Archive for the literatura Category

Sobre escrever X

Posted in literatura, Sobre Escrever with tags on março 29, 2017 by Leonardo Colucci

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“Eu não escrevo com uma programação. Deixo que os cavalos mentais me arrastem. Me deixo levar e, só depois, me torno um obsessivo pela limpeza do texto.”

 

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– João Gilberto Noll, autor porto-alegrense que nos deixou no dia de hoje.

 

O Céu de Lima e de Bárcena

Posted in literatura, Resenha, Sobre Escrever, Sobre Livros with tags , , on março 20, 2017 by Leonardo Colucci

O Céu de Lima é um romance surpreendente.

Ceu de LimaA surpresa se dá por conta da juventude do autor; Juan Gómez Bárcena  e da pouca tradição da literatura espanhola contemporânea no Brasil que não revelou ao grande público nenhuma obra relevante desde Cervantes. Então, há que se procurar nas resenhas e estantes de livrarias, algo que possa despertar o interesse e mais do que isso, nos dar vontade de ler.

O Céu de Lima é um romance dentro de um romance.

Bem planejado e com uma qualidade de texto comparável aos melhores autores, o romance de Bárcena é uma leitura ficcional sobre um fato verídico na biografia do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez que no início do século XX foi ludibriado por jovens limenhos que criaram uma personagem fictícia para se corresponder com o mestre do outro lado do Atlântico. Os rapazes, amantes da literatura, construíram Georgina com tanta verossimilhança que acabaram por arrebatar o coração do mestre.

Os jovens poetas encaram a criação das missivas com o rigor da literatura e da poesia. Escrevem com o prazer de estar construindo uma personagem interessante e discutem cada fala de Georgina até encontrarem o tom que lhes agrade e não desperte suspeitas no destinatário.

Entremeado ao romance, o autor insere reflexões sobre o ato de escrever e oferece um olhar irônico sobre as técnicas da escrita criativa.

O Céu de Lima é um romance completo.

A adequação da linguagem e a riqueza histórica sobre a Lima do início do século passado dão a medida do que os grandes autores buscam. Aqui renovamos a convicção de que aqueles que dizem que escrevem somente com a inspiração ou são maus escritores ou estão mentindo, romantizando o ofício.

Uma das coisas que mais qualifica, contudo, as obras literárias são as personagens. E esse é o ponto primoroso do livro. Bárcena não se preocupou em construir o poeta como uma pessoa digna de pena, nem tampouco, absolver os jovens limenhos que tinham na inexperiência da juventude o seu álibi para a crueldade que acabaram por fazer.

A introdução dos personagens secundários também funciona muito bem e dão um conteúdo ficcional na medida certa que os grandes romances demandam.

Procure passar umas horas sob o céu de Lima. Será um experiência recompensadora.

Jogadores

Posted in Clássicos, literatura with tags , , , , on julho 20, 2016 by Leonardo Colucci

“Não importa se ganho ou se perco, eu quero é apostar”

Charles Bukowski

“Oh, como me batia o coração! Não, não é que o dinheiro me fosse caro! O que eu queria, então, era apenas que, no dia seguinte, todos aqueles, todas aquelas magníficas senhoras, falassem de mim, contassem a minha história,  ficassem surpresos comigo, me elogiassem e reverenciassem o meu novo ganho”

— Fiódor Dostoiévski

Aí está um tema fascinante para a literatura. Especialmente para aqueles que  admiram personagens psicologicamente bem construídos. Humanamente vulneráveis.

As narrativas mais primorosas que têm a compulsão pelo jogo como traço marcante em seus protagonistas, nos revelam pessoas angustiadas, fora de controle, mas conscientes de sua fraqueza. Tentam justificar-se aos leitores fingindo ter domínio sobre seus impulsos e, de forma inútil, dissimulam a sua incapacidade de sucumbir ao vício.

