Mostrar ou Contar?

Se os livros tocam as pessoas de formas diferentes e se a relação que os leitores têm com a leitura é tão diversa, como, então, classificar a qualidade de uma obra literária? É possível estabelecer critérios simples para “pontuar” um texto? Se as pessoas julgam os livros que lêem a partir de critérios tão disitintos quem tem razão; quem gosta dos best sellers ou quem prefere os clássicos?

Um movimento criado no início do século XX na extinta União Soviética, conhecido como Associação para o Estudo da Linguagem Poética — OPOIAZ, criou um quesito chamado literariedade (em tradução livre) que seria uma espécie de medidor de quão literário um texto era. Este conceito é um tanto complexo e para entendê-lo melhor precisaria colocá-lo no contexto hostórico e social em que este grupo formado em Petesburgo o desenvolveu. Há bons artigos na Internet que revelam ou sintetizam o legado do “Formalismo Russo” para quem quiser aprofundar-se no assunto.

Basicamente, por tratar-se de um conceito acadêmico, as teorias formuladas pelo OPOIAZ não são tão fáceis de aplicar. Entretanto, algumas coisas simples podem ser úteis para separar uma coisa da outra: uma delas é o “Contar” e o “Mostrar”.

Existem duas formas de narrar uma história: a primeira, que é o caminho mais fácil e não requer esforço do autor nem do leitor, é o contar; a segunda, mais difícil para ambos, é o mostrar. Vejamos:

Um autor pode redigir linhas e linhas descrevendo como uma mulher é bonita. Outro pode simplesmente dizer algo do tipo: “os rapazes sentados à mesa e aqueles que andavam pela calçada acompanharam-na com os olhos quando ela passou”.

Na segunda opção, todos entendemos que trata-se de uma mulher bonita e permite que cada leitor crie a imagem de uma mulher bonita à sua maneira. Ao passo que o primeiro caso podemos até discordar que a descrição feita pelo autor não seja exatamente o nosso padrão de beleza.

Em Memórias do SubSolo o protagonista da novela de Dostoieviski inicia a narrativa dizendo-se um homem atormentado. Nem precisava, pois todas as atitudes e os pensamentos revelados pelo personagem não deixam dúvida de que estamos diante de um homem deprimido, com raiva, com a mente confusa, paranóica, ou, em resumo, atormentado. 

Alguns autores de best seller são capazes de passar o livro inteiro dizendo que um determinado personagem estava nervoso e, no entanto, nenhuma das suas atitudes convencem o leitor mais atento de que o personagem esteja realmente nesse estado.

Um bom autor nos faria concluir que o personagem está nervoso apenas descrevendo seus atos sem, necessariamente, utilizar algum clichê como andar de um lado para o outro ou bater os dedos sobre uma mesa. Isso é mostrar.

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