Archive for the Beatniks Category

Enquanto a primavera não chega

Posted in Beatniks, literatura, Resenha with tags , , , on agosto 4, 2017 by Leonardo Colucci

O inverno rigoroso no Colorado imobiliza a família Bandini. Com pouco serviço pelo acúmulo da neve, Svevo Bandini gasta suas horas de ócio na companhia de seu amigo Rocco, italiano como ele, mas uma má influência aos olhos de Maria, sua apaixonada esposa.

Sem crédito no armazém, Maria apela para a generosidade do proprietário para que possa “comprar” mais alguns mantimentos e abastecer a cozinha para alimentar os três meninos.

Svevo arranja como cliente uma viúva rica e vê ali a oportunidade de garantir um bom natal para sua família. Porém, a solitária viúva tem outras intenções e acaba envolvendo o hábil pedreiro em uma relação conflituosa que coloca frente a frente o orgulho e os valores do humilde imigrante.

Em meio a tudo isso, o pequeno Arturo – o mais velho dos três irmãos – está envolvido em um amor platônico e trágico de sua pré-adolescência.

De uma forma divertida somos apresentados à personalidade rebelde de Arturo Bandini, o o escritor atormentado de Pergunte ao Pó.

“Espere a primavera, Bandini”, é um presente de John Fante aos admiradores da sua obra e da sua capacidade de construir cenas cheias de significado.

 

 

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Beatnik oriental

Posted in Beatniks, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on junho 18, 2016 by Leonardo Colucci

Sumire é uma aspirante a escritora, fã de Jack Kerouac, recém saída da adolescência e confusa em relação aos seus sentimentos e seu futuro. Enfim, confusa sobre si própria.

Seu único amigo é K. (o narrador), um professor alguns anos mais velho, que nutre uma paixão platônica por Sumire.

K nos conta a trajetória da garota e sua busca pelo texto perfeito. O próprio narrador reconhece que a alta produção de Sumire carece de qualidade, provavelmente pela imaturidade da autora, mas procura encorajá-la a insistir na sua escrita.

A paixão literária da protagonista sofre um abalo, quando Sumire conhece e se apaixona por Miu, uma mulher interessantíssima, conhecedora de vinhos e 17 anos mais velha. Em suas confidências ao amigo-narrador, Sumire descreve seu sentimento por Miu como um cataclismo que altera toda a sua hierarquia de prioridades. De repente, a escritora convicta, abre mão do isolamento e passa a gastar o seu tempo em torno de Miu.

É Miu que lhe dá o apelido de “Minha Pequena Sputinik”, numa referência aos beatniks, de quem Sumire é fã.

Sputnik, em russo, significa “companheiro de viagem”. E é durante uma viagem de férias que Sumire faz com Miu que a história do autor japonês “Haruki Murakami” ganha força. A jovem garota desaparece em uma ilha grega sem deixar pistas.

K. é chamado por Miu e, sem hesitação, embarca num voo até a Grécia. Quando chega a ilha os dois envolvem-se na busca pela garota que não pode ser encontrada em lugar nenhum.

K. tem a ideia de procurar os escritos de Sumire e ao ler os relatos de viagem encontra pistas para o seu desaparecimento.

Haruki Murakami é atualmente o autor japonês mais apreciado no oriente. Minha Querida Sputinik é um livro que mistura realismo puro, a moda dos próprios beatniks, com situações fantásticas com um resultado agradável de se ler.

Mal cozidos e mal temperados

Posted in Beatniks, Resenha with tags , , , on março 29, 2016 by Leonardo Colucci

Escrever é uma atividade solitária, repetem os autores sempre que precisam improvisar uma reflexão sobre o ofício. Quando dois autores se propõem a escrever em parceria é bem provável que o resultado seja pior do que o que cada um produziria separado.

É o que acontece em “E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques”, livro escrito “a quatro mãos” por Willian Burroughs e Jack Kerouac. A opção da dupla neste projeto, foi que cada um teria um narrador em primeira pessoa que, em capítulos alternados, contaria a história de um terceiro protagonista que seria o elo entre os dois personagens-narradores.

A ideia é boa, mas não funciona.

