A Autoestrada do Sul

Nem chegou o verão e a engarrafadora Free-way (estrada que liga Porto Alegre ao litoral) já mostrou sua força. Volta de feriadão é sempre um teste à paciência. Na realidade essa é a forma mais estúpida de gastar o tempo. Mesmo que se aproveite o as intermináveis horas pra conversar ou pra ouvir música, uma hora os assuntos acabam e os cds terminam. Aí, muita criatividade e bom humor para espantar o cansaço e a indignação.
Tentando amenizar o momento, lembrei de um ótimo conto de Júlio Cortazar, que está no livro “Todos os fogos o fogo”. Chama-se “A Autoestrada do Sul” (que poderia se chamar Free-way, a nossa Rodovia Marechal Osório). Nele, Cortazar narra um engarrafamento imenso que teria acontecido numa das rotas de acesso a Paris. Os carros ficaram imobilizados por uma semana, sem que os condutores tivessem para onde ir. Vítimas do inesperado, tiveram como primeira reação manterem-se na individualidade dos seus veículos, mas logo os mais sociáveis começaram a interagir com seus parceiros de infortúnio. A situação de crise logo produziu seus líderes e iniciou-se um processo de integração social e, com o passar do tempo, de divisão de mantimentos: um saco de bolacha aqui, uma garrafa de água ali… Essa sociedade não tardou a ter seus problemas quando as diferentes personalidades e caracteres se manifestaram. Sonegação, sentimento de injustiça, reivindicação por privilégios e rusgas diversas provocavam divisões no grupo.
Dentre as relações que se estabeleceram Cortázar destaca a do engenheiro do Peugeot e a moça do Dauphine (o equivalente ao nosso Gordini). Sim, os personagens não têm nome, respondem por: os meninos do Taunus, o casal de velhos do Citröen ou o homem pálido do Caravelle. Bem, o casal, que passara a dividir os bancos do Peugeot, fazia planos de eternidade e imaginavam um vida em conjunto. Quando o trânsito finalmente começa a fluir “como o início de um movimento migratório”, todos correm para seus carros e põem-se em marcha. Os motoristas anciosos aceleram e ganham velocidade. As filas não conseguem manter se paralelas e, impotentes, os amantes vêem seus carros se perderem um do outro. Só então, o engenheiro do Peugeot percebe que não sabe nada sobre a moça do Dauphine. As luzes da cidade se aproximavam e o homem já não tinha mais pressa, pois concluíra desesperado que perdera o seu amor para sempre, pois “na noite entre automóveis desconhecidos onde ninguém sabia nada sobre os outros, onde todos olhavam fixamente para a frente, exclusivamente para a frente” nada mais podia ser feito.

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2 Respostas to “A Autoestrada do Sul”

  1. Olá Leonardo!
    Em janeiro passarei pela free-way. Espero que esteja livre, sem engarrafamento!
    Um abrç.

  2. O bom da free-way é pra onde ela nos leva, mas pode ter certeza que, em um fim de semana de janeiro, vai estar engarrafada. Paciência e uma boa música ou um bom livro ajudam a tornar o suplício menor.
    Um abraço,
    Leonardo

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