Nonsense, ou pura doideira

O Púcaro Búlgaro é um livro divertido e já causa estranheza na largada. O autor, o maluquete Campos de Carvalho, abre o romance com um prólogo intitulado “Explicação Necessária”, onde o autor traz à tona um tema fundamental: a Bulgária Existe? Como isso fosse realmente um mistério da humanidade, ele aponta alguns elementos que sustentam tal hipótese. Termina por avisar que os relatos que virão são apenas informativos e visam narrar com fidelidade a busca por esta verdade absoluta. Até aí, nada de mais. Porém, a este prólogo se segue um segundo chamado “Explicação Desnecessária”. Neste segundo prólogo o narrador conta como foi ameaçado por búlgaros (se eram autênticos, não teve chance de comprovar) para que não publicasse o “espantoso documento”.

Logo percebemos que a publicação se trata de um diário no formato clássico das narrativas deste tipo, cada capítulo traz no topo uma data, à moda clássica dos diários. Porém, logo encontramos uma data de 32 de outubro por exemplo ou, simplesmente, século XX em outro apontamento cronológico.

O texto é composto por pensamentos desconexos que muito se aproximam da esquizofrenia e conduzem o leitor a caminhos incertos e incoerentes. Pela habilidade narrativa do autor, somos tentados a nos deixar levar. Principalmente por que o caminho é muito divertido. Os diálogos entre os personagens (imaginários ou reais, não sabemos).

Os amigos que planejam partir em busca do descobrimento da Bulgária (segundo entendem, tão relevante quanto a ida à lua – que aconteceria anos depois) são: Hilário, o narrador, Pernacchio, Radamés, Expedito e Ivo Que Viu a Uva (este último sempre que citado no livro vem com o apêndice de que viu a uva).O Púcaro Búlgaro

A leitura, embora confusa, se torna leve pelas discussões intelectuais
hilárias dos amigos, mas, carente de profundidade, não teria fôlego para ir muito mais longe. O volume tem pouco mais de 100 páginas (depende da edição). Uma boa dica para se ler entre um romance e outro.

Por esse breve resumo, pode-se perceber que a obra de Campos de Carvalho não se enquadra no senso comum. Nonsense ou pura doideira? Cada um que classifique por si.

O próprio autor mineiro em certo momento definiu a si e a uma de suas obras conforme trecho abaixo.

“Há quem me tome por louco e eu mesmo já me tomei. Mas basta uma visita ao hospício para me convencer — desgraçadamente — do contrário. É como se fosse um lobo vestido com a pele de um cordeiro: expulsam-me só pelo faro. O título do livro que estou escrevendo no momento é exatamente Maquinação da Máquina, Especulação de Espelho. Assim como a 4ª Sinfonia de Charles Ivens exige a presença de três maestros para ser bem interpretada, assim também penso que esse meu novo livro, para ser bem compreendido, deva ser lido simultaneamente por três leitores”. Revista O Cruzeiro, 30 de outubro de 1969

 

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2 Respostas to “Nonsense, ou pura doideira”

  1. Tenho há muitos anos essa preciosidade, um livro tão desconhecido quanto A lua vem da Ásia. Definitivamente, um autor para iniciantes e iniciados.

    Um abraço.

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