Archive for the contos Category

Sobre escrever XI

Posted in contos, Sobre Escrever, Teoria Literária with tags , on maio 20, 2017 by Leonardo Colucci

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“O conto é algo assim como uma gota d’água vista com uma lupa e portanto nela está o universo inteiro”.

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– Hector Mureña, contista argentino

Tragédia ilustrada

Posted in contos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , on setembro 3, 2016 by Leonardo Colucci

Diz-se das tragédias – os gregos ensinaram isso – que são o desfecho inevitável do qual não se pode fugir.

Nos acostumamos como leitores a encontrar personagens que lutam para ludibriar o destino, esperançosos de que possam – com algum golpe astuto, ou mera cautela – escapar das mazelas que lhe foram prometidas no dia em que nasceram. Édipo, talvez o mais lembrado, mas existem tantos outros, inclusive na literatura moderna.

Acreditemos ou não em predestinação, as tragédias diferem da vida real apenas no fato em que há sempre uma premonição fantástica que alerta a personagem para algo terrível que lhe esteja reservado para o futuro.

É também assim em “O Homem Ilustrado” de Ray Bradbury. O conto narra a decadência de um trabalhador do mundo do circo que, por ter engordado muito, perde a utilidade como montador de tenda e acaba demitido. “Me deixe ser seu homem gordo!”, chega a pedir ao chefe, mas até para isso era preciso ter talento e ele não tinha nada de especial.

Então, Willian Phillipus Phelps, ouve falar de uma mulher cega capaz de fazer tatuagens incríveis e ele tem a ideia de ilustrar todo o seu corpo na expectativa de se tornar uma atração do circo e reconquistar o respeito da esposa que o despreza por sua inutilidade e desleixo.

A dolorida sessão de modificação corporal têm fim e Willian deixa o casebre da bruxa com 100% da pele coberta pelas mais diversas e incríveis figuras. Duas, porém, uma no peito e outra nas costas, parecem inacabadas e ficam cobertas por uma bandagem (recomendação da Velha tatuadora que explica que em intervalos de uma semana as duas imagens se completarão e revelarão o futuro).

O homem passa a ser a curiosa novidade do espetáculo. “Vamos revelar o que nos diz a tatuagem do peito do Homem Ilustrado!”, anuncia o mestre de cerimônias. Diante uma multidão assombrada descortina-se a horrenda cena de um homem, o próprio Willian pode-se notar, matando brutalmente uma jovem, que logo se percebe ser Lisabeth, sua esposa. A mórbida previsão não tarda a acontecer. Por mais repúdio que Willian tenha a esta possibilidade – ele a amava – e se empenhasse em convencê-la que não tivera nenhuma interferência na execução do desenho agourento, circunstâncias acabam levando-o a repetir o quadro pintado em seu peito.

O homem foge com um horda de artistas no seu encalço disposto a vingar o brutal assassinato. Quando finalmente o alcançam, Willian é espancado até a morte. Em seu corpo inerte, deitado de bruços, finalmente se revela a última imagem: um homem gordo, tatuado, espancado por anões, mulheres barbadas e outras figuras do mundo circense.

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A revelação do russo

Posted in Clássicos, contos, literatura, Resenha, Sobre Livros with tags , , on março 10, 2016 by Leonardo Colucci

O mestre do conto, Anton Tchekhov, citado por nove entre dez escritores como um dos mais habilidosos autores de histórias curtas, também produziu belas peças de maior fôlego. Uma delas, publicada em edição caprichada pela editora 34, chegou às livrarias no ano passado. Trata-se de “O Duelo”.

Nesta novela, Tchekhov nos apresenta o jovem Ivan Laiévski, um autêntico ícone do que Turguêniev chamou de “homem supérfluo”. Assim foi qualificado o intelectual que vem da classe média e não encontra espaço entre as elites detentoras do saber. Este grupo de indivíduos, surge para criticar e questionar padrões de uma sociedade conservadora que deseja manter a distância entre as camadas sociais.

Laiévski é, na verdade, um espírito livre. Porém, seus procedimentos perturbam os notáveis pensadores da época. Vive com uma mulher casada, desdenha dos títulos e demonstra pouca ambição. Ele próprio admite, a certa altura, que desperdiça seu tempo em atividades ignóbeis e inúteis.

Sufocado pelo marasmo e buscando libertar-se da passividade, decide abandonar o Cáucaso e retornar para o frio de Petersburgo.

