R$20,00 em dinheiro de hoje), Naziazeno não dispõe da quantia. Recebe, então, um prazo para quitar a dívida até a manhã seguinte.

Pois bem, enquanto acompanhamos o homem elaborando estratégias para obter esse empréstimo vamos conhecendo um pouco mais do seu interior e de sua condição humana.

Aflito com a humilhação moral, Naziazeno parece inerte e, depois de ver seus planos – elucubrados sem muita coerência com a realidade – ruírem, está totalmente desamparado e com toda a sua fragilidade, emocional e de estima, exposta.

É neste momento que ele se une a outros que, assim como ele, vivem de contar migalhas vasculhando a cidade em busca de pequenas oportunidades que lhes permitam algum ganho. Fica, então, a mercê de suas ideias e os segue sem questionar atrás de remotas possibilidades de haver essa quantia dentro do prazo que o coitado precisa.

Ao contrário dos seus amigos, hábeis em transações diárias e otimistas em relação ao sucesso de suas empresas, Naziazeno chega ao fim do dia já desesperançado e abatido. Está exausto pelas longas caminhadas e pelo jejum que lhe acompanha desde o amanhecer, quando por fim obtém o dinheiro exato após uma operação engenhosa tramada por um de seus parceiros.

O problema emergencial parece resolvido, porém sua angústia está ainda longe de acabar. Atormentado por toda a sorte de pensamentos negativos, Naziazeno retorna ao lar preocupado com a explicação que ter de dar à esposa.

É nítida a associação que o autor faz entre seus personagens e os pequenos roedores que dão título ao livro e, igualmente, vivem de sobras da sociedade. Em sua noite insone enquanto espera pelo acerto de contas com o seu credor que chegará pela manhã, o homem pensa estar ouvido os ratos roerem o dinheiro que deixou sobre a mesa. Seu conformismo é tal, que não encontra forças para ir salvar o dinheiro do suposto ataque dos ratos.

O enredo segue a receita da literatura dos mestres russos ao relatar acontecimentos triviais do quotidiano de sua época, porém é no interior do protagonista que a verdadeira história acontece.

 

Discussão sobre ficção e não ficção

Posted in literatura, Sobre Escrever, Sobre Livros, Teoria Literária with tags , on junho 3, 2017 by Leonardo Colucci

 

Contar histórias reais pode ser um relato de importante valor histórico. Escrever sobre personagens notáveis de carne e osso pode provocar alguma transformação no escriba e até ser inspirador ao leitor, mas a liberdade que o universo ficcional oferece permite mergulhar mais profundamente em questões importantes da existência.

Sem filtros, as grandes obras literárias nos revelam o homem na sua mais pura essência e sem compromissos históricos que limitem seus atos ou maquiem suas personalidades. Não são heróis, tampouco perfeitos. Apenas são um reflexo íntimo e cru dos aspectos mais fundamentais do ser humano.

Certo dia em um debate informal sobre gênero, um dos interlocutores indagou àquele que defendia a literatura aos livros de história (como as biografias e os relatos sobre as guerras mundiais).

“Como vocês podem gostar de ler uma história inventada, que não aconteceu?”, indagou de forma que julgou arrebatadora e definitiva de sua argumentação.

“Os personagens são fictícios, mas as histórias são reais. Pois tratam da natureza humana e se não aconteceram, foi por mero capricho dos fatos”, respondeu inapelável seu debatedor.

Aí está, uma bela definição da ficção.