Archive for the Clássicos Category

Todo Mundo é uma Ilha

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , on outubro 25, 2017 by Leonardo Colucci

“Atenção!”, “Atenção, crianças!”, “Aqui e agora!”. Assim desperta Will Farnaby. O náufrago de Huxley que aporta na ilha de Pala e perde a consciência depois de despencar de um penhasco quando tenta escapara do mar bravio.

Recobrando os sentidos, Will descobre que aquelas advertências que o despertaram – e pareciam vir de um autofalante – eram proferidas por uma ave típica da fauna palanesa: o Mainá.

Segundo a sabedoria local, os Mainás repetem esse mantra para lembrar os habitantes da ilha de estarem sempre presentes. Presentes em si mesmos e conectados com o aqui e agora.

Essa é a base de uma sociedade que tem seus valores muito ligados aos preceitos do budismo, embora, confessem, sua filosofia aceita o hibridismo e se aproveita de virtudes que lhes façam sentido.

São adeptos da hipnose como ferramenta terapêutica e acreditam no amor livre.

A interiorização para o autoconhecimento é a base de toda a cultura local e a moksha – uma substância colhida de uma flor – é o veículo ministrado desde cedo aos jovens palaneses que lhes amplia a percepção e os conecta com a iluminação.

A experiência com a moksha faz uma clara referência aos ensaios que o autor fizera anos antes em as Portas da Percepção, onde o veículo deste novo olhar era a mescalina.

Como é de se esperar de um bom livro, a ideia de uma sociedade com valores mais humanos, mais naturais e mais simples transformam o protagonista e são capazes de iniciar uma pequena transformação no leitor.

A Ilha

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Um russo no pampa

Posted in Autores Gaúchos, Clássicos, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on julho 4, 2017 by Leonardo Colucci

Os Ratos, obra mais importante do autor gaúcho Dionélio Machado, narra um dia na vida ordinária – opaca ou apática, poderíamos dizer – de Naziazeno Barbosa.

Nessa ocasião, o protagonista – um funcionário público como os personagens preferidos da literatura russa – encontra-se imobilizado diante de uma pequena dívida que tem a acertar com o leiteiro, mas que, embora se trate de um valor irrisório (pouco mais de R$20,00 em dinheiro de hoje), Naziazeno não dispõe da quantia. Recebe, então, um prazo para quitar a dívida até a manhã seguinte.

Pois bem, enquanto acompanhamos o homem elaborando estratégias para obter esse empréstimo vamos conhecendo um pouco mais do seu interior e de sua condição humana.

Aflito com a humilhação moral, Naziazeno parece inerte e, depois de ver seus planos – elucubrados sem muita coerência com a realidade – ruírem, está totalmente desamparado e com toda a sua fragilidade, emocional e de estima, exposta.

É neste momento que ele se une a outros que, assim como ele, vivem de contar migalhas vasculhando a cidade em busca de pequenas oportunidades que lhes permitam algum ganho. Fica, então, a mercê de suas ideias e os segue sem questionar atrás de remotas possibilidades de haver essa quantia dentro do prazo que o coitado precisa.

Ao contrário dos seus amigos, hábeis em transações diárias e otimistas em relação ao sucesso de suas empresas, Naziazeno chega ao fim do dia já desesperançado e abatido. Está exausto pelas longas caminhadas e pelo jejum que lhe acompanha desde o amanhecer, quando por fim obtém o dinheiro exato após uma operação engenhosa tramada por um de seus parceiros.

O problema emergencial parece resolvido, porém sua angústia está ainda longe de acabar. Atormentado por toda a sorte de pensamentos negativos, Naziazeno retorna ao lar preocupado com a explicação que ter de dar à esposa.

É nítida a associação que o autor faz entre seus personagens e os pequenos roedores que dão título ao livro e, igualmente, vivem de sobras da sociedade. Em sua noite insone enquanto espera pelo acerto de contas com o seu credor que chegará pela manhã, o homem pensa estar ouvido os ratos roerem o dinheiro que deixou sobre a mesa. Seu conformismo é tal, que não encontra forças para ir salvar o dinheiro do suposto ataque dos ratos.

O enredo segue a receita da literatura dos mestres russos ao relatar acontecimentos triviais do quotidiano de sua época, porém é no interior do protagonista que a verdadeira história acontece.

 

Cápsula do Tempo

Posted in Cinema, Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , , , on abril 28, 2017 by Leonardo Colucci

A Editora Aleph reuniu em um volume todos os contos de Philip Dick adaptados para o cinema com o título sugestivo de “Realidades Adaptadas”.

