Archive for the Cinema Category

Cápsula do Tempo

Posted in Cinema, Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , , , on abril 28, 2017 by Leonardo Colucci

A Editora Aleph reuniu em um volume todos os contos de Philip Dick adaptados para o cinema com o título sugestivo de “Realidades Adaptadas”.

De “O Vingador do Futuro” a “Agentes do Destino”, passando por “Minority Report”, são 7 contos escritos por volta da década de 1950 e ambientados em um futuro incerto, mas não muito distante – provavelmente nos dias de hoje.

É um tempo dominado por máquinas onde o ser humano busca manter a sua identidade. Porém, há organizações que controlam as informações e interferem na vida das pessoas em uma sociedade cada vez menos livre.

Nesse aspecto social e político, as histórias de Dick encontram alguma semelhança com os clássicos distópicos “1984”, “Admirável Mundo Novo” e “Fahrenheit 451”, porém com uma ênfase cibernética maior.

A parte da enorme relevância sociológica que a análise destes livro promove, é curioso ler no tempo presente o futuro projetado por Dick. Enquanto as previsões sobre comunicação por vídeo e inteligência artificial se confirmaram, os nossos contemporâneos continuam revelando fotos à partir dos negativos. Quer dizer, nem mesmo a genialidade criativa de Dick, que dominava as ciências da sua época, foi capaz de imaginar que utilizaríamos fotos digitais, coisa tão trivial nos dias atuais.

Isso nos leva a pensar: que erros cometeríamos nós, tão familiarizados com as evoluções tecnológicas, se projetássemos um futuro de algumas décadas à frente?

Que tal fazer este exercício e guardá-lo em uma capsula do tempo a ser aberta daqui a, por exemplo, 30 anos?

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O livro ou o filme? Os dois

Posted in Cinema, Latino-americana, literatura with tags , , , , on março 9, 2014 by Leonardo Colucci

Toda a vez que se leva um livro para o cinema – seja uma adaptação livre, ou uma versão que se propõe a ser fiel à obra – abre-se a discussão: qual é melhor, o livro ou o filme? Essa discussão é inútil, se entendermos que são duas formas diferentes de arte (com recursos diferentes, linguagem diferente e, sobretudo, um formato totalmente distinto).

Em “A contadora de filmes”, do chileno Hernán Rivera Letelier, essa conversão entre as duas linguagens, se dá no caminho inverso.

No romance, que tem lugar em um povoado de mineiros no deserto do Atacama, a  menina, Maria Margarita, é uma habilidosa narradora de filmes que alcança popularidade na comunidade miserável que sobrevive em torno das minas de sal.

O ofício começa quando, após uma competição entre irmãos, ela é escolhida pelo pai para assistir às sessões de cinema tão logo uma fita nova chega ao vilarejo. O orçamento da família, não permite que todos paguem pelo ingresso, então a menina recebe a missão de contar o filme com a máxima riqueza de detalhes assim que retorna pra casa.

Aos poucos a narradora desenvolve recursos cenográficos e técnicas de interpretação que a tornam popular pela habilidade dramática e a forma envolvente que os clássicos do cinema americano e mexicano.

A sala da casa passa a receber uma audiência cada vez maior e muitos dizem preferir ouvir o filme contado pela garota a assisti-lo na sala de projeção. Embora não admitam, a linguagem complexa do cinema nem sempre é compreensível para aquela comunidade humilde. Desta forma, o filtro aplicado por Maria torna a trama de fácil interpretação, mesmo para aqueles com alcance intelectual limitado.

Com fim da exploração nas minas o vilarejo vai sendo abandonado e Maria termina por ser a única habitante da cidade fantasma, esquecida pelo mundo, assim como o cinema da época perdeu espaço para a televisão.

Há notícias de que o livro será adaptado para o cinema por Walter Salles, o que encerrará o ciclo iniciado por Rivera Letelier: o filme que vira livro e que torna a ser filme outra vez.

A seguir um flash da trama na voz da própria narradora:

“Acho que no fundo eu tinha alma de fuxiqueira, pois além de tudo me bastava bater os olhos nas duas ou três fotos pregadas no cartaz – pelo olhar lascivo do padre, o sorrisinho inocente da menina ou o gesto cúmplice da beata – para poder inventar uma trama, imaginar uma história inteira e passar o meu próprio filme.”

Yann Martel, o felino

Posted in Cinema, literatura, Literatura Fantástica with tags , , , , , on junho 30, 2013 by Leonardo Colucci

Gato, gatuno; aquele que rouba ou furta.

