Dionísio e Eu

 

 

            Conheço o Dionísio desde os tempos de piá na Vila da Paz em Cachoeirinha. Ele queria ser jogador de futebol, chegou a fazer teste no Grêmio, treinou uns dias e foi dispensado. Eu não, eu queria um emprego decente, com carteira assinada e salário fixo, algo que eu pudesse me orgulhar, não tipo o meu pai que vivia sujo de graxa ou o meu tio que mendigava serviço pra ganhar algum dinheiro. Os dois se sujeitavam a cada coisa que dava pena.

            O Dione largou a bola, mas resolveu continuar em Porto Alegre. Depois de ter saído de casa, não queria mais voltar. O clima lá não era mesmo dos melhores — o padrasto dele era foda. Então me chamou pra morar com ele. Fui e logo arranjei um emprego de contínuo num escritório de advocacia. Depois do serviço eu tirava um curso para auxiliar de radiologia, estes lugares onde se faz raio-X. O Dione trabalhava a noite num bar que eu nunca entendi direito onde era e, como eu chegava em casa sempre cansado, nem via a que horas ele voltava. Nos fins de semana eu ia para Cachoeirinha tentar pegar umas gurias, mas o Dione ficava em Porto fazendo serão e enchendo a cara de vinho. Foi uma época em que ele se arrebentou no trampo, mas tava entrando uma grana legal. Dava pra notar só pelas coisas que ele comprava.

            Logo o Dione levou um camarada pra morar com a gente, um tal de Binho. O cara era esquisito, vivia chapado e passava o dia vadiando. Nem as coisas da casa ele fazia e não existe nada que eu odeie mais do que esses sujeitos que exploram a confiança e amizade dos outros. Eu aturava ele em consideração ao Dione, embora eu não entendesse como o Dione podia dar arrego prum cara tão vagabundo. Fazer o quê? Ele mesmo andava muito diferente… Tentei conversar, mas ele pediu que eu não implicasse com o Binho, senão o Binho ia se chatear comigo e seria pior. Fiquei na minha por um tempo, até o dia em que cheguei em casa e encontrei o Dione todo ralado. Com o olho roxo e cheio de hematomas no corpo. Não tive dúvida: ele tinha tomado um pau do Binho.

    Ô meu velho, o quê que ele fez contigo?

    Não foi nada. Não te preocupa Márcio.

    Eu vou matar aquele filho da puta a hora que ele voltar.

    Não vale a pena, deixa assim Márcio. É melhor que ele vá embora.

    Por que ele fez isso, Dione?

    Deixa assí-imm…

    Por que ele fez isso contigo, porra? Tu é um cara grande, porra. Por que deixou ele te bater assim?

    Ah, não posso te dizer, Márcio. Outro dia eu te conto.

    Tu deve dinheiro pra ele?

    Não, claro que não.

    Então me diz agora o que houve, se não eu vou atrás desse cara e faço ele me falar. Onde já se viu fazer isso com um cara como tu. 

    Se eu te contar tu promete que deixa ele em paz?

    Não tô te entendendo, Dione. Tu tinha que tá puto com esse pau no cu. Tu nunca foi homem de apanhar quieto. Qual é a razão disso? Tem mulher no meio, só pode.

    Não é nada disso. Acho que tu nunca ia entender.

    Então me fala, caralho!

    É que eu cansei de dar dinheiro pro filho da puta gastar com droga ou sei lá o quê. Aí ele pediu de novo, eu disse que não dava e ele me espancou.

    E por que tu dava dinheiro pro vagabundo?

    Porque ele ameaçava me deixar e contar tudo pra ti.

    Contar o quê?

    Deixa pra lá, Márcio.

    Pô véio, eu sou teu brother. Se for pela droga, eu te arrumo. Eu falo com o Almirante e ele traz, tu sabe.