De “O Vingador do Futuro” a “Agentes do Destino”, passando por “Minority Report”, são 7 contos escritos por volta da década de 1950 e ambientados em um futuro incerto, mas não muito distante – provavelmente nos dias de hoje.

É um tempo dominado por máquinas onde o ser humano busca manter a sua identidade. Porém, há organizações que controlam as informações e interferem na vida das pessoas em uma sociedade cada vez menos livre.

Nesse aspecto social e político, as histórias de Dick encontram alguma semelhança com os clássicos distópicos “1984”, “Admirável Mundo Novo” e “Fahrenheit 451”, porém com uma ênfase cibernética maior.

A parte da enorme relevância sociológica que a análise destes livro promove, é curioso ler no tempo presente o futuro projetado por Dick. Enquanto as previsões sobre comunicação por vídeo e inteligência artificial se confirmaram, os nossos contemporâneos continuam revelando fotos à partir dos negativos. Quer dizer, nem mesmo a genialidade criativa de Dick, que dominava as ciências da sua época, foi capaz de imaginar que utilizaríamos fotos digitais, coisa tão trivial nos dias atuais.

Isso nos leva a pensar: que erros cometeríamos nós, tão familiarizados com as evoluções tecnológicas, se projetássemos um futuro de algumas décadas à frente?

Que tal fazer este exercício e guardá-lo em uma capsula do tempo a ser aberta daqui a, por exemplo, 30 anos?

Homem-lobo

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on abril 16, 2017 by Leonardo Colucci

O romance “O Lobo da Estepe” de Hermann Hesse nos apresenta de forma magistral os conflitos internos de um homem, Harry Haller, que “andava sobre duas pernas, usava roupas de homem e era um homem, mas, não obstante, era também um lobo da estepe”.

Haller, era um intelectual detentor de conhecimento e a mais fina cultura, porém convertera-se em um homem arredio e solitário. Crítico demasiado da vida burguesa de sua época e de pouquíssimo trato social. Esse caráter um tanto selvagem de sua personalidade ele próprio atribuía ao lobo da estepe que habitava dentro de si.

Homem e lobo competiam pelo domínio de sua alma. Viviam em constante conflito que Haller não era capaz de apaziguar. Os prejuízos desta luta ininterrupta traziam infelicidade e angústia a Haller que tinha dificuldade de entender quem, ou o que, ele realmente era.

Pois bem, quando a repulsa à sua própria fragilidade chega ao limite, o homem compreende que um único fim lhe seria justo; o suicídio. Porém, a falta de coragem o impede de levar a cabo esse destino.

Por medo de ficar sozinho, evita voltar pra casa. Erra pelas ruas até encontrar abrigo em um prostíbulo onde sua vida começa a ganhar outro sentido. As pessoas que conhece naquela noite lhe dão acesso a experiências que vão ser significativas na vida do personagem e do leitor. Sim, porque o drama de Haller é análogo a qualquer inquietude que o ser humano encontra em algum momento da vida.

Entre tantas experiências fantásticas, Haller assiste a um espetáculo onde um homem fisicamente idêntico a si, exibe um número como domador de um lobo. A forma como este homem subjuga o animal selvagem e o transforma em uma “dócil criatura”, causa profundo desconforto no espectador. Haller observa um lobo totalmente adestrado que consegue tristemente controlar seus instintos e obedecer todo o tipo de ordem e reproduzir todo o tipo de truques de forma servil e apática.

Este espetáculo é apenas uma das metáforas que Hermann Hesse oferece para que o leitor, realizando um exame profundo da condição humana de Haller, reflita sobre a sua própria natureza.

Por conta do forte conteúdo psicológico e filosófico das entrelinhas, o leitor que concluir a leitura de “O Lobo da Estepe”, não será mais o mesmo que começou.

Jogadores

Posted in Clássicos, literatura with tags , , , , on julho 20, 2016 by Leonardo Colucci

“Não importa se ganho ou se perco, eu quero é apostar”

Charles Bukowski

“Oh, como me batia o coração! Não, não é que o dinheiro me fosse caro! O que eu queria, então, era apenas que, no dia seguinte, todos aqueles, todas aquelas magníficas senhoras, falassem de mim, contassem a minha história,  ficassem surpresos comigo, me elogiassem e reverenciassem o meu novo ganho”

— Fiódor Dostoiévski

Aí está um tema fascinante para a literatura. Especialmente para aqueles que  admiram personagens psicologicamente bem construídos. Humanamente vulneráveis.

As narrativas mais primorosas que têm a compulsão pelo jogo como traço marcante em seus protagonistas, nos revelam pessoas angustiadas, fora de controle, mas conscientes de sua fraqueza. Tentam justificar-se aos leitores fingindo ter domínio sobre seus impulsos e, de forma inútil, dissimulam a sua incapacidade de sucumbir ao vício.

