Células Beat

Se fosse possível a multiplicação de seres vivos a partir de uma única matriz, mais ou menos como as células se reproduzem a partir do embrião, para formar um indivíduo…

Poderíamos supor que Sal Paradise, Arturo Bandini, Hank Chinaski e outros, seriam adultos derivados de Holden Caulfield, o protagonista adolescente de “O Apanhador nos Campos de Centeio”, de J. D. Salinger. Ou que estes personagens de Kerouac, Fante e Bukowisky, seriam o jovem Holden quando adulto.

O que há de sedutor no caráter desta turma é a liberdade levada às últimas conseqüências. Uma opção de vida que não se abala nas dificuldades ou provações impostas pela sociedade e encontra dignidade em situações que seriam suficientes para deixar os cidadãos comuns sentindo-se envergonhados de seu destino. A minha trajetória como leitor me levou a Salinger pelo caminho inverso. Como quem nada contra a corrente para encontrar a nascente e lhes digo que foi uma experiência gratificante. Mas e agora, para onde ir? Existe alguma coisa antes de Holden? Não que eu saiba. Então o negócio é deixar-se levar novamente pela correnteza e apreciar a que outras paisagens este caudal pode me levar.

Seguindo o veio principal encontrei Seymour Glass, Esmé e o Sargento X no livro Nove Estórias, também de Salinger. E dali em diante vários outros afluentes.

Nove estórias vive à sombra do Apanhador…, mas traz relatos ácidos, afiados e surpreendentes de vários destes “desajustados”. Em sua grande maioria não tiveram força para manterem-se no jogo, mas a sua dignidade permaneceu intacta.

Nove Estórias é um daqueles livros que precisam ser lidos, mas comece pelo Apanhador… esse sim fundamental.

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2 Respostas to “Células Beat”

  1. Quantos km/l faz seu carro?

    “… a questão é que nós sabemos o que AQUILO significa e sacamos a VIDA e sabemos que tudo está ÓTIMO.” Depois, me puxando pela manga, e suando horrores, ele me segredou: “Agora saca esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem – e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando – se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim. Escuta só: ‘Bem agora’”, imitou ele, ‘não sei, talvez devêssemos parar para encher o tanque de gasolina ali naquele posto. Li recentemente no National Petroffious Petroleum News que esse tipo de gasolina tem grande quantidade de O-Octane e alguém já me falou que ela até possui um aditivo semi-oficial de alta potência e quem sabe…bem, não sei se deveríamos, acho que talvez….De qualquer forma eu não to afim.’ Cara, você também saca tudo isso.” Dava-me cotoveladas furiosas nas costelas, pra que eu o entendesse. Tinha de usar minha energia máxima. Naquele banco de trás era só Bing, bang. Sim! É isso aí!, e os outros lá na frente enxugando o suor, aflitos, desejando não terem jamais nos apanhado naquela agência de viagens. E tudo isso era apenas o começo. …”

    Trecho do livro On the Road – Pé na estrada de Jack Kerouac.

    “… De certo modo, também era meio deprimente , porque a gente ficava pensando no que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões. Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo no pingue-pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro. …”

    “… _ Os carros, por exemplo – eu disse. E falei numa voz muito calma. – A maioria das pessoas, são todos malucos por carros. Ficam preocupados com um arranhãozinho neles, e estão sempre falando de quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina e, mal acabam de comprar um carro novo, já estão pensando em trocar por outro mais novo ainda. Eu não gosto nem de carros velhos. Quer dizer, nem me interesso por eles. Eu preferia ter uma droga dum cavalo. Pelo menos o cavalo é humano, poxa. …”

    Trechos do livro O apanhador do campo de centeio de J.D.Salinger

    Hoje faço muitos cálculos para saber se as coisas são viáveis ou não (inclusive o da gasolina). Acho que isso é inevitável, ao menos para mim! Depois de constatado que aquilo é viável, aí sim fecho os olhos e sinto AQUILO (como Kerouac diria). Tento pegar a essência das coisas! Já li estes trechos inúmeras vezes fazem alguns anos. Tenho eles marcados nestes dois livros. Leio-os sempre quando acho que as coisas estão muito “certas”.
    Mas utilizando o mesmo exemplo dado por estes personagens, espero que ninguém mais volte de uma viagem e me conte apenas quantos km seu carro fez com um litro de gasolina! Bahh! Aí não !!!!!
    Neste caso, certamente poderíamos supor que Sal Paradise é um adulto derivado de Holden Caulfield. Não apenas pelo mesmo exemplo utilizado por ambos, mas sim pelo conteúdo dos bastidores.
    Acredito que Arturo Bandini e Hank Chinaski também possam ser adultos derivado de Holden. Deixo estes personagens para outros que queiram se manifestar.

  2. “espero que ninguém mais volte de uma viagem e me conte apenas quantos km seu carro fez com um litro de gasolina! Bahh! Aí não !!!!!”…

    Puta que pariu, isso é muito bom! É pura verdade!

    Ah, meu velho… Viver é ter histórias interessantes pra contar.

    Um abraço do Dinho!

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