A Morte de Santiago Nasar

Se o título não fosse suficiente e, distraídos, abríssemos Crônica de uma Morte Anunciada de Gabriel Garcia Márquez já na primeira linha entenderíamos do que trata a novela:

“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5:30h da manhã…”

Mais algumas páginas e já conheceríamos quem são os assassinos e as armas do crime. Os fãs de literatura policial fechariam o livro decepcionados com o fim do mistério.

Mas é justamente aí é que começa a tensão do livro, pois não são apenas leitor e narrador que conhecem o destino de Santiago: o povoado inteiro sabe das intenções dos irmãos Vicário. Os próprios assassinos ajudam a espalhar a notícia de que estão armados para executar aquele que desrespeitou as prendas viriginais de sua irmã Ângela.

Por conta de toda essa publicidade, ninguém acha necessário prevenir a vítima, pois alguém – já que a cidade inteira sabe – há de avisá-lo. Outros preferem não dar crédito às ameaças dos supostos assassinos. Todos, na verdade, eximem-se da responsabilidade e Santiago, ignorante, ruma para a morte.

Outro ponto interessante é que os irmãos nitidamente não desejam – de fato – matar Santiago. Cumprem o papel de lavar a honra da irmã com o sangue de quem a desonrou, mas adiam, retardam o ataque para que alguém os impeça. Pelas mesmas razões anteriores, ninguém intervém e eles obrigam-se a executá-lo.

O núcleo da trama reside aí: um mal que poderia ter sido evitado e não foi porque ninguém teve coragem de fazê-lo. O que está exposto é o caráter deste povoado caribenho que, quando posto a prova, retraiu-se de forma egoísta. (Um bom tema para reflexão: Esta sociedade ficcional encontra espelho no mundo real?)

Consta que o próprio Garcia-Márquez buscou o enredo para esta novela no assassinato de seu amigo Cayetano Gentile Chimento, que foi morto em situação semelhante. Por respeito à família, Márquez só veio a publicá-la 30 anos depois do ocorrido.

O fantástico aparece nos últimos momentos de Santiago Nasar, que reconstitui suas entranhas espalhadas na calçada pelas lâminas dos irmãos Vicário e ainda contorna a casa dirigindo-se à porta dos fundos com todo o aparelho digestivo nas mãos.

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5 Respostas to “A Morte de Santiago Nasar”

  1. Já faz alguns anos que devorei este livro, entre frustrada e esperançosa, torcendo para que o autor surpreendesse e tivesse piedade do Santiago Nasar. Minha vontade era de que revelasse no final que tudo não passara de um sonho de um dos assassinos…
    Este livro é excelente, não somente pela maneira envolvente como escreve Gabriel Garcia Márquez, como também pela expectativa que consegue criar em torno de um desfecho que se faz claro logo no início da estória. A descrição dos instantes finais do Santiago é de uma tristeza ímpar.
    Ainda que necessário, morrer é irônico e ridículo.
    Abraço,
    Tatiana

  2. É, de fato, desde o início já se sabe que a sorte de Santiago está selada. Por mais que se adquira simpatia por ele, como numa tragédia grega, não há o que se possa fazer para mudar o seu destino. Nem mesmo o autor poderia interferir na trajetória do rapaz. Ainda bem que Garcia-Marquez soube limitar os poderes do narrador e deu a história nada mais do que ela pedia.

  3. Gabriel Garcia Marquez é estupendamente genial. Santiago Nasar, Sierva Maria de Todos los Angeles são obras sensacionais. O que mais me intriga sobretudo é a proximidade dos lugares e dos fatos que rondam a obra. O coronel e o seu galo, por exemplo, vivem em um lugar que poderia ser a Ilha de Itaparica talvez. Além do clima e da velocidade dos fatos em cima de Santiago Nasar e dos irmãos Vicário.

  4. Ainda sobre a ambientação, uma das coisas que realça a qualidade de Marquez é que a maioria das histórias acontecem em algum lugar incerto na porção sul-americana do caribe e nos fazem ficar à vontade mesmo que a paisagem seja desconhecida.
    Quem não esteve na praça onde Florentino Ariza esperava a jovem Fermina Daza passar (em “Amor nos tempos do Cólera”)?

  5. Davi sales Says:

    un bueno libro!
    Davi sales

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