Passeio com Borges

“Os espelhos e a cópula

são abomináveis,

porque multiplicam

os homens”

— Jorge Luis Borges

 

     No centro da praça X, ao pé do busto de Borges, Emiliano Zanahya enfrentava o momento mais grave de sua incipiente carreira literária. Trazia nas mãos o recorte do jornal em que um crítico local diminuía o valor da sua obra chegando a acusá-lo de plágio ou, no mínimo — palavras dele — falta de originalidade. Desapontado, Emiliano recorreu à proteção de seu grande mentor para refletir sobre o significado do profundo golpe que acabara de receber. Como de hábito, estando a sós com o Mestre, iniciou o monólogo que tantas vezes lhe iluminara as ideias:

— Velho, hoje foi anunciada a sentença de morte deste escritor — dramatizou metaforicamente o jovem Zanahya. — O romance que, projetei eu, seria recebido como a grande novidade na Literatura Argentina, não resistiu a dois dias nas mãos de Gaston Mora, o implacável. Se é que ele realmente se deu ao trabalho de ler — refletiu, realçando seu estado de espírito.

O jovem escritor retirou a garrafa de gim do bolso interno do sobretudo e constatou com pesar, mas não com surpresa, que o líquido estava no fim. Era um entardecer gris de outono no momento em que Emiliano afligia-se com o recente infortúnio.

     Assim como fizera desde a adolescência — hábito este visto como o de um desajustado — aconchegou-se ao pilar de concreto que suspendia a imagem do ícone, em busca de conselho e abrigo às suas angústias. Apiedando-se por demais de si mesmo, Zanahya desculpava-se com seu interlocutor estático em lamuriosa ladainha.

Ao contrário do pai, bibliotecário que dos livros conhecia apenas a localização nas prateleiras e a data de devolução do empréstimo, Emiliano — que passou parte da adolescência percorrendo os corredores da biblioteca — criou tal relação com a literatura e a fantasia que não demorou a perceber que não poderia viver sem escrever.

Os autores que habitavam as estantes tornaram-se seus melhores amigos. Dialogava com eles através do estudo de suas obras. Foi penoso criar uma voz própria, uma vez que lhe parecia impossível escrever sem a luz da influência de Borges, dentre todos em especial, aquele que o ajudou a refinar o estilo.

— Portanto, — concluiu, voltando-se à efigie — ser acusado de plágio, era o atestado de meu fracasso.

Por enfado ou caridade, empatia ou pirraça, a estátua do consagrado autor portenho decidiu sair de sua imobilidade e dirigir palavras de alento ao frustrado autor:

— Há anos escuto você lamentar sobre a falta de talento, coisa que me aborrece sobremaneira.

— Quem está aí? — perguntou Zanahya dirigindo-se ao vazio.

— Ora, essa é boa! Você fica me importunando todo esse tempo e agora ignora minha voz?

Confuso, Emiliano levantou-se do torpor e procurou encontrar de onde vinha tal zombaria. O círculo central da praça era iluminado por doze postes de luz dispostos simetricamente ao longo do perímetro que circundava a imagem de Borges. Todos eles voltados para o busto, o que tornava a periferia quase escura no entardecer outonal.

— Volte aqui, Zanahya — ordenou. — Não me faça perder tempo.

A esta fala, o autor pôde identificar a origem, pois viu a estátua mover os lábios voltando-se para ele.

— Mestre! É o senhor quem fala?

— Acaso há mais alguém aqui?

— Não, Mestre, é que…

— Por favor, vamos deixar essas reverências para lá, está bem?

Emiliano sentou-se outra vez, mas não mais ao pé da estátua, e sim em um banco entre dois postes ficando de frente para o rosto de Borges.

O que parecia ser apenas um busto revelou-se de corpo inteiro rompendo o cubo de concreto sob o qual estava aprisionado o resto do corpo.

— Venha garoto, vamos dar um passeio.

De início o homem de bronze movia-se com dificuldade. Os primeiros passos eram rígidos, próprios de quem esteve estático por tanto tempo. A dificuldade que Borges tinha para colocar um pé diante do outro e coordenar o vai-e-vem dos braços dominaram a atenção de Zanahya que hesitava entre a discrição e a solidariedade. Optou pela primeira na medida em que o companheiro foi adquirindo naturalidade no caminhar.

Ao cruzarem os limites do círculo iluminado do centro da praça, mestre e discípulo penetraram no universo borgeano. Emiliano não reconheceu de pronto a Buenos Aires que se revelou quando as pupilas se adaptaram à pouca luz. Ruínas, jardins e bifurcações estranhas à Zanahya criavam um cenário que de pronto o seduziram/conquistaram.

Borges mostrava intimidade com as angústias juvenis de Emiliano. Citando suas próprias memórias, comparava-o ao poeta aspirante que fora na época em que frequentava um grupo literário no Hotel Phoenix — onde seus versos desajeitados eram reformados com o auxílio experiente dos companheiros de letras, álcool e tabaco.

     Tais palavras, no entanto, não traziam sossego a Emiliano. Ele as entendia como uma mera tentativa de demovê-lo do veredito a que chegara sobre si mesmo. Não se tratava de autopiedade ou comiseração, apenas uma constatação realista de que sua vida pedia outra direção. Por algum tempo, animara o sonho de produzir bons textos “a altura da literatura argentina”, porém lhe faltava algo, que ele não sabia exatamente o que era, mas estava prestes a descobrir.