Essa definição cabe bem para o escritor canadense Yann Martel, autor (!?) d’As Aventuras de Pi, o romance que deu origem ao filme recentemente oscarizado.

Nos cursos de escrita criativa e oficinas literárias, o tema plágio é sempre uma discussão interessante e calorosa. No mundo da literatura é aceitável que se use a obra de outro autor como matéria prima (explícita ou não) para a produção de uma segunda obra que, mesmo sendo fruto de inspiração alheia, pode ser original.

Recriar, ressignificar, reescrever, reler, ou, simplesmente, inspirar-se … de maneira intencional, ou não, este tipo de expediente já rendeu bons frutos e é muito bem aceito no meio literário.

O que é feio – muito feio, aliás – é fazer como o canadense aí do título. O cara escondeu dos editores, leitores e da crônica em geral que toda a ideia, aparentemente original, de “As Aventuras de Pi” havia sido retirada de “Max e os Felinos”, do gaúcho Moacyr Scliar. Pior do que isso, ao ser desmascarado, o gatuno negou que conhecesse ou tivesse lido o original. Depois acuado pelas evidências teve que acabar admitindo e se desculpando.

Yann Martel foi acusado de plágio, mas isso não impediu que o livro continuasse vendendo e alcançasse números milionários, assim como milionária deve estar sua conta bancária após vender os direitos para o cinema. Quanto ao Scliar, não sei se chegou a receber alguma indenização, mas ao menos manteve ileso o seu caráter.

Vacas que caem do céu

Posted in Cinema, literatura, Sobre Escrever with tags , , , on março 16, 2012 by Leonardo Colucci

Existe uma coisa em literatura chamada “Suspensão da Descrença” (ou “Pacto de Verossimilhança”). Através dela torna-se natural para o leitor que os porcos falem — como em “A Revolução do Bichos” — ou que um homem se transforme em um gigantesco inseto — “A Metamorfose”. São eventos impossíveis no mundo real, mas que tornam-se aceitáveis na ficção.
A verdade é que o leitor pode ser convencido a acreditar em qualquer coisa, desde que o autor tenha habilidade para tornar o ambiente ficcional verossímil.

Todo mundo em sã consciência sabe que os animais não falam, mas torna-se fácil aceitar isso quando estamos lendo a obra de George Orwell. Não é apenas boa vontade com o autor, trata-se de ser absorvido pela trama de tal forma que coisas estranhas, dentro do universo em que nos dispusemos a entrar, sejam aceitáveis.

No entanto, nem todos autores conseguem adesão dos leitores a este pacto. Mesmo dentro de um universo fantástico os acontecimentos têm de ser aceitáveis. Um simples deslize na lógica da ficção pode romper este pacto e por toda a história a perder.

Aplicando esta teoria ao cinema, vários exemplos poderiam ser citados. Alguns filmes têm pouco ou nenhum compromisso com a verossimilhança (especialmente comédias, ou filmes de ação). Isso é compreensível, pois alguns gêneros do cinema permitem essas “licenças” da realidade e funcionam dentro dessa proposta. Quando se assiste, porém, um dito “filme de arte” há uma relação muito próxima à boa literatura. Sob essa ótica — para citar dois filmes recentes — podemos avaliar os longas “Um Conto Chinês”, do diretor Sebastián Borensztein e “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese. No caso da película argentina, não parece absurdo o fato de uma vaca cair do céu sobre um casal de namorados que navega em um pequeno barco. Já no oscarizado Cabret, a sequência de coincidências a que o destino do pequeno Hugo é submetido conseguem romper com o encanto e a beleza do filme. É lamentável e surpreendente que Scorsese tenha cometido um deslize tão elementar.

Muitas coisas que são plausíveis na vida real, parecem inaceitáveis quando contadas como uma obra de ficção.

Sobre Diálogos

Posted in Cinema, literatura, Sobre Escrever with tags , , , on setembro 26, 2011 by Leonardo Colucci

O uso de diálogos em narrativas literárias sempre me pareceu uma ferramenta poderosa na hora de revelar a personalidade de um personagem. Talvez uma forma de pensar a narrativa de ficção sob o prisma do cinema e, mais ainda, do teatro, onde os diálogos são fundamentais.
Assim, sempre refutei as teorias de que o uso do diálogo empobrece o texto e que seria um recurso de autores preguiçosos ou inábeis. Me parecia um certo preconceito.
No entanto, ao ouví-la (a teoria sobre diálogos) de críticos nos quais passei a confiar, resolvi examinar mais atentamente o tema.

