Você quer mesmo escrever?

A literatura está padecendo de mal semelhante ao que a música enfrenta há mais tempo: tá muito fácil escrever e tornar-se escritor virou aspiração de muita gente que nem sequer é um bom leitor. A popularização dos blogs contribui muito para isso. Outro dia o Luis Augusto Fischer anunciou em sua coluna do jornal Zero Hora de Porto Alegre que estava encerrando o seu blog. Os motivos dessa decisão era o baixo nível dos comentários e críticas sem embasamento que seus seguidores postavam livremente ou democraticamente.

Por conta disso, os novos autores, que se valem desta mídia para divulgar suas idéias e seus trabalhos, são vistos com preconceito ou, no mínimo, com desconfiança. Mas isso também é uma simplificação imprecisa. Logo, essa não é toda a verdade. Existe muita coisa boa na web, mas tem que procurar.

O valor de um texto literário está intimamente ligado à honestidade de seu autor… O que o impulsiona a escrever? De onde vêm as suas idéias? O que move os seus pensamentos?

Caio Fernando Abreu, assim socorria um amigo que refletia sobre o ato de escrever:

Você só pode escrever se vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Então vai, remexe fundo… Isso é escrever. Tira sangue com as unhas… Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação.

A seguir, Caio provoca:

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, frequentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos.

Leitores experientes sabem distinguir quem escreve para libertar-se, como sugere Caio, daqueles que o fazem por vaidade.

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