Variações sobre o mesmo tema

Os contos fantásticos de Guy de Maupassant reunidos pela L&PM (série Pocket) em “O Horla & outras histórias”, chamam atenção muito mais pelo potencial narrativo do que propriamente pelo enredo — neste aspecto Guy fica devendo muito a Poe. Algumas das obras que integram este livro — e os critérios de seleção não estão incluídos — carecem de verossimilhança interna.  Mesmo assim alguns contos se destacam como, A Morta e A Mãe dos Monstros.

 

No entanto, o livro traz outro aspecto interessante. Permite entender um pouco do processo criativo do autor: O Conto que dá título à coletânea, O Horla — que foi publicado em duas versões diferentes — foi ensaiado em Carta de um Louco. Em ambas histórias, o autor explora o potencial dos sentidos humanos, especialmente a visão que, por ser limitada, limita a nossa percepção de mundo. Os dois contos nos conduzem à cena diante do espelho, que parece ter sido a idéia central e ponto de partida para a busca da história perfeita.

 

A cena em questão — e até a ambiência (no caso o quarto) onde ela ocorre é a mesma nas duas histórias — é de um homem atormentado que se julga espionado por um ser invisível e acaba vivendo experiências sobrenaturais. Ele crê que uma forma de vida (humana?) de corpo transparente (portanto invisível) co-habita o seu quarto. O homem passa a tentar surpreendê-lo, tocá-lo, aprisioná-lo, porém sem sucesso. Até que um dia, após perceber um livro sendo folheado espontaneamente, ele avança sobre a cadeira onde o intruso estaria sentado e este salta (a cadeira se mexe) ficando supostamente encurralado no canto do cômodo onde há um grande espelho. O homem que se detém diante dele, não vê sua imagem refletida neste espelho ao que conclui que o Horla — assim ele o nominou — está entre eles.

 

Maupassant percebeu que tinha ouro nas mãos quando criou esta passagem e parece não ter ficado satisfeito com o resultado, ou ao menos inseguro com relação à melhor escolha.

São duas histórias, com três desfechos diferentes. Difícil dizer qual é o mais brilhante.

 

 

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Uma resposta to “Variações sobre o mesmo tema”

  1. Um outro autor interessante nessa linha é Gustavo Adolfo Becquer, o Poe espanhol. http://es.wikipedia.org/wiki/Becquer
    Gosto muito das suas “Leyendas”, especialmente “La Cruz del Diablo” e “El monte de las ànimas”.

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