Sobre escrever IX

Posted in Gotas de Literatura, Sobre Escrever with tags , , on novembro 17, 2016 by Leonardo Colucci

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“Os livros são feitos daquilo que nos falta”

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– Juan Carlos Onetti

Tragédia ilustrada

Posted in contos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , on setembro 3, 2016 by Leonardo Colucci

Diz-se das tragédias – os gregos ensinaram isso – que são o desfecho inevitável do qual não se pode fugir.

Nos acostumamos como leitores a encontrar personagens que lutam para ludibriar o destino, esperançosos de que possam – com algum golpe astuto, ou mera cautela – escapar das mazelas que lhe foram prometidas no dia em que nasceram. Édipo, talvez o mais lembrado, mas existem tantos outros, inclusive na literatura moderna.

Acreditemos ou não em predestinação, as tragédias diferem da vida real apenas no fato em que há sempre uma premonição fantástica que alerta a personagem para algo terrível que lhe esteja reservado para o futuro.

É também assim em “O Homem Ilustrado” de Ray Bradbury. O conto narra a decadência de um trabalhador do mundo do circo que, por ter engordado muito, perde a utilidade como montador de tenda e acaba demitido. “Me deixe ser seu homem gordo!”, chega a pedir ao chefe, mas até para isso era preciso ter talento e ele não tinha nada de especial.

Então, Willian Phillipus Phelps, ouve falar de uma mulher cega capaz de fazer tatuagens incríveis e ele tem a ideia de ilustrar todo o seu corpo na expectativa de se tornar uma atração do circo e reconquistar o respeito da esposa que o despreza por sua inutilidade e desleixo.

A dolorida sessão de modificação corporal têm fim e Willian deixa o casebre da bruxa com 100% da pele coberta pelas mais diversas e incríveis figuras. Duas, porém, uma no peito e outra nas costas, parecem inacabadas e ficam cobertas por uma bandagem (recomendação da Velha tatuadora que explica que em intervalos de uma semana as duas imagens se completarão e revelarão o futuro).

O homem passa a ser a curiosa novidade do espetáculo. “Vamos revelar o que nos diz a tatuagem do peito do Homem Ilustrado!”, anuncia o mestre de cerimônias. Diante uma multidão assombrada descortina-se a horrenda cena de um homem, o próprio Willian pode-se notar, matando brutalmente uma jovem, que logo se percebe ser Lisabeth, sua esposa. A mórbida previsão não tarda a acontecer. Por mais repúdio que Willian tenha a esta possibilidade – ele a amava – e se empenhasse em convencê-la que não tivera nenhuma interferência na execução do desenho agourento, circunstâncias acabam levando-o a repetir o quadro pintado em seu peito.

O homem foge com um horda de artistas no seu encalço disposto a vingar o brutal assassinato. Quando finalmente o alcançam, Willian é espancado até a morte. Em seu corpo inerte, deitado de bruços, finalmente se revela a última imagem: um homem gordo, tatuado, espancado por anões, mulheres barbadas e outras figuras do mundo circense.

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Jogadores

Posted in Clássicos, literatura with tags , , , , on julho 20, 2016 by Leonardo Colucci

“Não importa se ganho ou se perco, eu quero é apostar”

Charles Bukowski

“Oh, como me batia o coração! Não, não é que o dinheiro me fosse caro! O que eu queria, então, era apenas que, no dia seguinte, todos aqueles, todas aquelas magníficas senhoras, falassem de mim, contassem a minha história,  ficassem surpresos comigo, me elogiassem e reverenciassem o meu novo ganho”

— Fiódor Dostoiévski

Aí está um tema fascinante para a literatura. Especialmente para aqueles que  admiram personagens psicologicamente bem construídos. Humanamente vulneráveis.

As narrativas mais primorosas que têm a compulsão pelo jogo como traço marcante em seus protagonistas, nos revelam pessoas angustiadas, fora de controle, mas conscientes de sua fraqueza. Tentam justificar-se aos leitores fingindo ter domínio sobre seus impulsos e, de forma inútil, dissimulam a sua incapacidade de sucumbir ao vício.

Autores hábeis, reproduziram a atmosfera que envolve os cassinos e as casas de jogos, mas, principalmente, criaram anti-heróis que comovem por sua incapacidade de contrariar a próprio destino, mesmo que ele represente a falência e ruína moral.

 

Beatnik oriental

Posted in Beatniks, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on junho 18, 2016 by Leonardo Colucci

Sumire é uma aspirante a escritora, fã de Jack Kerouac, recém saída da adolescência e confusa em relação aos seus sentimentos e seu futuro. Enfim, confusa sobre si própria.

