Mais humano que os humanos

Tivessem trabalhado em conjunto ou realizado um acerto de copyright, Nietzsche poderia ter emprestado o título “Humano, demasiado humano”, para Mary Shelley batizar a sua novela escrita na mansão de Lord Byron.

A situação proposta acima é impossível de ser cogitada, pois o filósofo alemão e a escritora inglesa, nem sequer viveram na mesma época, mas este título cairia muito bem para a obra prima da jovem autora.

……….

Uma criatura concebida em laboratório e dotada de um coração puro e bondoso, se revela – através de suas reflexões ante a observação do mundo (na tentativa de compreendê-lo) e seu próprio sentimento – muito mais humanizada que seu criador, o cientista Victor Frankenstein.

O jovem químico de Genebra dotado de virtudes e uma capacidade intelectual diferenciada, dedica-se à ciência em busca de um grande feito. E como é próprio dos obstinados, torna-se relapso em relação à sua família e amigos. O que causa aflição em sua prima, que percebe o esmorecer do amor que Victor sempre lhe devotou ao ver tornarem-se escassas e vagas as cartas que recebe da Inglaterra.

E é nesse ponto que a clássica história de horror, revela o contraste – irônico – entre o monstro e o respeitável cientista.

Enquanto a criatura hedionda, rejeitada pela sociedade, busca encontrar uma maneira de ser aceita, Victor revela traços sutis (não perceptíveis a uma leitura desatenta) de egoísmo e narcisismo.

Se o pobre Victor, consome-se em uma culpa silenciosa e digna de pena, por ter dado vida à tão nefasta criatura, é com o monstro, no entanto, que se passa o conflito mais interessante. E esse é o segredo (presente na “história cifrada”), para o sucesso da obra de Shelley.

A desengonçada aberração – cuja ingenuidade é capaz de comover leitores há quase dois séculos -, descobre-se com uma capacidade infinita de amar, mas incapaz de ser amado. Pior, desperta ódio naqueles que eram para ser seus semelhantes apenas pela sua grotesca aparência. Difícil de compreender e doloroso de conviver.

Essa metáfora se materializa constantemente na sociedade e é matéria preferencial nos tele-jornais. A violência e o ódio dos seres humanos a quem chamamos de monstros, no mais das vezes têm a mesma raiz: a incompreensão e a falta de amor.

Quem leu Frankenstein de Mary Shelley por obrigação ou com desleixo, tente outra vez. Vai valer à pena.

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Uma resposta to “Mais humano que os humanos”

  1. Deborah Anderson Says:

    Ótima associação de ideias. Para o bem e para o mal, ou para além do bem e do mal, é necessário pensar sobre…

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