Assim nascem os blues – Cena XII: Nascido sob um mau signo

A vida é mais difícil para um guitarrista canhoto. Tocar se torna uma atividade fisicamente desafiadora, pois os instrumentos são desenhados para destros.

Mas essa era apenas uma das dificuldades que ele enfrentaria. A cigana já prevenira a sua mãe. “Este garoto terá muitas mulheres, mas nunca encontrará o amor, terá riqueza, mas nunca a felicidade”. Todo o luxo e fama se esvairão rápido e ele terminará esquecido, abandonado à dor e à má sorte.

Assim nascem os blues – Cena XI: Possuído pelo blues

De repente apenas as mulheres continuavam frequentando os cultos religiosos. O público masculino fora cooptado pelas juke joints, festa que além de profana enriquecia seus promotores. E isso desagradava profundamente os pastores.

Numa manobra ardilosa, os pastores convenceram as fiéis que o blues era música do diabo, pois afastava os homens da igreja. Essa iminente maldição, foi suficiente para que as mulheres tentassem trazer seus maridos de volta aos cultos, mas eles já haviam sido capturados pelo blues.

Assim nascem os blues – Cena X: Ela sabia cantar

Era um grupo de crianças entre 3 e 11 anos. Cuidavam umas das outras enquanto os adultos trabalhavam por 12 ou 14 horas nas lavouras. Apenas os bebês eram acompanhados pelos velhos que não tinham valor para o trabalho.

A menina tomava conta da casa, cozinhava para os irmãos e ainda achava tempo para sonhar. Adorava cantar na igreja. Tinha o respeito dos mais velhos e a admiração de seus amigos.

Porém o pai, que não parava em emprego nenhum e ainda desaparecia por meses, a proibiu de cantar. “Vá arrumar um casamento ou um serviço em uma casa de família”, ordenou. “Se não conseguir ganhar dinheiro, pelo menos que pare de dar despesa”.

Assim, mais uma bela voz silenciou.

Assim nascem os blues – Cena VII: Uma lápide para seu o epitáfio

Nos anos 20 e 30 ela ganhou muito dinheiro. Chegou a gravar mais de 100 faixas de sucesso e foi uma das campeãs de vendas dos chamados “Race Records”. Mas tal como as histórias que contava em suas canções, viveu suas próprias misérias.

Esbanjou milhares de dólares em luxos e extravagâncias. Usava as melhores joias e cobria-se com as peles mais caras. Suas festas eram memoráveis. Mas quando a carreira entrou em declínio — seu estilo está ultrapassado, os canalhas lhe disseram —, as vendas caíram e os contratos foram encerrados, restou-lhe apenas a bebida. Os aproveitadores — inclusive marido e amantes — desapareceram e ela encerrou sua glamorosa carreira, cantando em cabarés para meia dúzia de ignorantes. Com seus trajes chiques, porém desgastados pelo tempo e pelo descuido, ainda mantinha uma postura altiva no palco. Fora dele, porém, bastava que lhe enchessem o copo e lhe dessem um lugar para dormir.

Não resistindo aos excessos, morreu sozinha em um quarto de pensão de 4 pratas a diária. Foi sepultada como indigente e sua cova permaneceu esquecida por quarenta anos. O paradeiro de seus restos mortais foi descoberto por uma jovem cantora branca — que sempre a teve como principal influência. A garota iniciou uma busca através de pesquisa em bibliotecas e arquivos de jornais que durou muitos meses de trabalho, quando localizou uma notícia de que ladrões — sem sucesso — haviam vandalizado o túmulo de uma mulher para roubar-lhes as joias. Exames comprovaram que se tratava da famosa blueswoman.

A jovem seguidora, então, comprou-lhe uma lápide onde se lia: “A eterna rainha do blues”, que, em cerimônia discreta, foi posta a identificar o local onde a diva descansaria para sempre.

Planeta Fantástico

Está saindo pela Editora Metamorfose a antologia Planeta Fantástico que reúne uma eclética safra de escritores.

O lançamento será na sede da editora no dia 13/08 e será apresentado na Odisseia da Literatura Fantástica, evento tradicional da agenda cultural de Porto Alegre que acontece nos dias 24 e 25/08 (https://www.facebook.com/odisseialitfantastica/).

Convite LANÇAMENTO

Para Inquietos

imagem capa final iiInquietos é um livro de relatos ficcionais dividido em duas partes:

Na primeira encontramos personagens com um perfil outsider, que se demonstram inquietos e inconsequentes, mas com pequenas crises de consciência que os acaba — por vezes (a escolha é do leitor) — absolvendo de suas atitudes cretinas, egoístas ou simplesmente ordinárias.

A segunda parte é dedicada à dúvida angustiante entre o real e o imaginário. Nos sete contos que a compõem, os personagens estão confusos. Sujeitos à influência do universo fantástico que atua sobre os acontecimentos que estão envolvidos e, em geral, não têm lucidez suficiente para perceber as contradições com a realidade. Tarefa esta que cabe ao leitor que, para azar dos protagonistas, não pode intervir ou alertá-los sobre o seu destino.
Sumário
Parte I
Acerto de Contas
Páreo Corrido
Um Bom Sujeito
A Dama de Espadas
Café frio
Desova
Blue Night
Parte II
Passeio com Borges
Uma noite na Rua da República
Pergunte ao Poe
Pano verde
A Estrada de Ashgrove
Estância São Roque
Ao fogo

Inquietos está disponível em versão digital no site da Amazon através do link: https://www.amazon.com.br/dp/B07JLJF599?fbclid=IwAR0pgSHwyT21tg0pa_UTDyWYoqokiXW5UzpYYLpOTEBnXv0kWtFG7qQqrsk

Mesmo não tendo o dispositivo kindle, é possivel baixar o livro em qualquer dispositivo.