Burroughs (Will Dennison, no livro) se cansa da história modorrenta de Kerouac (Mike Ryko). A partir deste ponto, é Ryko quem assume o protagonismo da história e Dennison passa a ser um mero coadjuvante que perde a força e se torna completamente supérfluo ao texto.

Resultado; um livro dispensável e decepcionante a julgar pelos nomes que estão na capa.Kerouac e Burroughs

Um Pequeno Carcamano

Posted in Beatniks, contos, literatura with tags , , , , , , on outubro 8, 2010 by Leonardo Colucci

Escrito em forma de contos que dialogam entre si, O Vinho da Juventude relata as peripécias e inquietudes de Jimmy Toscana, um garoto que vive em Denver e é filho de italianos.

Jimmy é um projeto de homem com extrema personalidade e que carrega uma cretinice latente que só está sob controle por conta dos seus valores familiares muito fortes. Isso nos leva a crer que quando adulto será um cretino adorável, típico personagem da literatura beat.

A coleção de contos explora dramas comuns do garoto que está saindo da infância, em uma literatura envolvente e ágil. O autor narra os dilemas do pequeno italiano que se vê entre a curiosidade em explorar e contestar limites e os rígidos valores morais de uma família cristã.

Simbolicamente o vinho – que dá título ao livro – representa a liberdade profana da embriaguez e os rigores da religião. É sobre essa linha tênue que o garoto tenta se equilibrar, hora pendendo para um lado hora para outro. Um belo exemplo desse conflito está no conto “A liga dos Campeões”, onde a rebeldia e auto-suficiência de um futuro grande jogador de beisebol (uma convicção inabálavel para o pequeno jimmy), fraqueja diante do carinho protetor da Irmã Agnes que o livra de algumas enrascadas.

Qualquer semelhança com o perfil de Holden Caufield de Salinger, provavelmente, não é mera coincidência. Em tempo, “O Apanhador nos campos de Centeio” foi publicado quase 10 anos depois.

O Vinho da Juventude, foi publicado em 1940 e é mais uma pérola de John Fante o criador de Arturo Bandini de “Pergunte ao Pó”.

Além do subsolo

Posted in Beatniks, literatura with tags , , , , on julho 3, 2010 by Leonardo Colucci

Por três vezes iniciei a leitura de “Memórias do Subsolo”. Nas duas anteriores fui até a metade. Desta vez senti muita vontade de desistir no meio novamente. Lembrava de um dos princípios básicos do leitor: se um livro não te conquistar nas primeiras páginas, não vale à pena continuar. Por que, pela terceira vez, eu empacava no mesmo lugar? Seria o estilo? Com certeza não, já o conheço e gosto. O conteúdo? Provavelmente, pois até este momento o livro é um monólogo de um homem muito deprimido, amargurado e… raivoso. Eu próprio tive raiva dele. E como!Depois de refletir por uns três dias (quando inventariei todos os livros que tenho em casa e ainda não li), continuei. 

A segunda parte do livro, se apresenta com o título de “A propósito da neve molhada”. Algo animador para quem em duas tentativas anteriores não havia conseguido sair do subsolo  (Subsolo é o título da primeira parte).  A partir daí a narrativa toma um formato mais universal e deixa de ser um monólogo e passa a ser um relato de breves experiências do narrador (que nem tem seu nome revelado em todo o livro). É quando ele tenta vir a superfície para se relacionar com outras pessoas. Mas os monstros interiores que o atormentam permanecem ativos desafiando-o incessantemente. Dostoievsky usa duas passagens corriqueiras para trazer a tona todos os tormentos que o homem do subsolo passou as primeiras 50 páginas vertendo de maneira ácida e rancorosa. 

O homem convicto enquanto dialoga consigo mesmo na primeira metade do livro, revela-se confuso ao encarar o mundo real. Primeiramente em um jantar com amigos onde ele faz questão de atrair para si o ódio e o desprezo dos companheiros que não escondem o desagrado com as suas manifestações, a seguir, quando se defronta com a prostituta Liza que desperta nele sentimentos “repulsivos” tais como compaixão e ternura. A perturbação emocional que o narrador-personagem passa a viver a partir de seu encontro com a moça revelam uma espécie de anti-heroi que inspirou gente como Bukovisky e Fante.