Autores hábeis, reproduziram a atmosfera que envolve os cassinos e as casas de jogos, mas, principalmente, criaram anti-heróis que comovem por sua incapacidade de contrariar a próprio destino, mesmo que ele represente a falência e ruína moral.

 

A revelação do russo

Posted in Clássicos, contos, literatura, Resenha, Sobre Livros with tags , , on março 10, 2016 by Leonardo Colucci

O mestre do conto, Anton Tchekhov, citado por nove entre dez escritores como um dos mais habilidosos autores de histórias curtas, também produziu belas peças de maior fôlego. Uma delas, publicada em edição caprichada pela editora 34, chegou às livrarias no ano passado. Trata-se de “O Duelo”.

Nesta novela, Tchekhov nos apresenta o jovem Ivan Laiévski, um autêntico ícone do que Turguêniev chamou de “homem supérfluo”. Assim foi qualificado o intelectual que vem da classe média e não encontra espaço entre as elites detentoras do saber. Este grupo de indivíduos, surge para criticar e questionar padrões de uma sociedade conservadora que deseja manter a distância entre as camadas sociais.

Laiévski é, na verdade, um espírito livre. Porém, seus procedimentos perturbam os notáveis pensadores da época. Vive com uma mulher casada, desdenha dos títulos e demonstra pouca ambição. Ele próprio admite, a certa altura, que desperdiça seu tempo em atividades ignóbeis e inúteis.

Sufocado pelo marasmo e buscando libertar-se da passividade, decide abandonar o Cáucaso e retornar para o frio de Petersburgo.

Porém, antes da partida Laiévski tem uma (inexplicável) crise de choro que denota instabilidade emocional incompatível com os homens de bem. Sentindo-se humilhado, reage de forma agressiva de maneira a apagar rapidamente seu deslize tentando em vão, encontrar um adjetivo adequado para o ocorrido.

Neste episódio, vem à tona o verdadeiro duelo da trama: o embate íntimo que o protagonista trava consigo mesmo na relutância em se aceitar frágil.

 

Mais humano que os humanos

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on maio 25, 2014 by Leonardo Colucci

Tivessem trabalhado em conjunto ou realizado um acerto de copyright, Nietzsche poderia ter emprestado o título “Humano, demasiado humano”, para Mary Shelley batizar a sua novela escrita na mansão de Lord Byron.

A situação proposta acima é impossível de ser cogitada, pois o filósofo alemão e a escritora inglesa, nem sequer viveram na mesma época, mas este título cairia muito bem para a obra prima da jovem autora.

……….

Uma criatura concebida em laboratório e dotada de um coração puro e bondoso, se revela – através de suas reflexões ante a observação do mundo (na tentativa de compreendê-lo) e seu próprio sentimento – muito mais humanizada que seu criador, o cientista Victor Frankenstein.

O jovem químico de Genebra dotado de virtudes e uma capacidade intelectual diferenciada, dedica-se à ciência em busca de um grande feito. E como é próprio dos obstinados, torna-se relapso em relação à sua família e amigos. O que causa aflição em sua prima, que percebe o esmorecer do amor que Victor sempre lhe devotou ao ver tornarem-se escassas e vagas as cartas que recebe da Inglaterra.

E é nesse ponto que a clássica história de horror, revela o contraste – irônico – entre o monstro e o respeitável cientista.

Enquanto a criatura hedionda, rejeitada pela sociedade, busca encontrar uma maneira de ser aceita, Victor revela traços sutis (não perceptíveis a uma leitura desatenta) de egoísmo e narcisismo.

Se o pobre Victor, consome-se em uma culpa silenciosa e digna de pena, por ter dado vida à tão nefasta criatura, é com o monstro, no entanto, que se passa o conflito mais interessante. E esse é o segredo (presente na “história cifrada”), para o sucesso da obra de Shelley.

A desengonçada aberração – cuja ingenuidade é capaz de comover leitores há quase dois séculos -, descobre-se com uma capacidade infinita de amar, mas incapaz de ser amado. Pior, desperta ódio naqueles que eram para ser seus semelhantes apenas pela sua grotesca aparência. Difícil de compreender e doloroso de conviver.

Essa metáfora se materializa constantemente na sociedade e é matéria preferencial nos tele-jornais. A violência e o ódio dos seres humanos a quem chamamos de monstros, no mais das vezes têm a mesma raiz: a incompreensão e a falta de amor.

Quem leu Frankenstein de Mary Shelley por obrigação ou com desleixo, tente outra vez. Vai valer à pena.