Discussão sobre ficção e não ficção

Posted in literatura, Sobre Escrever, Sobre Livros, Teoria Literária with tags , on junho 3, 2017 by Leonardo Colucci

 

Contar histórias reais pode ser um relato de importante valor histórico. Escrever sobre personagens notáveis de carne e osso pode provocar alguma transformação no escriba e até ser inspirador ao leitor, mas a liberdade que o universo ficcional oferece permite mergulhar mais profundamente em questões importantes da existência.

Sem filtros, as grandes obras literárias nos revelam o homem na sua mais pura essência e sem compromissos históricos que limitem seus atos ou maquiem suas personalidades. Não são heróis, tampouco perfeitos. Apenas são um reflexo íntimo e cru dos aspectos mais fundamentais do ser humano.

Certo dia em um debate informal sobre gênero, um dos interlocutores indagou àquele que defendia a literatura aos livros de história (como as biografias e os relatos sobre as guerras mundiais).

“Como vocês podem gostar de ler uma história inventada, que não aconteceu?”, indagou de forma que julgou arrebatadora e definitiva de sua argumentação.

“Os personagens são fictícios, mas as histórias são reais. Pois tratam da natureza humana e se não aconteceram, foi por mero capricho dos fatos”, respondeu inapelável seu debatedor.

Aí está, uma bela definição da ficção.

 

Sobre escrever XI

Posted in contos, Sobre Escrever, Teoria Literária with tags , on maio 20, 2017 by Leonardo Colucci

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“O conto é algo assim como uma gota d’água vista com uma lupa e portanto nela está o universo inteiro”.

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– Hector Mureña, contista argentino

Eles sabem o que dizem VIII

Posted in Gotas de Literatura, Latino-americana, literatura with tags , on maio 16, 2017 by Leonardo Colucci

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“O punhal se amornava sobre seu peito e por baixo batia a liberdade escondida.”

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— Julio Cortazar em “A Continuidade dos Parques”

Cápsula do Tempo

Posted in Cinema, Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , , , on abril 28, 2017 by Leonardo Colucci

A Editora Aleph reuniu em um volume todos os contos de Philip Dick adaptados para o cinema com o título sugestivo de “Realidades Adaptadas”.

De “O Vingador do Futuro” a “Agentes do Destino”, passando por “Minority Report”, são 7 contos escritos por volta da década de 1950 e ambientados em um futuro incerto, mas não muito distante – provavelmente nos dias de hoje.

É um tempo dominado por máquinas onde o ser humano busca manter a sua identidade. Porém, há organizações que controlam as informações e interferem na vida das pessoas em uma sociedade cada vez menos livre.

Nesse aspecto social e político, as histórias de Dick encontram alguma semelhança com os clássicos distópicos “1984”, “Admirável Mundo Novo” e “Fahrenheit 451”, porém com uma ênfase cibernética maior.

A parte da enorme relevância sociológica que a análise destes livro promove, é curioso ler no tempo presente o futuro projetado por Dick. Enquanto as previsões sobre comunicação por vídeo e inteligência artificial se confirmaram, os nossos contemporâneos continuam revelando fotos à partir dos negativos. Quer dizer, nem mesmo a genialidade criativa de Dick, que dominava as ciências da sua época, foi capaz de imaginar que utilizaríamos fotos digitais, coisa tão trivial nos dias atuais.

Isso nos leva a pensar: que erros cometeríamos nós, tão familiarizados com as evoluções tecnológicas, se projetássemos um futuro de algumas décadas à frente?

Que tal fazer este exercício e guardá-lo em uma capsula do tempo a ser aberta daqui a, por exemplo, 30 anos?

Homem-lobo

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on abril 16, 2017 by Leonardo Colucci

O romance “O Lobo da Estepe” de Hermann Hesse nos apresenta de forma magistral os conflitos internos de um homem, Harry Haller, que “andava sobre duas pernas, usava roupas de homem e era um homem, mas, não obstante, era também um lobo da estepe”.

Haller, era um intelectual detentor de conhecimento e a mais fina cultura, porém convertera-se em um homem arredio e solitário. Crítico demasiado da vida burguesa de sua época e de pouquíssimo trato social. Esse caráter um tanto selvagem de sua personalidade ele próprio atribuía ao lobo da estepe que habitava dentro de si.