— Já fui como você, Zanahya. Já padeci da fatalidade da juventude. Naturalmente, — prosseguiu — como todos os jovens, eu procurava ser o mais infeliz possível, uma espécie de mistura de Hamlet com Raskolnikov…

     — Mas o senhor acabou por tornar-se o grande Borges. Mesmo quando jovem, já produzia obras de rara qualidade que anteviam o seu futuro — ponderou Emiliano. — E quanto a mim, tenho senso crítico e estético suficiente para saber que estou perdendo o meu tempo. Prefiro concluir por mim mesmo a esperar que outros o façam.

     — Você é muito pessimista, meu caro. Saiba que essa insegurança é natural, mas quando aprendemos a conhecer como os livros são escritos, vemos que não há segredo algum.

— O senhor, está lá no seu Ensaio Autobiográfico, teve acesso à grande literatura desde cedo. E contou com quem o orientasse e lhe desenvolvesse a crítica. Já eu, tive que tatear a esmo, buscando ajuda através de monólogos com livros, estantes e estátuas.

     Borges permaneceu em silêncio. Sem replicar.

Refletindo sobre como se comportara até então, Emiliano concluiu que vinha procedendo desta maneira há muito tempo. Que vinha sendo duro consigo mesmo. Porém, permaneceu cético com relação ao talento que gostaria de ter. Em permanente conflito e, de certo modo, farto do autoflagelo, também silenciou.

     A caminhada prosseguia.

Tomado da devida cautela de quem teme ser inconveniente, Zanahya tentou reintroduzir a conversa. O escritor, no entanto, parecia estar ocupado em desfrutar o passeio e pedia que o acompanhante narrasse as paisagens que ele já não podia apreciar. Enquanto andavam, o homem metálico fazia divagações sobre o tempo e o espaço, sonho e realidade, deus e o homem. Códigos aos quais o jovem caminhante empenhava-se em decifrar, ignorando que Borges lhe falava por metáforas.

— Eu tive muitos reveses — retomou Borges. — Tive textos rejeitados ao longo de toda a vida.

— Não é isso que me incomoda. Sei que todo escritor tem que conviver com isso — refletiu Zanahya demonstrando maturidade. — Eu não estava preparado é para ser acusado de plágio — continuou.

     — Pelo visto, você não examinou atentamente às minhas obras — ponderou o vulto.

— Claro que sim, Mestre, as releio desde meus quatorze anos.

— Então já devia ter percebido que o caminho que utilizei para criar o que chamam de meu ‘universo ficcional’ está descrito nas linhas que escrevi.

Sem poder precisar o momento em que houve a mudança de plano — distraído que esteve pelo discurso de Borges —, apenas quando o mestre silenciou e deteve o passo Emiliano percebeu — já sem muito espanto — estar no saguão hexagonal de uma biblioteca que ele não demorou a identificar.

O guia, então, pediu que Zanahya escolhesse um livro a esmo e o abrisse em uma página qualquer.

Os volumes dispostos lado a lado nas estantes não possuíam título nem referência ao autor na lombada ou em qualquer parte da capa.

— Agora leia — ordenou a voz metálica.

Abrindo a publicação ao acaso, Emiliano encontrou reflexões à cerca do sujeito uno:

“Nos hábitos literários é também todo-poderosa a ideia do sujeito único. È raro que os livros estejam assinados. Não existe o conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obras de um só autor, que é intemporal e anônimo”.

     — Mestre, este texto é seu. Por que não está assinado?

     — Quem disse que é meu?

     — Eu o reconheço.

     — Mas quem disse que é meu?

— …

— Prossiga.

Prosseguiu, saltando umas páginas.

“Todos os homens que repetem uma linha de Shakespeare são Willian Shakespeare.”

— E então, garoto, sente-se melhor? — quis saber Borges.

Emiliano devolveu o livro a estante e sorteou o segundo. Percebeu que a ideia se repetia com algumas poucas variações. Mesmo quando ele escolhia abri-lo no início, no fim ou no meio. E assim sucessivas vezes, inclusive quando buscou outros andares da biblioteca.

     Mesmo quando encontrava obras em outros idiomas, conseguia perceber, naqueles que lhe eram compreensíveis, que as teses o conduziam às mesmas conclusões.

     Embora já tivesse perdido as contas de quantos livros consultara, não se sentia cansado.

     “Uma das escolas de Tlon chega a negar o tempo: argumenta que o presente é indefinido. Outra escola declara que já transcorreu todo o tempo e que nossa vida é apenas a lembrança ou o reflexo crepuscular de um processo irrecuperável. Outra que quando dormimos aqui, estamos despertos em outro lado e que assim cada homem é dois homens.”

     No momento em que julgou finalmente ter compreendido o que Borges tentara lhe transmitir, Emiliano percebeu-se sozinho e fatigado. Percorreu os corredores chamando pelo mestre e tentando localizar a porta de saída. Em um dos flancos onde esperava encontrá-la deparou-se com um espelho. A imagem era opaca, embaçada, mas o vulto copiava os movimentos táteis de quem procurava a maçaneta. Concentrando-se no reflexo, Emiliano viu que o homem que se projetava diante de si estava envelhecido e com semblante abatido.

     Ganhando outra vez as ruas, percorreu a labiríntica Buenos Aires apenas valendo-se das imagens projetadas no interior das pálpebras.

     Não demorou a encontrar novamente a Praça X e ao alcançar-lhe o centro rodeado pelos doze postes sentiu a dor nas costas aumentar e suas juntas enrijecerem. Sobre o pedestal, girou sobre os calcanhares no último movimento antes que seu corpo se tornasse outra vez estático. Suas entranhas contraíram-se a partir do ventre e Emiliano assumiu a posição que lhe pareceu mais confortável antes que a última camada de pele fosse transformada em metal.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: