Sapato de Pregos

            Na iminência do disparo Douglas vira para o lado esquerdo. Contrariando todas as recomendações que recebera sobre como portar-se nestas ocasiões, ele olha por um breve instante para o dedo que se apóia ao gatilho tentando adivinhar o estampido. Um movimento precipitado pode lhe custar caro. Existem outros como ele que, embora atentos, parecem conformados com a fatalidade. Volta-se, então, para frente e fixa-se no horizonte. “Se eu conseguir correr como ontem, talvez eu tenha alguma chance”, teve tempo de pensar. Douglas vê a linha pintada no chão a poucos milímetros de seu polegar e indicador. Dedos rígidos que sustentam seu corpo pesado.

            O ultimato já foi dado. O tiro não tardará. Douglas fecha os olhos e apura os ouvidos. Tenta anular os outros sentidos e concentrar-se no momento que precede o estrondo. Com a respiração presa escuta o silêncio…

“Bang!”

            É hora de correr. Douglas sai em disparada. Os pregos, atarraxados um a um são cúmplices sob os pés apressados. Alguns metros adiante ele já vai reduzindo a inclinação do corpo e pondo-se ereto tenta manter a velocidade. O impacto sobre os calcanhares faz o corpo inteiro tremer, mas ele mantém-se determinado a não olhar para trás.

            A esta altura são sete homens em seu encalço. Ao perceber-se dois passos adiantado, Douglas perde a concentração e a menos de dez metros da linha de chegada vê o britânico ultrapassá-lo pela raia três.

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