O livro ou o filme? Os dois

Toda a vez que se leva um livro para o cinema – seja uma adaptação livre, ou uma versão que se propõe a ser fiel à obra – abre-se a discussão: qual é melhor, o livro ou o filme? Essa discussão é inútil, se entendermos que são duas formas diferentes de arte (com recursos diferentes, linguagem diferente e, sobretudo, um formato totalmente distinto).

Em “A contadora de filmes”, do chileno Hernán Rivera Letelier, essa conversão entre as duas linguagens, se dá no caminho inverso.

No romance, que tem lugar em um povoado de mineiros no deserto do Atacama, a  menina, Maria Margarita, é uma habilidosa narradora de filmes que alcança popularidade na comunidade miserável que sobrevive em torno das minas de sal.

O ofício começa quando, após uma competição entre irmãos, ela é escolhida pelo pai para assistir às sessões de cinema tão logo uma fita nova chega ao vilarejo. O orçamento da família, não permite que todos paguem pelo ingresso, então a menina recebe a missão de contar o filme com a máxima riqueza de detalhes assim que retorna pra casa.

Aos poucos a narradora desenvolve recursos cenográficos e técnicas de interpretação que a tornam popular pela habilidade dramática e a forma envolvente que os clássicos do cinema americano e mexicano.

A sala da casa passa a receber uma audiência cada vez maior e muitos dizem preferir ouvir o filme contado pela garota a assisti-lo na sala de projeção. Embora não admitam, a linguagem complexa do cinema nem sempre é compreensível para aquela comunidade humilde. Desta forma, o filtro aplicado por Maria torna a trama de fácil interpretação, mesmo para aqueles com alcance intelectual limitado.

Com fim da exploração nas minas o vilarejo vai sendo abandonado e Maria termina por ser a única habitante da cidade fantasma, esquecida pelo mundo, assim como o cinema da época perdeu espaço para a televisão.

Há notícias de que o livro será adaptado para o cinema por Walter Salles, o que encerrará o ciclo iniciado por Rivera Letelier: o filme que vira livro e que torna a ser filme outra vez.

A seguir um flash da trama na voz da própria narradora:

“Acho que no fundo eu tinha alma de fuxiqueira, pois além de tudo me bastava bater os olhos nas duas ou três fotos pregadas no cartaz – pelo olhar lascivo do padre, o sorrisinho inocente da menina ou o gesto cúmplice da beata – para poder inventar uma trama, imaginar uma história inteira e passar o meu próprio filme.”

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