Tragédia ilustrada

Diz-se das tragédias – os gregos ensinaram isso – que são o desfecho inevitável do qual não se pode fugir.

Nos acostumamos como leitores a encontrar personagens que lutam para ludibriar o destino, esperançosos de que possam – com algum golpe astuto, ou mera cautela – escapar das mazelas que lhe foram prometidas no dia em que nasceram. Édipo, talvez o mais lembrado, mas existem tantos outros, inclusive na literatura moderna.

Acreditemos ou não em predestinação, as tragédias diferem da vida real apenas no fato em que há sempre uma premonição fantástica que alerta a personagem para algo terrível que lhe esteja reservado para o futuro.

É também assim em “O Homem Ilustrado” de Ray Bradbury. O conto narra a decadência de um trabalhador do mundo do circo que, por ter engordado muito, perde a utilidade como montador de tenda e acaba demitido. “Me deixe ser seu homem gordo!”, chega a pedir ao chefe, mas até para isso era preciso ter talento e ele não tinha nada de especial.

Então, Willian Phillipus Phelps, ouve falar de uma mulher cega capaz de fazer tatuagens incríveis e ele tem a ideia de ilustrar todo o seu corpo na expectativa de se tornar uma atração do circo e reconquistar o respeito da esposa que o despreza por sua inutilidade e desleixo.

A dolorida sessão de modificação corporal têm fim e Willian deixa o casebre da bruxa com 100% da pele coberta pelas mais diversas e incríveis figuras. Duas, porém, uma no peito e outra nas costas, parecem inacabadas e ficam cobertas por uma bandagem (recomendação da Velha tatuadora que explica que em intervalos de uma semana as duas imagens se completarão e revelarão o futuro).

O homem passa a ser a curiosa novidade do espetáculo. “Vamos revelar o que nos diz a tatuagem do peito do Homem Ilustrado!”, anuncia o mestre de cerimônias. Diante uma multidão assombrada descortina-se a horrenda cena de um homem, o próprio Willian pode-se notar, matando brutalmente uma jovem, que logo se percebe ser Lisabeth, sua esposa. A mórbida previsão não tarda a acontecer. Por mais repúdio que Willian tenha a esta possibilidade – ele a amava – e se empenhasse em convencê-la que não tivera nenhuma interferência na execução do desenho agourento, circunstâncias acabam levando-o a repetir o quadro pintado em seu peito.

O homem foge com um horda de artistas no seu encalço disposto a vingar o brutal assassinato. Quando finalmente o alcançam, Willian é espancado até a morte. Em seu corpo inerte, deitado de bruços, finalmente se revela a última imagem: um homem gordo, tatuado, espancado por anões, mulheres barbadas e outras figuras do mundo circense.

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A revelação do russo

O mestre do conto, Anton Tchekhov, citado por nove entre dez escritores como um dos mais habilidosos autores de histórias curtas, também produziu belas peças de maior fôlego. Uma delas, publicada em edição caprichada pela editora 34, chegou às livrarias no ano passado. Trata-se de “O Duelo”.

Nesta novela, Tchekhov nos apresenta o jovem Ivan Laiévski, um autêntico ícone do que Turguêniev chamou de “homem supérfluo”. Assim foi qualificado o intelectual que vem da classe média e não encontra espaço entre as elites detentoras do saber. Este grupo de indivíduos, surge para criticar e questionar padrões de uma sociedade conservadora que deseja manter a distância entre as camadas sociais.

Laiévski é, na verdade, um espírito livre. Porém, seus procedimentos perturbam os notáveis pensadores da época. Vive com uma mulher casada, desdenha dos títulos e demonstra pouca ambição. Ele próprio admite, a certa altura, que desperdiça seu tempo em atividades ignóbeis e inúteis.

Sufocado pelo marasmo e buscando libertar-se da passividade, decide abandonar o Cáucaso e retornar para o frio de Petersburgo.

Porém, antes da partida Laiévski tem uma (inexplicável) crise de choro que denota instabilidade emocional incompatível com os homens de bem. Sentindo-se humilhado, reage de forma agressiva de maneira a apagar rapidamente seu deslize tentando em vão, encontrar um adjetivo adequado para o ocorrido.

Neste episódio, vem à tona o verdadeiro duelo da trama: o embate íntimo que o protagonista trava consigo mesmo na relutância em se aceitar frágil.

 

Mini-Sagas

50 palavras, nem mais nem menos. Essa foi a proposta do escritor inglês Brian Aldiss ao criar uma competição no jornal The Daily Telegraph, para divertir seus leitores.

Consiste em escrever uma narrativa com exatas 50 palavras (excluindo-se o título).

As definições de Saga, estão associadas à aventuras, feitos heroicos ou de grande vulto. Olhando assim, parece impossível descrever tais histórias em número tão limitado de palavras e, ainda, economizando adjetivos. Tem muita gente que tenta, mas o resultado nem sempre é alcançado.

Como passatempo, exercício de criatividade ou técnica de oficina, a brincadeira funciona bem. Porém, dificilmente veremos uma Mini-Saga resultar em uma boa peça literária. Em geral os autores que aceitam o desafio, caem no armadilha inevitável do trocadilho ou das viradas irônicas geralmente previsíveis.

Para exercitar a criatividade ou para desenvolver a capacidade de síntese, a prática de escrever com recursos limitados pode ajudar no aprimoramento dessas habilidades. Mas não espere ir muito além.

Ficou curioso? Então, experimenta!