Autores hábeis, reproduziram a atmosfera que envolve os cassinos e as casas de jogos, mas, principalmente, criaram anti-heróis que comovem por sua incapacidade de contrariar a próprio destino, mesmo que ele represente a falência e ruína moral.

 

A revelação do russo

Posted in Clássicos, contos, literatura, Resenha, Sobre Livros with tags , , on março 10, 2016 by Leonardo Colucci

O mestre do conto, Anton Tchekhov, citado por nove entre dez escritores como um dos mais habilidosos autores de histórias curtas, também produziu belas peças de maior fôlego. Uma delas, publicada em edição caprichada pela editora 34, chegou às livrarias no ano passado. Trata-se de “O Duelo”.

Nesta novela, Tchekhov nos apresenta o jovem Ivan Laiévski, um autêntico ícone do que Turguêniev chamou de “homem supérfluo”. Assim foi qualificado o intelectual que vem da classe média e não encontra espaço entre as elites detentoras do saber. Este grupo de indivíduos, surge para criticar e questionar padrões de uma sociedade conservadora que deseja manter a distância entre as camadas sociais.

Laiévski é, na verdade, um espírito livre. Porém, seus procedimentos perturbam os notáveis pensadores da época. Vive com uma mulher casada, desdenha dos títulos e demonstra pouca ambição. Ele próprio admite, a certa altura, que desperdiça seu tempo em atividades ignóbeis e inúteis.

Sufocado pelo marasmo e buscando libertar-se da passividade, decide abandonar o Cáucaso e retornar para o frio de Petersburgo.

Porém, antes da partida Laiévski tem uma (inexplicável) crise de choro que denota instabilidade emocional incompatível com os homens de bem. Sentindo-se humilhado, reage de forma agressiva de maneira a apagar rapidamente seu deslize tentando em vão, encontrar um adjetivo adequado para o ocorrido.

Neste episódio, vem à tona o verdadeiro duelo da trama: o embate íntimo que o protagonista trava consigo mesmo na relutância em se aceitar frágil.

 

Além de Jesusalem

Posted in literatura, Resenha, Sobre Livros with tags , on novembro 25, 2015 by Leonardo Colucci

Mwanito é o sensível narrador de “Antes de Nascer o Mundo” que conta a história de Jesusalem, um pedaço de terra onde habitam as últimas pessoas vivas sobre a face da terra.

Pouco se lembra da época em que vivia “no lado de lá”, e a recordação da Mãe é uma imagem difusa, sem rosto, idealizada muito mais pelo seu coração de menino do que que pelas vagas referências passadas pelo pai e pelo irmão mais velho.

Ao longo da brilhante e emocionante narrativa de Mia Couto, vamos descobrindo a verdade sobre Jesusalem.
O lugar escolhido por Silvestre Vitalício para viver com seus filhos, conta apenas com 4 humanos e uma jumenta em sua população. Mas isso não impede que haja uma organização de estado, onde o próprio Silvestre é o presidente e líder maior e o outro adulto, Zacarias Kalash, o chefe das forças armadas e ministro da caça.

A praça em frente à sede do governo é o local onde as cerimônias e pronunciamentos são feitos.
Nem a curiosidade interrogatória de Mwanito, então com 11 anos e vivendo há 7 em Jesusalém, é capaz de alterar a monotonia do lugar.

Até o dia em que uma mulher muda-se para a propriedade ao lado e o mundo fantástico que existe além das fronteiras de Jesusalém começa a se descortinar.

As descobertas que se sucedem revelam ao pequeno Mwanito um mundo imenso, vivo e cheio de emoções.

Antes de nascer o mundo é sobretudo um relato da esperança simbolizada pelos sonhos e fantasias do pequeno narrador que, mesmo vivendo em um ambiente desolador, acredita que um mundo melhor é possível.

As coisas boas da feira

Posted in literatura with tags , , on novembro 6, 2015 by Leonardo Colucci

Todo ano é a mesma coisa: pipocam listas de livros indicados por escritores conhecidos a serem adquiridos na feira. Pode ser interessante tomá-las como referência, principalmente se vier de um autor que admiramos, mas nem sempre a coisa funciona. Segui-las cegamente pode causar decepção.

