Archive for the Literatura Fantástica Category

Cápsula do Tempo

Posted in Cinema, Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , , , on abril 28, 2017 by Leonardo Colucci

A Editora Aleph reuniu em um volume todos os contos de Philip Dick adaptados para o cinema com o título sugestivo de “Realidades Adaptadas”.

De “O Vingador do Futuro” a “Agentes do Destino”, passando por “Minority Report”, são 7 contos escritos por volta da década de 1950 e ambientados em um futuro incerto, mas não muito distante – provavelmente nos dias de hoje.

É um tempo dominado por máquinas onde o ser humano busca manter a sua identidade. Porém, há organizações que controlam as informações e interferem na vida das pessoas em uma sociedade cada vez menos livre.

Nesse aspecto social e político, as histórias de Dick encontram alguma semelhança com os clássicos distópicos “1984”, “Admirável Mundo Novo” e “Fahrenheit 451”, porém com uma ênfase cibernética maior.

A parte da enorme relevância sociológica que a análise destes livro promove, é curioso ler no tempo presente o futuro projetado por Dick. Enquanto as previsões sobre comunicação por vídeo e inteligência artificial se confirmaram, os nossos contemporâneos continuam revelando fotos à partir dos negativos. Quer dizer, nem mesmo a genialidade criativa de Dick, que dominava as ciências da sua época, foi capaz de imaginar que utilizaríamos fotos digitais, coisa tão trivial nos dias atuais.

Isso nos leva a pensar: que erros cometeríamos nós, tão familiarizados com as evoluções tecnológicas, se projetássemos um futuro de algumas décadas à frente?

Que tal fazer este exercício e guardá-lo em uma capsula do tempo a ser aberta daqui a, por exemplo, 30 anos?

Homem-lobo

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on abril 16, 2017 by Leonardo Colucci

O romance “O Lobo da Estepe” de Hermann Hesse nos apresenta de forma magistral os conflitos internos de um homem, Harry Haller, que “andava sobre duas pernas, usava roupas de homem e era um homem, mas, não obstante, era também um lobo da estepe”.

Haller, era um intelectual detentor de conhecimento e a mais fina cultura, porém convertera-se em um homem arredio e solitário. Crítico demasiado da vida burguesa de sua época e de pouquíssimo trato social. Esse caráter um tanto selvagem de sua personalidade ele próprio atribuía ao lobo da estepe que habitava dentro de si.

Homem e lobo competiam pelo domínio de sua alma. Viviam em constante conflito que Haller não era capaz de apaziguar. Os prejuízos desta luta ininterrupta traziam infelicidade e angústia a Haller que tinha dificuldade de entender quem, ou o que, ele realmente era.

Pois bem, quando a repulsa à sua própria fragilidade chega ao limite, o homem compreende que um único fim lhe seria justo; o suicídio. Porém, a falta de coragem o impede de levar a cabo esse destino.

Por medo de ficar sozinho, evita voltar pra casa. Erra pelas ruas até encontrar abrigo em um prostíbulo onde sua vida começa a ganhar outro sentido. As pessoas que conhece naquela noite lhe dão acesso a experiências que vão ser significativas na vida do personagem e do leitor. Sim, porque o drama de Haller é análogo a qualquer inquietude que o ser humano encontra em algum momento da vida.

Entre tantas experiências fantásticas, Haller assiste a um espetáculo onde um homem fisicamente idêntico a si, exibe um número como domador de um lobo. A forma como este homem subjuga o animal selvagem e o transforma em uma “dócil criatura”, causa profundo desconforto no espectador. Haller observa um lobo totalmente adestrado que consegue tristemente controlar seus instintos e obedecer todo o tipo de ordem e reproduzir todo o tipo de truques de forma servil e apática.

Este espetáculo é apenas uma das metáforas que Hermann Hesse oferece para que o leitor, realizando um exame profundo da condição humana de Haller, reflita sobre a sua própria natureza.

Por conta do forte conteúdo psicológico e filosófico das entrelinhas, o leitor que concluir a leitura de “O Lobo da Estepe”, não será mais o mesmo que começou.

Tragédia ilustrada

Posted in contos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , on setembro 3, 2016 by Leonardo Colucci

Diz-se das tragédias – os gregos ensinaram isso – que são o desfecho inevitável do qual não se pode fugir.

Nos acostumamos como leitores a encontrar personagens que lutam para ludibriar o destino, esperançosos de que possam – com algum golpe astuto, ou mera cautela – escapar das mazelas que lhe foram prometidas no dia em que nasceram. Édipo, talvez o mais lembrado, mas existem tantos outros, inclusive na literatura moderna.

Acreditemos ou não em predestinação, as tragédias diferem da vida real apenas no fato em que há sempre uma premonição fantástica que alerta a personagem para algo terrível que lhe esteja reservado para o futuro.

É também assim em “O Homem Ilustrado” de Ray Bradbury. O conto narra a decadência de um trabalhador do mundo do circo que, por ter engordado muito, perde a utilidade como montador de tenda e acaba demitido. “Me deixe ser seu homem gordo!”, chega a pedir ao chefe, mas até para isso era preciso ter talento e ele não tinha nada de especial.

Então, Willian Phillipus Phelps, ouve falar de uma mulher cega capaz de fazer tatuagens incríveis e ele tem a ideia de ilustrar todo o seu corpo na expectativa de se tornar uma atração do circo e reconquistar o respeito da esposa que o despreza por sua inutilidade e desleixo.

A dolorida sessão de modificação corporal têm fim e Willian deixa o casebre da bruxa com 100% da pele coberta pelas mais diversas e incríveis figuras. Duas, porém, uma no peito e outra nas costas, parecem inacabadas e ficam cobertas por uma bandagem (recomendação da Velha tatuadora que explica que em intervalos de uma semana as duas imagens se completarão e revelarão o futuro).

O homem passa a ser a curiosa novidade do espetáculo. “Vamos revelar o que nos diz a tatuagem do peito do Homem Ilustrado!”, anuncia o mestre de cerimônias. Diante uma multidão assombrada descortina-se a horrenda cena de um homem, o próprio Willian pode-se notar, matando brutalmente uma jovem, que logo se percebe ser Lisabeth, sua esposa. A mórbida previsão não tarda a acontecer. Por mais repúdio que Willian tenha a esta possibilidade – ele a amava – e se empenhasse em convencê-la que não tivera nenhuma interferência na execução do desenho agourento, circunstâncias acabam levando-o a repetir o quadro pintado em seu peito.

O homem foge com um horda de artistas no seu encalço disposto a vingar o brutal assassinato. Quando finalmente o alcançam, Willian é espancado até a morte. Em seu corpo inerte, deitado de bruços, finalmente se revela a última imagem: um homem gordo, tatuado, espancado por anões, mulheres barbadas e outras figuras do mundo circense.

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Beatnik oriental

Posted in Beatniks, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on junho 18, 2016 by Leonardo Colucci

Sumire é uma aspirante a escritora, fã de Jack Kerouac, recém saída da adolescência e confusa em relação aos seus sentimentos e seu futuro. Enfim, confusa sobre si própria.

Seu único amigo é K. (o narrador), um professor alguns anos mais velho, que nutre uma paixão platônica por Sumire.

K nos conta a trajetória da garota e sua busca pelo texto perfeito. O próprio narrador reconhece que a alta produção de Sumire carece de qualidade, provavelmente pela imaturidade da autora, mas procura encorajá-la a insistir na sua escrita.

A paixão literária da protagonista sofre um abalo, quando Sumire conhece e se apaixona por Miu, uma mulher interessantíssima, conhecedora de vinhos e 17 anos mais velha. Em suas confidências ao amigo-narrador, Sumire descreve seu sentimento por Miu como um cataclismo que altera toda a sua hierarquia de prioridades. De repente, a escritora convicta, abre mão do isolamento e passa a gastar o seu tempo em torno de Miu.

É Miu que lhe dá o apelido de “Minha Pequena Sputinik”, numa referência aos beatniks, de quem Sumire é fã.

Sputnik, em russo, significa “companheiro de viagem”. E é durante uma viagem de férias que Sumire faz com Miu que a história do autor japonês “Haruki Murakami” ganha força. A jovem garota desaparece em uma ilha grega sem deixar pistas.

K. é chamado por Miu e, sem hesitação, embarca num voo até a Grécia. Quando chega a ilha os dois envolvem-se na busca pela garota que não pode ser encontrada em lugar nenhum.

K. tem a ideia de procurar os escritos de Sumire e ao ler os relatos de viagem encontra pistas para o seu desaparecimento.

