Assim nascem os blues – Cena XII: Nascido sob um mau signo

A vida é mais difícil para um guitarrista canhoto. Tocar se torna uma atividade fisicamente desafiadora, pois os instrumentos são desenhados para destros.

Mas essa era apenas uma das dificuldades que ele enfrentaria. A cigana já prevenira a sua mãe. “Este garoto terá muitas mulheres, mas nunca encontrará o amor, terá riqueza, mas nunca a felicidade”. Todo o luxo e fama se esvairão rápido e ele terminará esquecido, abandonado à dor e à má sorte.

Assim nascem os blues – Cena XI: Possuído pelo blues

De repente apenas as mulheres continuavam frequentando os cultos religiosos. O público masculino fora cooptado pelas juke joints, festa que além de profana enriquecia seus promotores. E isso desagradava profundamente os pastores.

Numa manobra ardilosa, os pastores convenceram as fiéis que o blues era música do diabo, pois afastava os homens da igreja. Essa iminente maldição, foi suficiente para que as mulheres tentassem trazer seus maridos de volta aos cultos, mas eles já haviam sido capturados pelo blues.

Assim nascem os blues – Cena X: Ela sabia cantar

Era um grupo de crianças entre 3 e 11 anos. Cuidavam umas das outras enquanto os adultos trabalhavam por 12 ou 14 horas nas lavouras. Apenas os bebês eram acompanhados pelos velhos que não tinham valor para o trabalho.

A menina tomava conta da casa, cozinhava para os irmãos e ainda achava tempo para sonhar. Adorava cantar na igreja. Tinha o respeito dos mais velhos e a admiração de seus amigos.

Porém o pai, que não parava em emprego nenhum e ainda desaparecia por meses, a proibiu de cantar. “Vá arrumar um casamento ou um serviço em uma casa de família”, ordenou. “Se não conseguir ganhar dinheiro, pelo menos que pare de dar despesa”.

Assim, mais uma bela voz silenciou.

Sobre escrever XIV

[…]

“Há centenas de grandes obras a germinar nos cérebros de centenas de grandes homens, mas a trágica verdade é que nenhuma dessas grandes obras será jamais escrita.”

“Uma das coisas que caracterizam a grandeza de um escritor é o fato de diferentes espíritos encontrarem nele diferentes inspirações”

[…]

– Somerset Maugham em “Servidão Humana”

Antecedentes

AntecedentesNa composição de uma obra de ficção o autor escolhe aquilo que vai contar ao leitor de forma direta ou indireta através da utilização do recurso narrativo que seja mais adequado à sua proposição para a obra.

Mas, além disso, há a parte da história que fica de fora. Que não é, ou não precisa ser, mostrada ao leitor.

É uma importante escolha que o autor deve fazer. Qual será o recorte que será explorado para gerar o efeito desejado pelo autor.

A menos que estejamos falando de um romance de formação, que necessariamente relata a trajetória completa do herói ou personagem, as demais obras concentram sua força em um espaço reduzido de tempo – vide Ulysses de Joyce, por exemplo – que é capaz de compor toda a síntese grandiosa ou ordinária que comunicará a intenção do autor.

No entanto, mesmo que a obra final omita do leitor partes menos necessárias para a compreensão da mensagem, o autor deve conhecer a história completa.

A isso chamamos de antecedentes.

Os antecedentes são todos os acontecimentos que influenciaram a formação do personagem e que ajudam a dar uma firmeza de caráter que será chave para manutenção da coerência e verossimilhança. Muitas vezes estes antecedentes estão em gerações anteriores ou no contexto histórico temporal da narrativa. A geografia também é formadora da construção do personagem e do universo ficcional. Estes detalhes não precisam estar explícitos no texto final – até pra não tornar a leitura maçante –, mas é indispensável que esteja presente na mente do autor durante a criação.

Uma boa recomendação é escrever os antecedentes para que sirvam de base para as decisões e revisões do texto. Além de garantir coerência (coesão), o que não for aproveitado na obra pode servir de material para outros textos.

Este insight me surgiu a partir da leitura de “Carta ao Pai”, de Kafka. Este tipo de material pode ser utilizado para compreender a obra de Kafka a partir de uma carta íntima – não se sabe se ela foi redigida com o objetivo único de transmitir uma mensagem ao pai, ou se tinha intenções literárias – que revela detalhes da psicologia e do caráter do autor que ampliam o entendimento de suas obras.

No caso de Kafka, a biografia do autor para compreender a sua obra. Mas no caso de uma obra de ficção, a biografia do protagonista para fortalecer o seu caráter, nortear suas atitudes e emitir a sua voz.

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Quem acompanha os posts que publico neste blog, agora pode ter acesso a uma seleção deles organizados em forma de ebook.

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Capa Livro (Galaxie) - Final
Para que resultasse em uma peça agradável de leitura, os textos foram divididos em 2 temáticas: “Sobre Escrever”, com reflexões acerca da criação literária e “Sobre Escritos”, com resenhas sempre curtas de bons livros da literatura universal.