Eu prefiro garimpar. Há tempos desisti de fazer lista de compras e há mais tempo deixei de utilizar listas alheias. Prefiro me inspirar diante das barracas e dos baús de ofertas.

Uma das melhores coisas da feira é ser surpreendido por um livro interessante de um autor que eu queria ler há um tempão, mas que nunca lembrei de incluir em lista nenhuma de compra. Voltar pra casa com esses achados na sacola é uma delícia.

Porém, é nos eventos paralelos que estão as melhores partes. A programação deste ano (ver no link abaixo) está interessante. Tá certo que pra quem já teve em anos recentes, Mia Couto, Eduardo Galeano e Ariano Suassuna, as atrações neste ano estão um pouco mais modestas. Mas os debates em torno da literatura sempre são enriquecedores.

Quem andou pela praça da alfândega ontem teve a oportunidade de assistir o autor português Almeida Faria falando sobre sua obra, sobre literatura portuguesa e brasileira e, sempre a melhor parte, sobre suas motivações e o jeito de ver a literatura. Talvez esse tenha sido um dos pontos altos da feira, mas ainda há coisas interessantes por acontecer.

http://www.feiradolivro-poa.com.br/

Suspensão da descrença

Posted in literatura, Teoria Literária with tags , , , , on novembro 1, 2014 by Leonardo Colucci

Quando se estuda a ficção um dos primeiros temas que precisam ser compreendidos é a suspensão da descrença.

Ou seja, a narrativa de ficção só convence se o autor for capaz de trazer o leitor para dentro da história de tal forma que este considere irrelevante refletir se as situações e os personagens que fazem parte da trama que está sendo contada são reais ou não.

O sucesso deste intento depende também da disposição do leitor em aceitar tal pacto. A boa vontade do leitor em dar crédito ao narrador, no entanto, pode acabar subitamente se o elemento essencial desta equação estiver presente: a verossimilhança interna.

O tema “verossimilhança” já foi abordado em outros posts, hoje vamos nos ater ao tal pacto para suspensão da descrença.

O leitor precisa estar disposto a aceitar que porcos falem – como em “A Revolução dos Bichos” – ou que se possa viver em Marte – como em “As Crônicas Marcianas” -, mas ele só o fará se o autor for hábil e se nada perturbar o universo em que o leitor se inseriu à convite do livro que tem nas mãos.

Quanto à habilidade do autor não há discussão, é condição primária. Quanto à perturbação do universo ficcional, porém, há controvérsias. Vários são os autores que se intrometem na narrativa para lembrar o leitor que aquela história que se conta não passa de ficção. Machado de Assis, talvez seja o mais óbvio de ser citado. Ele se dirige ao leitor o tempo inteiro inclusive sugerindo que pule um capítulo ou que interrompa a leitura para pensar. Mas há outro que fez isso mais modernamente e de maneira magistral: José Saramago. Em “O Homem Duplicado”, por exemplo, ele fala sobre a influência externa que o autor exerce sobre o personagem e o rumo da história como no trecho reproduzido abaixo.

“Há alturas da narração, e esta, como já se vai ver, foi justamente uma delas, em que qualquer manifestação paralela de ideias e de sentimentos por parte do narrador à margem do que estiverem a pensar os personagens deveria ser expressamente proibido pelas leis do bem escrever” … Edição da Companhia das Letras pág. 34.

Além de uma opção técnica essa exposição do autor carrega um pouco de vaidade. Pois a intervenção faz lembrar que existe um trabalho narrativo e o foco se desloca para a capacidade técnica do escritor em explicar o domínio que tem sobre a arte de escrever.

Ainda assim, é uma opção arriscada, pois apenas quem tem domínio da técnica e o controle do texto saberá fazer estas inserções sem prejuízos à narrativa e sem ofender a verossimilhança interna.