Vacas que caem do céu

Existe uma coisa em literatura chamada “Suspensão da Descrença” (ou “Pacto de Verossimilhança”). Através dela torna-se natural para o leitor que os porcos falem — como em “A Revolução do Bichos” — ou que um homem se transforme em um gigantesco inseto — “A Metamorfose”. São eventos impossíveis no mundo real, mas que tornam-se aceitáveis na ficção.
A verdade é que o leitor pode ser convencido a acreditar em qualquer coisa, desde que o autor tenha habilidade para tornar o ambiente ficcional verossímil.

Todo mundo em sã consciência sabe que os animais não falam, mas torna-se fácil aceitar isso quando estamos lendo a obra de George Orwell. Não é apenas boa vontade com o autor, trata-se de ser absorvido pela trama de tal forma que coisas estranhas, dentro do universo em que nos dispusemos a entrar, sejam aceitáveis.

No entanto, nem todos autores conseguem adesão dos leitores a este pacto. Mesmo dentro de um universo fantástico os acontecimentos têm de ser aceitáveis. Um simples deslize na lógica da ficção pode romper este pacto e por toda a história a perder.

Aplicando esta teoria ao cinema, vários exemplos poderiam ser citados. Alguns filmes têm pouco ou nenhum compromisso com a verossimilhança (especialmente comédias, ou filmes de ação). Isso é compreensível, pois alguns gêneros do cinema permitem essas “licenças” da realidade e funcionam dentro dessa proposta. Quando se assiste, porém, um dito “filme de arte” há uma relação muito próxima à boa literatura. Sob essa ótica — para citar dois filmes recentes — podemos avaliar os longas “Um Conto Chinês”, do diretor Sebastián Borensztein e “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese. No caso da película argentina, não parece absurdo o fato de uma vaca cair do céu sobre um casal de namorados que navega em um pequeno barco. Já no oscarizado Cabret, a sequência de coincidências a que o destino do pequeno Hugo é submetido conseguem romper com o encanto e a beleza do filme. É lamentável e surpreendente que Scorsese tenha cometido um deslize tão elementar.

Muitas coisas que são plausíveis na vida real, parecem inaceitáveis quando contadas como uma obra de ficção.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: