Assim nascem os blues – Cena V: Sobre Mãe e Pai

O garoto se criou solto no mundo. Aos 9 anos já morava sozinho em uma choupana sem água ou luz. Apenas uma cobertura precária lhe servia de teto e paredes sem portas ou janelas lhe davam a privacidade e a segurança suficiente para que pudesse viver com algum conforto.

Orgulhoso, não aceitava ajuda se percebia que o faziam por pena ou compaixão. Porém, não recusava quando amanhecia em sua porta algum alimento. Nesta hora agradecia a Deus pela comida – como lhe ensinara sua mãe -, e pedia por dias melhores. Ganhava a vida com criatividade e sem muito esforço. Ainda criança, sobrevivia às custas de doações e esmolas. Não almejava ir para a escola. Queria é ser livre para andar por aí. Já adolescente, faturava boas somas oferecendo seus préstimos sexuais a senhoras e senhores que o procuravam para aliviar suas urgências, mas foi quando encontrou um velho violão em suas excursões pelos lixos da cidade que descobriu o seu caminho.

Escreveu os blues mais tristes e raivosos que já se viu.

Sempre melancólicos quando cantava à memória de sua mãe e sórdidos quando a inspiração era o pai.

Assim nascem os blues – Cena IV: Os males de um whisky clandestino

Ele vinha se aproximando lentamente. Coxo, trêmulo e cego, o homem se movia com dificuldade.

Poucos acreditariam que aquela figura abjeta, há pouco fora um dos cantores de blues mais populares da região. Sua fama arrastava pequenas multidões que se espremiam para vê-lo executar a cada semana novas peças de blues cuja interpretação era única. Teatral, emocionada e sensual.

Mas a vida de excessos, às vezes, cobra um preço alto. Para se manter embalado o homem andava sempre alcoolizado. Assim se soltava no palco e nos bastidores. Assim se sentia mais inspirado e mais sedutor. Não faltava quem lhe oferecesse um trago para coloca-lo no clima.

Porém, nem sempre essas bebidas tinham qualidade. Muitas, de fabricação clandestina, continham substâncias perigosas em suas fórmulas. Isso produziu uma legião de pessoas com o sistema nervoso central destruído. E nem o popular bluesman daquele tempo, escapou a este destino.

Assim nascem os blues – Cena III: Não tente dominar uma mulher do blues

Ele era um bom amante. Atraente, selvagem e misterioso. Uma boa companhia para passar um tempo. Pensei que ele me trataria bem e me daria bom sexo.

Mas não foi assim que as coisas aconteceram.

Com o passar do tempo ele começou a implicar com meus modos. Com meu jeito de cantar e até com a quantidade de whisky eu bebia.

– Hei, eu tenho meu dinheiro e faço o que quiser com ele – coloquei as coisas em seu lugar.

Mas ele insistia em me reprimir. Quis controlar minha vida e, por fim, implicou com um certo guitarrista que andava arrastando uma asa pra mim.

— Você não vai mais àquele bar. Já avisei a banda que você está fora — esbravejou, visivelmente embriagado.

Naquela mesma noite, a banda subiu ao palco e iniciou o tema de abertura – normalmente um improviso de 3 ou 4 minutos – e quando a dinâmica cresceu o baterista anunciou:

— Boa noite, Blue Hall, recebam a grande cantora de blues, Hot Mama Jones.

Enquanto Mama saudava o público e entoava as primeiras estrofes, seu ex-amante era mais um dos machões abandonados na estrada.

Assim nascem os blues – Cena II: Escrevendo o blues

Um dia lhe disseram que pra tocar o blues bastava utilizar acordes com sétima e que com apenas três deles seria possível tocar um número infinito de canções.

— E pra compor? — quis saber.

— Basta usar os seus sentimentos (sem receio ou pudor). Escrever algumas linhas e recitá-las sobre a harmonia até moldá-la na forma mais humana e honesta que for capaz.

Naquela noite, embalados por garrafas de whisky, rum ou outra bebida forte, o homem e seu violão entraram em comunhão e antes que um novo dia amanhecesse, eram um só.

Assim nascem os blues – Cena I: Tudo começa e termina na estação de trem

O trem já estava 9 horas atrasado. Muitos haviam desistido de esperar e a maioria dormia acomodado onde pudesse se arranjar para proteger-se minimamente do frio.