Homem e lobo competiam pelo domínio de sua alma. Viviam em constante conflito que Haller não era capaz de apaziguar. Os prejuízos desta luta ininterrupta traziam infelicidade e angústia a Haller que tinha dificuldade de entender quem, ou o que, ele realmente era.

Pois bem, quando a repulsa à sua própria fragilidade chega ao limite, o homem compreende que um único fim lhe seria justo; o suicídio. Porém, a falta de coragem o impede de levar a cabo esse destino.

Por medo de ficar sozinho, evita voltar pra casa. Erra pelas ruas até encontrar abrigo em um prostíbulo onde sua vida começa a ganhar outro sentido. As pessoas que conhece naquela noite lhe dão acesso a experiências que vão ser significativas na vida do personagem e do leitor. Sim, porque o drama de Haller é análogo a qualquer inquietude que o ser humano encontra em algum momento da vida.

Entre tantas experiências fantásticas, Haller assiste a um espetáculo onde um homem fisicamente idêntico a si, exibe um número como domador de um lobo. A forma como este homem subjuga o animal selvagem e o transforma em uma “dócil criatura”, causa profundo desconforto no espectador. Haller observa um lobo totalmente adestrado que consegue tristemente controlar seus instintos e obedecer todo o tipo de ordem e reproduzir todo o tipo de truques de forma servil e apática.

Este espetáculo é apenas uma das metáforas que Hermann Hesse oferece para que o leitor, realizando um exame profundo da condição humana de Haller, reflita sobre a sua própria natureza.

Por conta do forte conteúdo psicológico e filosófico das entrelinhas, o leitor que concluir a leitura de “O Lobo da Estepe”, não será mais o mesmo que começou.

Sobre escrever X

Posted in literatura, Sobre Escrever with tags on março 29, 2017 by Leonardo Colucci

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“Eu não escrevo com uma programação. Deixo que os cavalos mentais me arrastem. Me deixo levar e, só depois, me torno um obsessivo pela limpeza do texto.”

 

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– João Gilberto Noll, autor porto-alegrense que nos deixou no dia de hoje.

 

O Céu de Lima e de Bárcena

Posted in literatura, Resenha, Sobre Escrever, Sobre Livros with tags , , on março 20, 2017 by Leonardo Colucci

O Céu de Lima é um romance surpreendente.

Ceu de LimaA surpresa se dá por conta da juventude do autor; Juan Gómez Bárcena  e da pouca tradição da literatura espanhola contemporânea no Brasil que não revelou ao grande público nenhuma obra relevante desde Cervantes. Então, há que se procurar nas resenhas e estantes de livrarias, algo que possa despertar o interesse e mais do que isso, nos dar vontade de ler.

O Céu de Lima é um romance dentro de um romance.

Bem planejado e com uma qualidade de texto comparável aos melhores autores, o romance de Bárcena é uma leitura ficcional sobre um fato verídico na biografia do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez que no início do século XX foi ludibriado por jovens limenhos que criaram uma personagem fictícia para se corresponder com o mestre do outro lado do Atlântico. Os rapazes, amantes da literatura, construíram Georgina com tanta verossimilhança que acabaram por arrebatar o coração do mestre.

Os jovens poetas encaram a criação das missivas com o rigor da literatura e da poesia. Escrevem com o prazer de estar construindo uma personagem interessante e discutem cada fala de Georgina até encontrarem o tom que lhes agrade e não desperte suspeitas no destinatário.

Entremeado ao romance, o autor insere reflexões sobre o ato de escrever e oferece um olhar irônico sobre as técnicas da escrita criativa.

O Céu de Lima é um romance completo.

A adequação da linguagem e a riqueza histórica sobre a Lima do início do século passado dão a medida do que os grandes autores buscam. Aqui renovamos a convicção de que aqueles que dizem que escrevem somente com a inspiração ou são maus escritores ou estão mentindo, romantizando o ofício.

Uma das coisas que mais qualifica, contudo, as obras literárias são as personagens. E esse é o ponto primoroso do livro. Bárcena não se preocupou em construir o poeta como uma pessoa digna de pena, nem tampouco, absolver os jovens limenhos que tinham na inexperiência da juventude o seu álibi para a crueldade que acabaram por fazer.

A introdução dos personagens secundários também funciona muito bem e dão um conteúdo ficcional na medida certa que os grandes romances demandam.

Procure passar umas horas sob o céu de Lima. Será um experiência recompensadora.