Narradores incomuns

A comparação entre Ermelindo Mucanga e Bras Cubas é inevitável, mas injusta.

À luz da originalidade, o narrador defunto de Machado de Assis pode ser considerado mais importante do que o narrador xipoco de Mia Couto, porém sob o ponto de vista literário, a história contada pelo morto de Moçambique é muito superior.
Não apenas a densidade do enredo, e a mensagem intertextual – sobretudo o contexto político e social – da obra de Mia, mas epecialmente a qualidade do narrativa de “A varanda do frangipani” fazem deste livro uma pequena obra de arte.

Separados por dois séculos, os protagonistas têm em comum o fato de narrarem em primeira pessoa histórias depois de terem deixado o mundo dos viventes . Mas enquanto o brasileiro traz à tona suas próprias memórias enquanto vivo, o africano narra o presente de xipoco (fantasma) encarnado no corpo de um inspetor que investiga um crime acontecido no asilo em cujo pátio (à sombra do frangipani) foi enterrado Ermelindo.

Assim, Mia utiliza um narrador que vê tudo o que o inspetor Izidine Naita, porém sem acesso aos seus pensamentos, uma vez que o policial é o “hospedeiro” do espírito de Mucanga. Nesta situação, quem narra é o carpinteiro, mas quem fala e age na cena é o inspetor.

Por tudo isso, “A varanda…” é um livro de alta qualidade narrativa e de raro domínio da linguagem.

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