Haruki Murakami é atualmente o autor japonês mais apreciado no oriente. Minha Querida Sputinik é um livro que mistura realismo puro, a moda dos próprios beatniks, com situações fantásticas com um resultado agradável de se ler.

Noite-Égua

Posted in Autores Gaúchos, Literatura Fantástica, Novos Autores, Resenha with tags , , , on outubro 1, 2015 by Leonardo Colucci

Um dos bons lançamentos deste ano na literatura riograndense é Noite-Égua, o primeiro romance do autor, Nelson Rego. Noite-Égua narra a história de um fantasma que habita um velho edifício do bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, e interfere na vida da família que vive o prédio há várias gerações.

Nelson que já se mostrara um excelente autor de contos – seu livro “Daimon junto à porta” conquistou o premio Açorianos na categoria em 2011 -, mostra que tem fôlego pra mais.

O estilo narrativo se mantém. Relações amorosas com uma dose de erotismo, a ambientação descritiva e a narrativa inteligente fazem de “Noite-Égua” uma agradável leitura.

Duas passagens se destacam com mais força no romance: a reprodução da carta que teria sido escrita por uma antiga enfermeira sob a influência do mau espírito e o diálogo quase esquizofrênico do protagonista com o fantasma que ele julga estar a observá-lo no escuro.

Embora o enredo tenha componentes fantásticos, Nelson não se detém em reviravoltas e surpresas, está preocupado com a linguagem e em manter a tensão elevada ao longo de toda a história. E consegue.nelsonrego_capa_noite_egua_dupla

Mais humano que os humanos

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on maio 25, 2014 by Leonardo Colucci

Tivessem trabalhado em conjunto ou realizado um acerto de copyright, Nietzsche poderia ter emprestado o título “Humano, demasiado humano”, para Mary Shelley batizar a sua novela escrita na mansão de Lord Byron.

A situação proposta acima é impossível de ser cogitada, pois o filósofo alemão e a escritora inglesa, nem sequer viveram na mesma época, mas este título cairia muito bem para a obra prima da jovem autora.

……….

Uma criatura concebida em laboratório e dotada de um coração puro e bondoso, se revela – através de suas reflexões ante a observação do mundo (na tentativa de compreendê-lo) e seu próprio sentimento – muito mais humanizada que seu criador, o cientista Victor Frankenstein.

O jovem químico de Genebra dotado de virtudes e uma capacidade intelectual diferenciada, dedica-se à ciência em busca de um grande feito. E como é próprio dos obstinados, torna-se relapso em relação à sua família e amigos. O que causa aflição em sua prima, que percebe o esmorecer do amor que Victor sempre lhe devotou ao ver tornarem-se escassas e vagas as cartas que recebe da Inglaterra.

E é nesse ponto que a clássica história de horror, revela o contraste – irônico – entre o monstro e o respeitável cientista.

Enquanto a criatura hedionda, rejeitada pela sociedade, busca encontrar uma maneira de ser aceita, Victor revela traços sutis (não perceptíveis a uma leitura desatenta) de egoísmo e narcisismo.

Se o pobre Victor, consome-se em uma culpa silenciosa e digna de pena, por ter dado vida à tão nefasta criatura, é com o monstro, no entanto, que se passa o conflito mais interessante. E esse é o segredo (presente na “história cifrada”), para o sucesso da obra de Shelley.

A desengonçada aberração – cuja ingenuidade é capaz de comover leitores há quase dois séculos -, descobre-se com uma capacidade infinita de amar, mas incapaz de ser amado. Pior, desperta ódio naqueles que eram para ser seus semelhantes apenas pela sua grotesca aparência. Difícil de compreender e doloroso de conviver.

Essa metáfora se materializa constantemente na sociedade e é matéria preferencial nos tele-jornais. A violência e o ódio dos seres humanos a quem chamamos de monstros, no mais das vezes têm a mesma raiz: a incompreensão e a falta de amor.

Quem leu Frankenstein de Mary Shelley por obrigação ou com desleixo, tente outra vez. Vai valer à pena.

George Orwell e o julgamento do mensalão

Posted in literatura, Literatura Fantástica with tags , , , , on outubro 5, 2013 by Leonardo Colucci

[…]

“Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

[…]

– Parágrafo final de A Revolução dos Bichos, alegoria de George Oerwell sobre a conveniência das ideologias e a sua fragilidade diante da ambição pelo poder.