Além do subsolo

Por três vezes iniciei a leitura de “Memórias do Subsolo”. Nas duas anteriores fui até a metade. Desta vez senti muita vontade de desistir no meio novamente. Lembrava de um dos princípios básicos do leitor: se um livro não te conquistar nas primeiras páginas, não vale à pena continuar. Por que, pela terceira vez, eu empacava no mesmo lugar? Seria o estilo? Com certeza não, já o conheço e gosto. O conteúdo? Provavelmente, pois até este momento o livro é um monólogo de um homem muito deprimido, amargurado e… raivoso. Eu próprio tive raiva dele. E como!Depois de refletir por uns três dias (quando inventariei todos os livros que tenho em casa e ainda não li), continuei. 

A segunda parte do livro, se apresenta com o título de “A propósito da neve molhada”. Algo animador para quem em duas tentativas anteriores não havia conseguido sair do subsolo  (Subsolo é o título da primeira parte).  A partir daí a narrativa toma um formato mais universal e deixa de ser um monólogo e passa a ser um relato de breves experiências do narrador (que nem tem seu nome revelado em todo o livro). É quando ele tenta vir a superfície para se relacionar com outras pessoas. Mas os monstros interiores que o atormentam permanecem ativos desafiando-o incessantemente. Dostoievsky usa duas passagens corriqueiras para trazer a tona todos os tormentos que o homem do subsolo passou as primeiras 50 páginas vertendo de maneira ácida e rancorosa. 

O homem convicto enquanto dialoga consigo mesmo na primeira metade do livro, revela-se confuso ao encarar o mundo real. Primeiramente em um jantar com amigos onde ele faz questão de atrair para si o ódio e o desprezo dos companheiros que não escondem o desagrado com as suas manifestações, a seguir, quando se defronta com a prostituta Liza que desperta nele sentimentos “repulsivos” tais como compaixão e ternura. A perturbação emocional que o narrador-personagem passa a viver a partir de seu encontro com a moça revelam uma espécie de anti-heroi que inspirou gente como Bukovisky e Fante.

Memórias do Subsolo é “a voz do sangue” como definiu Nietzsche. Uma travessia difícil.

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