Suspensão da descrença

Quando se estuda a ficção um dos primeiros temas que precisam ser compreendidos é a suspensão da descrença.

Ou seja, a narrativa de ficção só convence se o autor for capaz de trazer o leitor para dentro da história de tal forma que este considere irrelevante refletir se as situações e os personagens que fazem parte da trama que está sendo contada são reais ou não.

O sucesso deste intento depende também da disposição do leitor em aceitar tal pacto. A boa vontade do leitor em dar crédito ao narrador, no entanto, pode acabar subitamente se o elemento essencial desta equação estiver presente: a verossimilhança interna.

O tema “verossimilhança” já foi abordado em outros posts, hoje vamos nos ater ao tal pacto para suspensão da descrença.

O leitor precisa estar disposto a aceitar que porcos falem – como em “A Revolução dos Bichos” – ou que se possa viver em Marte – como em “As Crônicas Marcianas” -, mas ele só o fará se o autor for hábil e se nada perturbar o universo em que o leitor se inseriu à convite do livro que tem nas mãos.

Quanto à habilidade do autor não há discussão, é condição primária. Quanto à perturbação do universo ficcional, porém, há controvérsias. Vários são os autores que se intrometem na narrativa para lembrar o leitor que aquela história que se conta não passa de ficção. Machado de Assis, talvez seja o mais óbvio de ser citado. Ele se dirige ao leitor o tempo inteiro inclusive sugerindo que pule um capítulo ou que interrompa a leitura para pensar. Mas há outro que fez isso mais modernamente e de maneira magistral: José Saramago. Em “O Homem Duplicado”, por exemplo, ele fala sobre a influência externa que o autor exerce sobre o personagem e o rumo da história como no trecho reproduzido abaixo.

“Há alturas da narração, e esta, como já se vai ver, foi justamente uma delas, em que qualquer manifestação paralela de ideias e de sentimentos por parte do narrador à margem do que estiverem a pensar os personagens deveria ser expressamente proibido pelas leis do bem escrever” … Edição da Companhia das Letras pág. 34.

Além de uma opção técnica essa exposição do autor carrega um pouco de vaidade. Pois a intervenção faz lembrar que existe um trabalho narrativo e o foco se desloca para a capacidade técnica do escritor em explicar o domínio que tem sobre a arte de escrever.

Ainda assim, é uma opção arriscada, pois apenas quem tem domínio da técnica e o controle do texto saberá fazer estas inserções sem prejuízos à narrativa e sem ofender a verossimilhança interna.

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