Seção I – Sobre Escrever
Na busca pela produção de bons textos literários, alguns elementos merecem mais atenção. Os textos apresentados à seguir, exploram um pouco esse universo da escrita criativa, hora ecoando textos ou ensaios de autores consagrados, hora simplesmente divagando sobre alguma questão teórica.
Como estes textos foram originalmente publicados no blog em forma de postagens, não são estudos profundos de qualquer um dos temas, uma vez que se propõem apenas a gerar insights para discussões posteriores que possam, essas sim, resultar em teorias mais complexas.

Seção II – Sobre Escritos
Muitas são as obras referenciais em se tratando de literatura e infinitas as possibilidades de recorte temático, histórico, estilístico, cronológico ou regional, apenas para citar alguns.
Os livros comentados aqui não representa nenhum critério como os mencionados acima, apenas têm como fio condutor entre eles o estranhamento que causaram neste leitor. Ou seja, todos eles provocaram uma pequena transformação que é o que se espera da boa literatura.
São resenhas curtas que exaltam, por vezes, apenas um aspecto da obra de interesse literário, psicológico, histórico ou, porque não, existencial.

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O Romancista romântico

Haruki Murakami, autor de 1Q84, Norwegian Wood, Minha Querida Sputnik, entre outros títulos, narra toda a sua trajetória literária em “Romancista como vocação”.

Nesta breve autobiografia – que aborda apenas a sua carreira de escritor – o autor japonês fala sobre seu processo criativo e sua rotina de trabalho.

O relato de Murakami, apresenta um autor disciplinado, consciente do seu papel como escritor japonês e a responsabilidade que tem em relação aos seus leitores. Porém, ele nos mostra um perfil muito parecido com o estereótipo romantizado que temos dos artistas: Murakami trabalha sem roteiro, sem planejamento e confia na sua intuição e técnica narrativa para construir suas histórias a partir das memórias que guarda em “compartimentos no cérebro”.

Enquanto muitos autores procuram desmistificar a ideia de que para produzir boa literatura, tem que ter um plano, um roteiro bem construido, Murakami nos diz ser adepto do improviso. A única premissa fundamental para o autor de “Pinball, 1973” é ser livre. Livre para criar, para escrever sobre o que quiser e na hora que quiser.

“Um escritor deve ser uma pessoa livre antes de ser um artista. Fazer o que gosta, quando gosta, do jeito que gosta; essa é a definição de pessoa livre para mim. Prefiro ser uma pessoa comum e livre  a me tornar um artista e me preocupar com a opinião dos outros, sujeitando-me a formalidades inconvenientes”.

Murakami acredita que aprende com os personagens e que eles o ajudam a construir as histórias que conta. E isso, convenhamos, é levar a cabo a ideia de liberdade durante a criação literária.

Segundo esta ótica, é a qualidade narrativa que torna a obra literária boa ou má. Pois a partir de fragmentos coletados nas observações da vida cotidiana, pode-se construir uma teia de acontecimentos que, se bem tratados e conectados, resultarão em uma obra agradável e coerente.

É um contraponto interessante a se considerar para quem está buscando encontrar o seu método de produção literária. Não há uma receita. Cada um deve encontrar a sua.

Para finalizar, uma regra de Murakami, que essa sim, deve servir pra todos nós:

“Eu me senti feliz escrevendo e, nessa hora, senti que estava livre”

Murakami

 

Sobre escrever XII

[…]

“Em determinado momento, compreendi que um livro sobre a solidão precisa ser, em certo sentido, uma obra coletiva. Por isso, cito tão livremente outros autores: porque fazem parte das conversas internas (…) Falo com eles e eles falam comigo. É um diálogo com outros escritores. Todos são autores que significam muito para mim.”.

[…]

– Paul Auster, ficcionista norte-americano

Esta declaração foi pinçada de uma entrevista do autor às vésperas de sua chegada ao Brasil para as conferências no fórum Fronteiras do Pensamento e está publicada em https://www.fronteiras.com/artigos/sete-conselhos-de-paul-auster-para-que-voce-se-torne-um-escritor

Discussão sobre ficção e não ficção

 

Contar histórias reais pode ser um relato de importante valor histórico. Escrever sobre personagens notáveis de carne e osso pode provocar alguma transformação no escriba e até ser inspirador ao leitor, mas a liberdade que o universo ficcional oferece permite mergulhar mais profundamente em questões importantes da existência.

Sem filtros, as grandes obras literárias nos revelam o homem na sua mais pura essência e sem compromissos históricos que limitem seus atos ou maquiem suas personalidades. Não são heróis, tampouco perfeitos. Apenas são um reflexo íntimo e cru dos aspectos mais fundamentais do ser humano.

Certo dia em um debate informal sobre gênero, um dos interlocutores indagou àquele que defendia a literatura aos livros de história (como as biografias e os relatos sobre as guerras mundiais).

“Como vocês podem gostar de ler uma história inventada, que não aconteceu?”, indagou de forma que julgou arrebatadora e definitiva de sua argumentação.

“Os personagens são fictícios, mas as histórias são reais. Pois tratam da natureza humana e se não aconteceram, foi por mero capricho dos fatos”, respondeu inapelável seu debatedor.

Aí está, uma bela definição da ficção.