Quem quer um Oscar?

Decompondo uma obra cinematográfica de uma maneira simplificada teríamos de um lado as coisas que realmente pertencem ao cinema (ou das quais o cinema se apropriou e transformou): fotografia, figurino, direção de atores, montagem, edição, etc. Do outro lado, o qual mais me interessa, estão roteiro, argumento, personagens e enredo. A soma de tudo isso e de outras coisas que desconheço é o que compõe a mais complexa das artes; a sétima.

É sob esta ótica que tecerei alguns comentários sobre a onda do momento: O oscarizado “Quem quer ser um milionário?”

Poderia ter sido um belo filme… mas lhe falta realismo. A história contada em flash back funciona, mas a trajetória de Jamal Malik no jogo de perguntas é totalmente inverossímil. Além disso, era de se esperar um clima mais pesado — visto que os garotos cresceram na periferia de Mumbain em situação precária e de exploração infantil —, mas o romance entre Jamal e Latika que era pra ser pano de fundo (fórmula manjada) acaba por encobrir as entranhas da história e retira do filme o caráter social transformando-o em um romance para Hollywood ver.  

Até aí tudo bem, ao frigir dos ovos o filme ainda estava salvo. Os personagens ainda estavam bem construídos e os atores saíram-se relativamente bem. Mas o golpe final estava por vir: o desfecho tipo musical da Broadway foi de tamanha infelicidade que parecia não pertencer ao mesmo filme. Se isso colaborou para a conquista da cobiçada estatueta, só o íntimo da academia sabe, mas tenho a impressão de que o diretor, Danny Boyle, no futuro pensará que deveria ter resistido à tentação. Lamentei tanto por ele e preferia não ter visto o final.    

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2 Respostas to “Quem quer um Oscar?”

  1. Fui ao cinema cheia de expectativa, imaginando o quão genial deveria ser a estória para, a partir de um enredo tão singelo (mas original), ganhar um Oscar.
    Resolvi não implicar com a dança do final porque não conheço o cinema de Bollywood e talvez isto seja algo usual. Descontextualizei.
    Vamos lá: o filme é uma fábula moderna que emociona em alguns momentos, mas está longe de ter lugar entre os melhores. Na minha opinião é esquemático (poderiam ter dado um mínimo de verossimilhança fazendo com que as perguntas do show não tivessem suas respostas exatamente na ordem cronológica da vida do Jamal) e apresenta personagens quase caricatas, mocinhos corajosos de um lado e vilões sádicos de outro, sem nuances ou questionamentos.
    Mas o que mais me pertubou foi a mensagem de que a vida da população pobre na Índia é muito divertida, apesar da violência, abandono, prostituição infantil, miséria e falta de perspectiva. Situações extremas de desgraça humana são suavizadas com panos coloridos e música enpolgante. Uma festa.
    E nem vou discorrer sobre a semelhança com “Cidade de Deus” no início do filme…

  2. lmcolucci Says:

    Concordo contigo. O aspecto da caracterização de mocinhos e bandidos havia me escapado.
    Aprendi no blog Dollari Rosso ( http://dollarirosso.blogspot.com/ ) que o grande legado do cinema conhecido como spaghetti wetern é que nem os mocinhos são totalmente bons, nem os bandidos totalmente maus. Isso os torna mais reais e, como disseste, menos caricatos.
    Um abraço,
    Leo

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