No outro dia não fui trabalhar. Liguei do celular do Dione e inventei pro pessoal do escritório que estava doente. Eles são gente fina e entenderam. Até perguntaram se eu precisava de alguma coisa… Fiquei, na verdade, pra cuidar do Dione e pra tá junto com ele caso o Binho voltasse. Tranquei a porta por dentro, ele ainda tinha a chave. Enquanto eu fazia uma canja — o pobre do Dione tava com a boca arrebentada — ouvi umas porradas na porta. Era ele. Peguei uma faca de cozinha e fui abrir. Eu tinha que pegar as chaves dele — trocar o segredo da fechadura deve ser caro pra caramba. Quando ele me viu quis correr, mas eu agarrei ele pelos cabelos, depois dei uma gravata com o outro braço, troquei a faca de mão e encostei a ponta nas costelas.

    Larga essa chave, ô merda — ele ainda tava com o molho na mão.

    Tá bom, tá bom, mas me solta.

    Sai fora cagão, filho da puta.

    Eu sei, tu quer comer esse marica sozinho, né. Deve ser veado igual a ele.

    Cala a boca, desgraçado — e tirei ele pra fora a coice.

Eu sou um cara esperto. Me criei no meio da malandragem. Conheço todo o tipo de sem-vergonha. Mas nunca tinha desconfiado do Dione. Aí voltei pra terminar o almoço e fiquei matutando sobre o que o Binho tinha dito. “Veado igual a ele…”. Não pode ser… Será?

… Tá certo que a surra foi grande, mas já era hora do Dione ter parado de chorar. Nunca tinha visto ele assim.

 

******

 

            O Dione se recuperou, botou prótese nos dentes e nos peitos. Cara, tenho que admitir: ficou um mulherão. Se eu não conhecesse ele de antes, não ia acreditar que já tinha sido homem. Sinceramente… O quarto dele agora era cheio de roupas de mulher e de presentinhos que ganhava à noite. Às vezes, voltando do curso, eu passava pela Câncio Gomes só pra dar um alô e ver se estava tudo bem. Ficava meio chateado quando tinha algum cara grosseiro que parava o carro pra incomodar ele. Às vezes, quando o movimento tava fraco, a gente voltava junto pra casa. É, continuamos dividindo o apê da Garibaldi mesmo depois que ele se assumiu.

No geral ele parecia feliz, mas às vezes andava meio deprimido e não havia nada que o alegrasse. Então a gente tomava alguma bola e ficava conversando até tarde. Nessas noites ele não ia trabalhar.

Ele era muito camarada e se preocupava comigo também. Quando eu briguei com a Rochele, por exemplo, ele me deu uma baita força. Era legal falar destas coisas, parecia que eu tava conversando com uma amiga. Ele entende as mulheres muito melhor do que eu.

Numa das suas crises ele levou mais tempo pra se recuperar. Eu não sabia mais o que fazer pro cara reagir. Doeu quando ele disse que nunca seria feliz, que nunca teria alguém, que as pessoas não o aceitavam… Ele tava mesmo malzão. Então pequei uma grana que eu tinha sobrando e comprei um cachorrinho. Um poodle; achei que ele ia curtir… E acertei na mosca. Ele ficou tão contente que me abraçou e me deu um beijo no rosto. Depois pediu desculpas e eu disse que tava tudo bem. E ainda tirei uma onda que ele tinha os peitinhos mais duros que a Rochele e ele riu. Fiquei pensando naquilo enquanto preparávamos a janta. Enchemos a cara, conversamos, fumamos, ficamos de galinhagem e eu acabei comendo ele. Pode parecer sacanagem, mas, agora que ele tá com o cabelo bem comprido e até com marca de biquíni, tu olhando ele de costas diz que é uma mina perfeita.

No começo a gente só transava quando bebia. Ficava um clima meio estranho. Mas eu fui achando cada vez melhor e mudei pro quarto dele. Aí passei a não querer mais vê-lo na rua e pedi que ficasse em casa que eu daria um jeito nas despesas. Eu trabalharia por nós dois. Ele dizia que agora que tinha o meu amor só se prostituía pelo dinheiro. Então parou. Me provou isso quando jogou o celular no Guaíba num domingo em que estávamos no terraço da Usina do Gasômetro. Eu, de minha parte, coloquei o braço por cima dele e saímos abraçados até o ponto de ônibus.

 

 

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