Uma Noite na Rua da República

Abro os olhos, ainda sem poder me mexer. A luz do dia me acordou. Meu corpo sente os reflexos da noite passada. Permaneço imóvel e olhando o ambiente à minha volta tento identificar o lugar onde me encontro. As paredes brancas refletem um pouco do sol e as cortinas, leves, movem-se à mercê do vento. O clima sugere uma bela manhã de primavera, embora estejamos recém entrando em maio. Não posso sentir o aroma das flores do jacarandá, mas a imagem do tapete rosa-lilás que se formava na rua em frente a minha casa aparece nítida em minha mente. Acho que estive sonhando com isso…

A cama é bastante confortável. O mal-estar, porém, toma conta de mim e minha cabeça está a ponto de explodir. “Se toda vez que eu pensasse em beber, lembrasse do dia seguinte, jamais colocaria uma gota de álcool na boca”, repito quase em tom de promessa. Mais uma que não cumprirei.

Tento buscar alguma referência, algo que me ajude a organizar as idéias, ativar a memória, mas minha mente ainda está confusa. Não tenho pressa, no entanto; o tempo é o melhor remédio e é bem verdade que já me sinto um pouco melhor. Não será a primeira vez que acordo em uma cama que não conheço. Certamente haverá uma explicação para tudo isso; sempre há. Embora eu não faça a menor idéia de onde estou e nem como vim parar neste quarto, não tenho vontade de sair daqui.

Ah, então foi isso… Uma garrafa de Johnny Walker vazia no chão e um copo ainda pela metade na mesa de cabeceira. O gosto adocicado na boca e a sensação de garganta, pulmão e narinas arrombadas denunciam o excesso. Sempre que eu bebo whisky as coisas saem do controle. O que teria sido desta vez? Minhas lembranças vão até o momento em que fui com Jimi a um bar perto da casa dele e sentamos no balcão para conversar e tomar algumas doses. A partir daí, não tenho idéia do que se passou. Melhor nem pensar nisso agora. Além do mais sei que ele me fará um relatório completo dos acontecimentos da noite, na hora do jantar.

Com um esforço sobrenatural consigo que meu corpo de um metro e noventa obedeça a uma ordem do cérebro e me viro sobre a cama. Quando o teto pára de rodar, tenho então, uma visão inacreditável: uma mulher maravilhosa, cabelos longos e pele clara, dorme nua a meu lado. Bem, ao menos a parte que o lençol deixa a descoberto revela uma porção de nudez. É fácil supor que ela esteja completamente sem roupas. Humm, ou talvez só de calcinha…

Os cabelos lhe cobrem um pouco da face e ela continua imóvel. “Ah, meu Deus! Não acredito que isso tenha acontecido comigo e eu nem sequer lembre de como foi”. Justo eu, que sempre volto sozinho pra casa. Será que ela também não lembra? Será que eu devia mesmo estar aqui? O que ela dirá ao acordar? “Ah, se a Dorothy me visse agora…” Fico admirando-a em silêncio sem saber se posso ou não tocá-la. Melhor não me precipitar, vou fingir que ainda durmo e esperá-la despertar. É isso! Viro pro lado e deixo que ela tome a iniciativa.

A excitação me mantém alerta. Procuro relaxar e começo a prestar atenção no quarto. Vejo algumas roupas pelo chão e, além da garrafa vazia, um segundo copo em cima da mesa que fica perto da janela. Isto é tudo o que eu consigo ver da minha posição, pois não quero que ela perceba que estou acordado.

Eu que não tiro o meu relógio por nada, não sei onde ele foi parar agora, mas tenho a impressão que muito tempo já passou e ela permanece dormindo profundamente. “Deve ter sido mesmo uma grande noite!”

Começo a me mexer lentamente na cama esperando que os movimentos do colchão d’água a acordem. Nada! Não pareço pesado o suficiente para isso. Tento puxar o lençol pra ver se o frio a desperta, mas ele está preso em algum lugar e não sou capaz de soltá-lo. Embora o momento seja tenso, minha freqüência cardíaca mantém-se inalterada. Aliás, todas as minhas funções parecem em repouso. Viro novamente para o seu lado, tomo coragem e resolvo, então, acariciá-la.

“Meu Deus!” Ela está gelada, paralisada, dura, morta! Verifico a respiração, apenas para me certificar. Nada! Já deve estar assim há horas…

Levanto em sobressalto e vou até a janela de onde vejo uma rua que não consigo identificar; a visão não é muito boa daqui, mas as flores com que andei sonhando estão lá. Tento olhar mais além, mas uma claridade branca vinda do lado de fora me ofusca. Por impulso sinto-me atraído a sair pela janela, mas me detenho. Tento a porta, mas ela deve estar trancada por fora. A maçaneta não gira…

Olho ao redor e, exceto pelas nossas roupas, noto que o quarto está impecável. A luz do banheiro acesa e a banheira, como se estivesse preparada para alguém, tem ainda a torneira levemente aberta e começa a transbordar.

Preciso pensar. A adrenalina já se despejou no sangue e o estado de embriaguez foi embora. O cheiro de morte toma conta do ambiente. A temperatura parece ter caído uns dez graus e ela continua ali: linda, gelada, paralisada, dura, morta.

Em todos os livros de suspense que escrevi, eu sempre soube como as coisas terminariam, como o personagem reagiria, o que não me ajuda em nada agora. “Se ao menos eu conseguisse lembrar o que aconteceu…” Todos os elementos sugerem o enredo de um romance policial cheio de clichês, mas o final não me parece óbvio.

Bem, vamos aos fatos, meu amigo: nós temos uma mulher morta em um quarto de hotel, que, a julgar pela sua beleza, não deve ter passado despercebida em lugar algum por onde circulou na noite anterior. Inclusive na portaria, o que torna a situação ainda mais delicada. Meu vício de escritor me faz ser detalhista em todos as ocasiões e estou assustadoramente lúcido. Identificar a causa da morte, no momento parece fora de questão. Nem teria habilidade para isso. Não há nada nesse quarto que possa me sugerir o que realmente aconteceu.

Eu nunca fui um cara violento, o que me permite concluir que eu não tenha qualquer relação com essa morte. Além do mais, ninguém deita pra tirar uma soneca ao lado de um cadáver ainda mais sendo o próprio assassino. Definitivamente, não. Por mais descontrolado que eu estivesse, sei que não mataria uma pessoa. Mesmo que fosse por acidente, uma coisa assim não se apaga da memória. Bem, pode ter sido overdose ou algo do gênero, talvez até uma simples morte natural — isso também acontece com jovens —, mas é claro que se eu não tiver uma explicação convincente, e eu não tenho, será difícil escapar de alguma implicação. Estou ainda ponderando a cerca de minhas opções quando o telefone toca e me dá a certeza de que não tenho muito tempo para decidir. Preciso dar o fora, mas antes tenho de eliminar as evidências da minha estada neste quarto. Digitais, roupas, pêlos.

Tarde demais! Ouço vozes no corredor. Há muita gente no lado de fora. A única alternativa é sair pela janela. A água que transbordou da banheira já escorreu para fora do quarto. Deve ser isso que chamou a atenção destas pessoas. Estranho meus pés parecerem secos sobre o piso molhado.

Batem à porta:

— Tem alguém aí?

Volto para juntar as minhas coisas e uma última olhada na moça antes de sair. É neste momento que a urgência da fuga se desfaz: vejo que meu corpo permaneceu deitado o tempo inteiro ao lado dela.

 

 

 

 

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