Um destes viajantes, no estado entre o sono e a vigília, despertou ao ouvir o que pareceu ser o crescente apito de um trem. Não era. Concluiu, então, que se tratava de uma peça pregada pelo subconsciente e tornou a adormecer. Mas aquele silvo — que agora lhe parecera um uivo — persistia. Com certeza não era fruto de sua imaginação. Apurou os ouvidos e localizou a origem de tal som metálico. Percebeu que em consonância com o ritmado efeito sonoro, uma voz declamava frases em tom lamurioso.

O viajante aproximou-se do jovem que executava a peça musical carregada de emoção. Neste momento — o rapaz ainda não dera por sua presença, pois cantava com os olhos fechados como se estivesse em outro lugar —, o viajante procurou um lugar para sentar para observar a curiosa performance.

Encerrada a parte declamada, o músico retornou à sessão rítmica e voltou a produzir aquele som metálico arrastado. Este efeito era gerado pela pressão e o deslizar de uma faca contra as cordas do violão. Era um som hipnótico que nunca havia sido ouvido até aquele dia de 1903.Train Station

Assim nascem os blues

Imagem2Os homens e mulheres do blues são contadores de histórias. São porta-vozes de narrativas da sua própria condição humana. Histórias ordinárias do quotidiano de quem luta com dignidade pelo seu espaço, que lamenta as suas mazelas, revela seus arrependimentos e pede perdão, mas também narra histórias fantásticas, com componentes heroicos ou sobrenaturais.

O cancioneiro blueseiro é composto por lendas, ficção ou episódios reais, nem sempre verossímeis.

Todas essas histórias constituem-se em mote para uma nova canção.

Este post abre uma série de pequenas narrativas que capturam cenas do universo que têm inspirado compositores ao logo dessa tradição centenária que é o blues.

BIBLIOTECAS HUMANAS

Bibliotecas Humanas II

Na Dinamarca estão pondo em prática a situação imaginada por Ray Bradbury em seu “Fahrenheit 451”, publicado em 1953.

As bibliotecas humanas criadas em Copenhague, são espaços para contação de histórias. Onde os usuários, ao invés de consultar livros no catálogo, escolhem pessoas que lhe contarão as histórias.

Em seu Fahrenheit 451, Bradbury descreve um futuro distópico e sombrio onde os livros foram destruídos. Para preservar-lhes a memória, uma comunidade que escolheu viver isolada, mantém vivos os clássicos à partir de seus leitores que decoraram suas obras favoritas antes que todos os volumes fossem incinerados pelo Estado. Assim, cada leitor assumiu a identidade de seu livro preferido e era capaz de recitá-lo por inteiro, tornando-se seu guardião e representante. Assim, cada indivíduo apresentava-se pelo nome da obra que guardara em sua memória: – Eu sou Crime e Castigo, diria um. – Eu sou Madame Bovary, diria o outro.

Dessa forma, compartilhados de boca em boca, os grandes clássicos universais poderiam ser transmitidos independente da sua existência física.

A novela “Bom Sucesso”, fez referência a esta passagem em um de seus capítulos finais, onde a editora do protagonista da trama televisiva é criminosamente incendiada e os livros preservados são adotados pelos funcionários em clara alusão à comunidade descrita por Bradbury.

A ideia, além de resgatar uma situação significativa da literatura mundial, ainda permite que se aumente o diálogo sobre as obras literárias e se resgate a importância da contação de histórias na formação cultural, psicológica, imagética e cognitiva das pessoas. 

Leia mais em: https://blog.bemglo.com/bibliotecas-humanas/

 

Sobre escrever XIV

[…]

“Há centenas de grandes obras a germinar nos cérebros de centenas de grandes homens, mas a trágica verdade é que nenhuma dessas grandes obras será jamais escrita.”

“Uma das coisas que caracterizam a grandeza de um escritor é o fato de diferentes espíritos encontrarem nele diferentes inspirações”

[…]

– Somerset Maugham em “Servidão Humana”

Antecedentes

AntecedentesNa composição de uma obra de ficção o autor escolhe aquilo que vai contar ao leitor de forma direta ou indireta através da utilização do recurso narrativo que seja mais adequado à sua proposição para a obra.