Memórias do Subsolo é “a voz do sangue” como definiu Nietzsche. Uma travessia difícil.

E agora, JD?

Posted in Beatniks, literatura with tags , , , , , , on fevereiro 3, 2010 by Leonardo Colucci

Em se tratando de Jerome David Salinger, podemos dizer que a morte biológica ocorrida no último dia 28 de janeiro foi apenas mais uma na trajetória do criador de Holden Caufield e Seymour Glass. Dizer que morreu o homem, mas permaneceu o autor é um clichê desnecessário. O que ocorre é que Salinger morre como autor quando desiste de publicar, morre como figura pública quando decide se isolar do mundo e, finalmente, morre como homem, fisicamente, pondo fim a expectativa de que fosse rever sua posição reclusão e retornasse ao mercado editorial.

 Sim, porque ele teria dito em uma rara e breve entrevista em 1980: “Gosto de escrever e asseguro a vocês que escrevo com regularidade”. “Mas escrevo para mim mesmo, por prazer. E quero ficar sozinho para escrever”.

E por que o silêncio de Salinger era tão agoniante? Porque todos os jovens que se identificaram com o onipresente Apanhador nos Campos de Centeio e os adultos que se emocionaram com Nove Estórias, nutriam a expectativa de ter a experiência de ler algo inédito produzido pela mesma mente que criou a seleta bibliografia de formação de todos os desajustados (entendam por desajustados aqueles que simplesmente não se enquadram nos estereótipos da sociedade sem, necessariamente, terem de viver a margem dela).

Pensei alguns dias sobre que outro significado essa “morte” pode ter para quem ainda aguardava por alguma novidade vinda da montanha de New Hampshire, onde o escritor vivia desde a década de 50. Ao contrário do fim da esperança de ver impresso tais escritos inéditos, produzidos durante o período de reclusão, a saída de cena do excêntrico Salinger pode significar que todas as páginas guardadas nas gavetas da sua casa cercada por muralhas venham à tona liberadas por algum parente seduzido pelo potencial comercial que este material possa ter.

Sei que não é honesto com este senhor expor, após a sua morte, tudo o que ele se empenhou em esconder enquanto vivia, mas, pro inferno com a ética, Salinger nos sacaneou durante 40 anos. Agora pode ser a nossa vez.

Células Beat

Posted in Beatniks, contos, literatura with tags , , , , , on maio 16, 2009 by Leonardo Colucci

Se fosse possível a multiplicação de seres vivos a partir de uma única matriz, mais ou menos como as células se reproduzem a partir do embrião, para formar um indivíduo…

Poderíamos supor que Sal Paradise, Arturo Bandini, Hank Chinaski e outros, seriam adultos derivados de Holden Caulfield, o protagonista adolescente de “O Apanhador nos Campos de Centeio”, de J. D. Salinger. Ou que estes personagens de Kerouac, Fante e Bukowisky, seriam o jovem Holden quando adulto.

O que há de sedutor no caráter desta turma é a liberdade levada às últimas conseqüências. Uma opção de vida que não se abala nas dificuldades ou provações impostas pela sociedade e encontra dignidade em situações que seriam suficientes para deixar os cidadãos comuns sentindo-se envergonhados de seu destino. A minha trajetória como leitor me levou a Salinger pelo caminho inverso. Como quem nada contra a corrente para encontrar a nascente e lhes digo que foi uma experiência gratificante. Mas e agora, para onde ir? Existe alguma coisa antes de Holden? Não que eu saiba. Então o negócio é deixar-se levar novamente pela correnteza e apreciar a que outras paisagens este caudal pode me levar.

Seguindo o veio principal encontrei Seymour Glass, Esmé e o Sargento X no livro Nove Estórias, também de Salinger. E dali em diante vários outros afluentes.

Nove estórias vive à sombra do Apanhador…, mas traz relatos ácidos, afiados e surpreendentes de vários destes “desajustados”. Em sua grande maioria não tiveram força para manterem-se no jogo, mas a sua dignidade permaneceu intacta.

Nove Estórias é um daqueles livros que precisam ser lidos, mas comece pelo Apanhador… esse sim fundamental.