Pois bem, ao ler “O sol também se levanta” de Hemingway, entendi o porquê dessa corrente crítica. A capacidade de Hemingway é inegável e notória, assim como “O Sol também…” é um clássico incontestável. Porém, mesmo um mestre como o Hemingway – e numa obra como esta – nos deixa a sensação de que poderia ter feito melhor se reduzisse os diálogos e investisse mais na narração. O livro parece ter sido escrito como roteiro de cinema – e talvez tenha sido, pois foi filamado em 57 pouco tempo após a sua publicação. Sensação estranha…

Por outro lado, há autores que utilizam muito bem este recurso, como Fante por exemplo -, que parece aplicá-lo na medida certa, pois o texto não parece que ficaria melhor sem os diálogos. 

Portanto, use com moderação. Ou lembre-se de Pedro Romero, o toureiro de “O Sol Também se Levanta”, e tenha a sensibilidade de fazer as escolhas certas em cada situação.

Todo o dia é dia de Rock

Posted in Cinema, Música, Rock'n'Roll with tags , , , , , on julho 13, 2011 by Leonardo Colucci

Afinal o que é rock’n’roll?

Ouça os clássicos, leia as biografias e formule a sua resposta.
Para que não haja confusão, clássicos são aqueles que entenderam e personificaram as origens do rock e que resistiram a ação do tempo:
Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry;
Janis Jopplin, Jimi Hendrix e The Doors;
Rolling Stones, Beatles, Creedence e The Who;

Existem outros obviamente, mas não são tantos assim.

Rock’n’Roll é música sem frescura, sem invenção e sem experimentalismo. No máximo um ou outro acorde fora da tríade proposta pelo blues, mas com a mesma intenção e o mesmo efeito que encontramos nas raízes do gênero. Sim pois foi lá no mississipi que os roqueiros beberam e os mais autênticos são os que menos se afastaram de lá.

O dia mundial do rock mereceria uma reflexão mais elaborada, mas como todo o dia é dia de rock, voltaremos ao tema outras vezes. Por hoje, publico uma pequena lista de filmes que estão disponíveis por aí e que são uma boa pedida para celebrar o dia de hoje:

– Great Balls of Fire (A Fera do Rock);

– Stoned;

– BackBeat;

– The Doors;

– Quase Famosos;

– Shout;

– The Wonders;

– A Escola do Rock;

Um Sonho de Paz e Amor

Posted in Blues, Cinema, literatura, Música, Rock'n'Roll with tags , , , , on janeiro 5, 2011 by Leonardo Colucci

Gosto de Literatura e Rock and Roll na mesma proporção. É pena que estes dois nunca se encontrem. Ou, ao menos quando se encontram nem sempre resulta um casamento feliz. Acho que os grandes escritores não gostam da música. Por isso não sou exigente e já me dou por satisfeito quando encontro algo um pouco elaborado, por que história de roqueiros e blueseiros, ou simples amantes destes gêneros são sempre interessantes. Se forem bem contadas…
Uma publicação de 2007 (no Brasil em 2009), portanto ainda fácil de encontrar em livrarias, narra as semanas que antecederam o festival de Woodstock. Chama-se “Aconteceu em Woodstock”, a dita história real do concerto que marcou uma geração.
Nele não aparecem Hendrix, Who ou Cocker, mas sim Mike Lang, o garoto com pinta de hippie (grande idealizador e realizador do festival) e Elliot Tiber, um artista homossexual, mas acima de tudo um grande sujeito (o corajoso empreendedor que viabilizou o evento).
Embora os autores (o próprio Elliot e Tom Monte) consigam criar o clima que girava em torno de Bethel, a cidade onde de fato se realizou o festival, é na figura de Elliot que a narrativa está centrada.
Um artista promissor que viu sua carreira escorrer pelos dedos quando decidiu voltar para a casa dos pais a fim de salvar o hotel da família que se encontrava em estado pré-falimentar. A cidade decadente não oferecia horizontes animadores para Elliot, mas salvar o negócio seria uma forma de finalmente obter o respeito dos seus pais. Toda a glória e notoriedade que ele rapidamente adiquiriu com sua arte em Nova York não impressionaram seus pais, nem sequer interessava a eles.
Além de menosprezado pelos pais, Elliot era gordo (sentia-se pouco atraente) e homossexual enrustido. As coisas eram realmente difíceis para Elli.
Além das suas experiências em Stonewall, Elliot conta como atraiu a atenção dos produtores de Woodstock e ajudou a realizar o evento que foi um marco na liberdade de expressão.
Há ainda um filme baseado neste livro, mas sobre ele ainda não posso comentar, pois não é muito fácil de encontrá-lo nas locadoras comuns.