Mas, além disso, há a parte da história que fica de fora. Que não é, ou não precisa ser, mostrada ao leitor.

É uma importante escolha que o autor deve fazer. Qual será o recorte que será explorado para gerar o efeito desejado pelo autor.

A menos que estejamos falando de um romance de formação, que necessariamente relata a trajetória completa do herói ou personagem, as demais obras concentram sua força em um espaço reduzido de tempo – vide Ulysses de Joyce, por exemplo – que é capaz de compor toda a síntese grandiosa ou ordinária que comunicará a intenção do autor.

No entanto, mesmo que a obra final omita do leitor partes menos necessárias para a compreensão da mensagem, o autor deve conhecer a história completa.

A isso chamamos de antecedentes.

Os antecedentes são todos os acontecimentos que influenciaram a formação do personagem e que ajudam a dar uma firmeza de caráter que será chave para manutenção da coerência e verossimilhança. Muitas vezes estes antecedentes estão em gerações anteriores ou no contexto histórico temporal da narrativa. A geografia também é formadora da construção do personagem e do universo ficcional. Estes detalhes não precisam estar explícitos no texto final – até pra não tornar a leitura maçante –, mas é indispensável que esteja presente na mente do autor durante a criação.

Uma boa recomendação é escrever os antecedentes para que sirvam de base para as decisões e revisões do texto. Além de garantir coerência (coesão), o que não for aproveitado na obra pode servir de material para outros textos.

Este insight me surgiu a partir da leitura de “Carta ao Pai”, de Kafka. Este tipo de material pode ser utilizado para compreender a obra de Kafka a partir de uma carta íntima – não se sabe se ela foi redigida com o objetivo único de transmitir uma mensagem ao pai, ou se tinha intenções literárias – que revela detalhes da psicologia e do caráter do autor que ampliam o entendimento de suas obras.

No caso de Kafka, a biografia do autor para compreender a sua obra. Mas no caso de uma obra de ficção, a biografia do protagonista para fortalecer o seu caráter, nortear suas atitudes e emitir a sua voz.

Porta-malas na Amazon

Quem acompanha os posts que publico neste blog, agora pode ter acesso a uma seleção deles organizados em forma de ebook.

Está disponível no site da Amazon, ao preço de 7,20 uma edição com 71 textos curtos para serem lidos em até 3 minutos.

Capa Livro (Galaxie) - Final
Para que resultasse em uma peça agradável de leitura, os textos foram divididos em 2 temáticas: “Sobre Escrever”, com reflexões acerca da criação literária e “Sobre Escritos”, com resenhas sempre curtas de bons livros da literatura universal.

Seção I – Sobre Escrever
Na busca pela produção de bons textos literários, alguns elementos merecem mais atenção. Os textos apresentados à seguir, exploram um pouco esse universo da escrita criativa, hora ecoando textos ou ensaios de autores consagrados, hora simplesmente divagando sobre alguma questão teórica.
Como estes textos foram originalmente publicados no blog em forma de postagens, não são estudos profundos de qualquer um dos temas, uma vez que se propõem apenas a gerar insights para discussões posteriores que possam, essas sim, resultar em teorias mais complexas.

Seção II – Sobre Escritos
Muitas são as obras referenciais em se tratando de literatura e infinitas as possibilidades de recorte temático, histórico, estilístico, cronológico ou regional, apenas para citar alguns.
Os livros comentados aqui não representa nenhum critério como os mencionados acima, apenas têm como fio condutor entre eles o estranhamento que causaram neste leitor. Ou seja, todos eles provocaram uma pequena transformação que é o que se espera da boa literatura.
São resenhas curtas que exaltam, por vezes, apenas um aspecto da obra de interesse literário, psicológico, histórico ou, porque não, existencial.

Quem quiser adquirir o seu exemplar (lembrando que pode ser lido em qualquer dispositivo – pc, notebook, celular ou tablet) visite o site da Amazon através do link: https://www.amazon.com.br/porta-malas-meu-Galaxie-Literatura-Assemelhados-ebook/dp/B081TPKZDY/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=no+porta-malas+do+meu+galaxie&qid=1574806164&sr=8-1