Porém, antes da partida Laiévski tem uma (inexplicável) crise de choro que denota instabilidade emocional incompatível com os homens de bem. Sentindo-se humilhado, reage de forma agressiva de maneira a apagar rapidamente seu deslize tentando em vão, encontrar um adjetivo adequado para o ocorrido.

Neste episódio, vem à tona o verdadeiro duelo da trama: o embate íntimo que o protagonista trava consigo mesmo na relutância em se aceitar frágil.

 

Mini-Sagas

Posted in contos, literatura, Sobre Escrever with tags , , , on maio 31, 2014 by Leonardo Colucci

50 palavras, nem mais nem menos. Essa foi a proposta do escritor inglês Brian Aldiss ao criar uma competição no jornal The Daily Telegraph, para divertir seus leitores.

Consiste em escrever uma narrativa com exatas 50 palavras (excluindo-se o título).

As definições de Saga, estão associadas à aventuras, feitos heroicos ou de grande vulto. Olhando assim, parece impossível descrever tais histórias em número tão limitado de palavras e, ainda, economizando adjetivos. Tem muita gente que tenta, mas o resultado nem sempre é alcançado.

Como passatempo, exercício de criatividade ou técnica de oficina, a brincadeira funciona bem. Porém, dificilmente veremos uma Mini-Saga resultar em uma boa peça literária. Em geral os autores que aceitam o desafio, caem no armadilha inevitável do trocadilho ou das viradas irônicas geralmente previsíveis.

Para exercitar a criatividade ou para desenvolver a capacidade de síntese, a prática de escrever com recursos limitados pode ajudar no aprimoramento dessas habilidades. Mas não espere ir muito além.

Ficou curioso? Então, experimenta!

 

Os cisnes do Nelson

Posted in Autores Gaúchos, contos, literatura, Novos Autores with tags , , , on maio 2, 2014 by Leonardo Colucci

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“Uma vez, vimos cisnes nadando em fila, surgidos da neblina sobre o lago. Eu os via de novo, ainda agora. Vinham à margem atendendo ao chamado dela, surgiam sem parar da neblina encostada sobre as águas. ”

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O trecho acima pertence ao conto “2.222 cisnes brincando de locomotiva e vagões”, de Nelson Rego. Como é característico na prosa do Nelson, 2.222 traz um olhar profundo e poético de uma cena do cotidiano que nas mãos dele rende e se converte em boa literatura.

Para ler 2.222 na íntegra, acesse o link “Convidados” no menu lateral deste blog, ou adquira o excelente “Daimon junto à porta”, livro que contém este e outros 9 contos, amostras da capacidade narrativa do autor.

Brilhante como a chuva

Posted in Autores Gaúchos, contos, literatura, Sobre Escrever with tags , , on janeiro 16, 2014 by Leonardo Colucci

A boa literatura não precisa de histórias impressionantes ou finais surpreendentes. Muitos autores de boa prosa sofrem por não entender isso e empenham-se – às vezes uma vida inteira – em criar “a” história. Uma espécie de dependência que reprime o talento e gera frustração em autores, leitores e editores.

Alguns, felizmente, dedicam-se a narrar. E é esse o caminho escolhido há tempos pela gaúcha, Cintia Moscovich.

Em “Essa coisa brilhante que é a chuva” – Ed. Record, que rendeu à autora o Premio Portugal Telecom de literatura, temos a amostra mais recente da linguagem rica, cuidadosa e detalhista de Cintia. Opção que reafirma a tese se criou desde os tempos de Tchekhov; o bom escritor é aquele que extrai grandes histórias de fatos cotidianos.

A leitura de “Essa coisa brilhante…” flui de maneira agradável, mas perturbadora. Não é uma leitura leve, pois não se passa indiferente por ela, mas é a mais pura expressão do fazer literário.

Enquanto o café esfria

Posted in contos, Contos do Leo, literatura, Novos Autores with tags , , , , , , on novembro 12, 2013 by Leonardo Colucci

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“Enquanto eu reconhecia — não sem certo espanto — que me importava com Joana, ela parecia cada vez preocupar-se menos comigo. Não reclamava mais das minhas atitudes, não ligava se passássemos dias sem conversar e não deixava mais o café pronto para quando eu chegasse do trabalho. Esforçava-me em meu desleixo, tentava agir como egoísta e ela nem ligava. ”

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Tal como um café servido deixado sobre a mesa, quando as relações esfriam, tentar requentá-las nem sempre é uma boa medida.
O Trecho reproduzido acima pertence ao conto “Café Frio”, premiado na última edição de Histórias de Trabalho. Pode ser lido na íntegra na seção CONTOS no menu lateral deste blog.