Seu único amigo é K. (o narrador), um professor alguns anos mais velho, que nutre uma paixão platônica por Sumire.

K nos conta a trajetória da garota e sua busca pelo texto perfeito. O próprio narrador reconhece que a alta produção de Sumire carece de qualidade, provavelmente pela imaturidade da autora, mas procura encorajá-la a insistir na sua escrita.

A paixão literária da protagonista sofre um abalo, quando Sumire conhece e se apaixona por Miu, uma mulher interessantíssima, conhecedora de vinhos e 17 anos mais velha. Em suas confidências ao amigo-narrador, Sumire descreve seu sentimento por Miu como um cataclismo que altera toda a sua hierarquia de prioridades. De repente, a escritora convicta, abre mão do isolamento e passa a gastar o seu tempo em torno de Miu.

É Miu que lhe dá o apelido de “Minha Pequena Sputinik”, numa referência aos beatniks, de quem Sumire é fã.

Sputnik, em russo, significa “companheiro de viagem”. E é durante uma viagem de férias que Sumire faz com Miu que a história do autor japonês “Haruki Murakami” ganha força. A jovem garota desaparece em uma ilha grega sem deixar pistas.

K. é chamado por Miu e, sem hesitação, embarca num voo até a Grécia. Quando chega a ilha os dois envolvem-se na busca pela garota que não pode ser encontrada em lugar nenhum.

K. tem a ideia de procurar os escritos de Sumire e ao ler os relatos de viagem encontra pistas para o seu desaparecimento.

Haruki Murakami é atualmente o autor japonês mais apreciado no oriente. Minha Querida Sputinik é um livro que mistura realismo puro, a moda dos próprios beatniks, com situações fantásticas com um resultado agradável de se ler.

Mal cozidos e mal temperados

Posted in Beatniks, Resenha with tags , , , on março 29, 2016 by Leonardo Colucci

Escrever é uma atividade solitária, repetem os autores sempre que precisam improvisar uma reflexão sobre o ofício. Quando dois autores se propõem a escrever em parceria é bem provável que o resultado seja pior do que o que cada um produziria separado.

É o que acontece em “E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques”, livro escrito “a quatro mãos” por Willian Burroughs e Jack Kerouac. A opção da dupla neste projeto, foi que cada um teria um narrador em primeira pessoa que, em capítulos alternados, contaria a história de um terceiro protagonista que seria o elo entre os dois personagens-narradores.

A ideia é boa, mas não funciona.

Burroughs (Will Dennison, no livro) se cansa da história modorrenta de Kerouac (Mike Ryko). A partir deste ponto, é Ryko quem assume o protagonismo da história e Dennison passa a ser um mero coadjuvante que perde a força e se torna completamente supérfluo ao texto.

Resultado; um livro dispensável e decepcionante a julgar pelos nomes que estão na capa.Kerouac e Burroughs

A revelação do russo

Posted in Clássicos, contos, literatura, Resenha, Sobre Livros with tags , , on março 10, 2016 by Leonardo Colucci

O mestre do conto, Anton Tchekhov, citado por nove entre dez escritores como um dos mais habilidosos autores de histórias curtas, também produziu belas peças de maior fôlego. Uma delas, publicada em edição caprichada pela editora 34, chegou às livrarias no ano passado. Trata-se de “O Duelo”.

Nesta novela, Tchekhov nos apresenta o jovem Ivan Laiévski, um autêntico ícone do que Turguêniev chamou de “homem supérfluo”. Assim foi qualificado o intelectual que vem da classe média e não encontra espaço entre as elites detentoras do saber. Este grupo de indivíduos, surge para criticar e questionar padrões de uma sociedade conservadora que deseja manter a distância entre as camadas sociais.

Laiévski é, na verdade, um espírito livre. Porém, seus procedimentos perturbam os notáveis pensadores da época. Vive com uma mulher casada, desdenha dos títulos e demonstra pouca ambição. Ele próprio admite, a certa altura, que desperdiça seu tempo em atividades ignóbeis e inúteis.

Sufocado pelo marasmo e buscando libertar-se da passividade, decide abandonar o Cáucaso e retornar para o frio de Petersburgo.

Porém, antes da partida Laiévski tem uma (inexplicável) crise de choro que denota instabilidade emocional incompatível com os homens de bem. Sentindo-se humilhado, reage de forma agressiva de maneira a apagar rapidamente seu deslize tentando em vão, encontrar um adjetivo adequado para o ocorrido.

Neste episódio, vem à tona o verdadeiro duelo da trama: o embate íntimo que o protagonista trava consigo mesmo na relutância em se aceitar frágil.