Café frio

No início eu gostei da ideia. Como tínhamos turnos inversos — eu trabalhava à noite e ela de dia —, passei a ter mais tempo livre. Joana andava animada com seu novo emprego. Eu fingia interesse em ouvi-la contar o seu dia entediante de trabalho. Era uma rotina patética de pura mediocridade. Mas ela parecia feliz. De alguma forma, sentir-se ganhando seu próprio dinheiro tornou-a uma companhia mais agradável. Mais bonita, até. Mas o melhor de tudo foi que, estando ocupada de si, esqueceu-se de tentar me controlar.

Com a liberdade de quem não precisa disfarçar o hálito de álcool ou preocupar-se com o perfume das camareiras na pele, passei a viver da forma que estava acostumado antes de vir morar com Joana. Foram noites gloriosas, as primeiras. Chegava em casa todas as manhãs depois que Joana já havia saído com suas sacolas de produtos para oferecer aos clientes. Quanto custavam mesmo aqueles cosméticos? Deviam valer um bocado, pois ela estava fazendo mais dinheiro que eu. Súbito, ela passou a vestir-se melhor. Andava mais vaidosa, mas não tive a decência de perceber. Devo confessar que as noites com minhas colegas da limpeza, já não eram tão prazerosas assim. A verdade é que me cansei delas. “Oh, Raymond, hoje é a minha vez”. Betty, Pam, Liza, apenas nomes diferentes para uma mesma mulher. Nada mais que um par de seios, maior ou menor, uma bunda mais firme ou mais empinada. Casadas, solteiras, novas ou velhas, tímidas ou desinibidas. De resto tudo igual.

Enquanto eu reconhecia — não sem certo espanto — que me importava com Joana, ela parecia cada vez preocupar-se menos comigo. Não reclamava mais das minhas atitudes, não ligava se passássemos dias sem conversar e não deixava mais o café pronto para quando eu chegasse do trabalho. Esforçava-me em meu desleixo, tentava agir como egoísta e ela nem ligava. Passei a vir do hotel direto para casa, mas já a encontrava de saída. Mesmo quando chegava mais cedo, ela me tratava com indiferença. Nossos encontros foram-se tornando mais raros. Agora quem não tinha hora pra chegar era Joana. Por muitas vezes, saía para cumprir meu turno da noite sem que ela ainda tivesse voltado. Fiquei realmente confuso.

Não cheguei a lhe dizer, mas sentia sua falta. No entanto, compreendia que seria ridículo admitir tal coisa. Em breve, os papéis se inverteram e quem passou a empenhar-se em agradar ao outro fui eu. Mantive a casa em ordem, abasteci a cozinha de mantimentos e cuidei das plantas. Tomava banho e me barbeava todos os dias. Foi nessa época que passei a tomar remédios para dormir. Coisa que ela já havia deixado de fazer.

Larguei o emprego no hotel para estar mais tempo em casa. Assim vim a saber que Joana passava dias sem aparecer. A julgar pelo estoque de perfumes, batons e esmaltes, ela devia estar se arranjando de outro jeito. Resolvi perguntar. “Vá pro inferno”, ela disse. “Me desculpe”, eu disse. Ela não respondeu. Colocou a bolsa no ombro e saiu.

 

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