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Discussão sobre ficção e não ficção

Posted in literatura, Sobre Escrever, Sobre Livros, Teoria Literária with tags , on junho 3, 2017 by Leonardo Colucci

 

Contar histórias reais pode ser um relato de importante valor histórico. Escrever sobre personagens notáveis de carne e osso pode provocar alguma transformação no escriba e até ser inspirador ao leitor, mas a liberdade que o universo ficcional oferece permite mergulhar mais profundamente em questões importantes da existência.

Sem filtros, as grandes obras literárias nos revelam o homem na sua mais pura essência e sem compromissos históricos que limitem seus atos ou maquiem suas personalidades. Não são heróis, tampouco perfeitos. Apenas são um reflexo íntimo e cru dos aspectos mais fundamentais do ser humano.

Certo dia em um debate informal sobre gênero, um dos interlocutores indagou àquele que defendia a literatura aos livros de história (como as biografias e os relatos sobre as guerras mundiais).

“Como vocês podem gostar de ler uma história inventada, que não aconteceu?”, indagou de forma que julgou arrebatadora e definitiva de sua argumentação.

“Os personagens são fictícios, mas as histórias são reais. Pois tratam da natureza humana e se não aconteceram, foi por mero capricho dos fatos”, respondeu inapelável seu debatedor.

Aí está, uma bela definição da ficção.

 

Sobre escrever XI

Posted in contos, Sobre Escrever, Teoria Literária with tags , on maio 20, 2017 by Leonardo Colucci

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“O conto é algo assim como uma gota d’água vista com uma lupa e portanto nela está o universo inteiro”.

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– Hector Mureña, contista argentino

Sobre escrever X

Posted in literatura, Sobre Escrever with tags on março 29, 2017 by Leonardo Colucci

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“Eu não escrevo com uma programação. Deixo que os cavalos mentais me arrastem. Me deixo levar e, só depois, me torno um obsessivo pela limpeza do texto.”

 

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– João Gilberto Noll, autor porto-alegrense que nos deixou no dia de hoje.

 

O Céu de Lima e de Bárcena

Posted in literatura, Resenha, Sobre Escrever, Sobre Livros with tags , , on março 20, 2017 by Leonardo Colucci

O Céu de Lima é um romance surpreendente.

Ceu de LimaA surpresa se dá por conta da juventude do autor; Juan Gómez Bárcena  e da pouca tradição da literatura espanhola contemporânea no Brasil que não revelou ao grande público nenhuma obra relevante desde Cervantes. Então, há que se procurar nas resenhas e estantes de livrarias, algo que possa despertar o interesse e mais do que isso, nos dar vontade de ler.

O Céu de Lima é um romance dentro de um romance.

Bem planejado e com uma qualidade de texto comparável aos melhores autores, o romance de Bárcena é uma leitura ficcional sobre um fato verídico na biografia do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez que no início do século XX foi ludibriado por jovens limenhos que criaram uma personagem fictícia para se corresponder com o mestre do outro lado do Atlântico. Os rapazes, amantes da literatura, construíram Georgina com tanta verossimilhança que acabaram por arrebatar o coração do mestre.

Os jovens poetas encaram a criação das missivas com o rigor da literatura e da poesia. Escrevem com o prazer de estar construindo uma personagem interessante e discutem cada fala de Georgina até encontrarem o tom que lhes agrade e não desperte suspeitas no destinatário.

Entremeado ao romance, o autor insere reflexões sobre o ato de escrever e oferece um olhar irônico sobre as técnicas da escrita criativa.

O Céu de Lima é um romance completo.

A adequação da linguagem e a riqueza histórica sobre a Lima do início do século passado dão a medida do que os grandes autores buscam. Aqui renovamos a convicção de que aqueles que dizem que escrevem somente com a inspiração ou são maus escritores ou estão mentindo, romantizando o ofício.

Uma das coisas que mais qualifica, contudo, as obras literárias são as personagens. E esse é o ponto primoroso do livro. Bárcena não se preocupou em construir o poeta como uma pessoa digna de pena, nem tampouco, absolver os jovens limenhos que tinham na inexperiência da juventude o seu álibi para a crueldade que acabaram por fazer.

A introdução dos personagens secundários também funciona muito bem e dão um conteúdo ficcional na medida certa que os grandes romances demandam.

Procure passar umas horas sob o céu de Lima. Será um experiência recompensadora.

Sobre escrever IX

Posted in Gotas de Literatura, Sobre Escrever with tags , , on novembro 17, 2016 by Leonardo Colucci

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“Os livros são feitos daquilo que nos falta”

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– Juan Carlos Onetti

O meu e o teu narrador

Posted in Sobre Escrever, Teoria Literária with tags , , on outubro 12, 2015 by Leonardo Colucci

Se é verdade que todo o autor – ou a maioria deles – busca uma identidade ou uma marca que permita que os leitores e, sobretudo, os críticos sejam capazes de reconhecer a unidade de sua obra através de características que o diferenciem dos demais. Há vários caminhos para este intento: a linguagem, a estética, a geografia, a poética, suas referências ou, até mesmo, o narrador.

Este último é um tema recorrente em qualquer entrevista ou mesa redonda em encontros literários: o teu narrador é sempre muito angustiado, ou o teu narrador é um excelente observador…
Mas será que é realmente bom ter um “estilo”? Não seria isso uma limitação criativa de repetir fórmulas que deram certo?

Difícil chegar a um consenso – mesmo que consigo mesmo. Já vimos muitas experiências desastrosas nas tentativas de criar este tal traço pessoal. Repetir fórmulas, pode significar limitação ou preguiça. Os maiores autores experimentaram muito antes de encontrarem a sua voz e alguns são especiais, justamente por não ter características demasiado acentuadas a ponto de se tornarem a sua marca.

Tampouco significa selo pessoal de qualidade utilizar cada vez um narrador diferente. Fazer da versatilidade uma obstinação, igualmente poderá conduzir a uma armadilha. Autores que se propõem a surpreender a cada obra, como prova de um talento superior, poderão esgotar o repertório de originalidade e terão dificuldade de manter a sua escrita com o mesmo nível de qualidade. Um narrador mal escolhido, pode matar uma boa história.

Essa discussão confirma a tese de que para se produzir a boa literatura – não a que mais vende – não existe fórmula. Talvez a melhor marca que um autor pode deixar é ser honesto em seu trabalho. Imprimir a sua identidade de humano que vive, sente, ama, odeia, chora e ri. Que é incoerente e instável e que transfere todas essas emoções para texto que nos oferece através do narrador que ele, com sua técnica, julgar o mais adequado para contar a história.