Mentira tem perna longa

ariano-exposicaoFui um dos 1000 e poucos felizardos que assistiram à Aula-espetáculo promovida por Ariano Suassuna. Foi uma daquelas oportunidades únicas que só eventos como a Feira do Livro de Porto Alegre proporcionam.

O autor iniciou falando sobre sua identidade com o gaúcho Simões Lopes Neto: “Ambos gostamos de mentira, mas uma mentira boa. Aquela que não prejudica ninguém.”, advertiu. Ariano seguiu explorando o tema justificando que sua vida não tem nada de muito interessante, então ele inventa.

 

Contou sobre o “cabra” que inspirou a criação do personagem Chicó de “O Auto da Compadecida” que todos nós conhecemos. Era um mentiroso conhecido que reunia muitos em sua volta para ouvir suas histórias. Entre este narrador nordestino e os ouvintes havia um pacto de “suspensão da descrença”.  Certo dia um forasteiro que ouvia os relatos pela primeira vez, curioso sobre a veracidade dos fatos incríveis que acabara de escutar, perguntou: “Isso tudo é verdade?”. Pronto, foi o que bastou para o constrangimento geral. Até então, ninguém havia inquirido o contador de histórias a este respeito. Naquele momento quebrara-se o pacto da estabelecido entre narrador e ouvintes. O visitante foi posto pra fora da roda sob a revolta dos convivas.

 

Para ilustrar definitivamente o que ele tentava explicar, contou uma última história:

Dois amigos conversavam e um pediu ao outro que lhe contasse uma daquelas suas histórias extraordinárias.

O segundo concordou e logo começou o relato:

— Certo dia eu estava em alto-mar, ja era noite, quando notei que começara a entrar água no  barco. Como o volume d’água era grande a cabine encheu-se rapidamente antes que eu pudesse reagir a embarcação foi a pique. Já totalmente submerso tentei sair pela escotilha, mas era muito pequena e percebi que não conseguiria passar. Então peguei um pote de brilhantina que eu sempre carrego comigo, me despi e passei pelo corpo todo. Assim pude escorregar pela escotilha e ganhei a imensidão do oceano.

Então, quando pensava que tudo estaria resolvido, me deparei com um imenso tubarão. Foi aí que puxei da faca que trazia na cintura e…

— Péra, aí! Você não estava nu? Como poderia estar carregando uma faca na cintura?

— O amigo veio aqui pra ouvir uma história ou pra discutir? — indignou-se o contador.

 

É daí que vem a ficção.

 

Créditos:

A imagem que ilustra esse post foi retirada da divulgação da Exposição “Ariano Suassuna 80 – A Terra, o Altar, o Sonho”

Conheça os projetos de Ariano Suassuna, entre eles a Aula-Espetáculo, em

http://www.arianosuassuna.com.br

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Uma resposta to “Mentira tem perna longa”

  1. Leo, parabéns de novo pelo prêmio Luiz Vilela. É um dos mais importantes do país e eu fico bem feliz de ser vizinha de livro de um premiado!

    Bjs

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