Archive for the Teoria Literária Category

Discussão sobre ficção e não ficção

Posted in literatura, Sobre Escrever, Sobre Livros, Teoria Literária with tags , on junho 3, 2017 by Leonardo Colucci

 

Contar histórias reais pode ser um relato de importante valor histórico. Escrever sobre personagens notáveis de carne e osso pode provocar alguma transformação no escriba e até ser inspirador ao leitor, mas a liberdade que o universo ficcional oferece permite mergulhar mais profundamente em questões importantes da existência.

Sem filtros, as grandes obras literárias nos revelam o homem na sua mais pura essência e sem compromissos históricos que limitem seus atos ou maquiem suas personalidades. Não são heróis, tampouco perfeitos. Apenas são um reflexo íntimo e cru dos aspectos mais fundamentais do ser humano.

Certo dia em um debate informal sobre gênero, um dos interlocutores indagou àquele que defendia a literatura aos livros de história (como as biografias e os relatos sobre as guerras mundiais).

“Como vocês podem gostar de ler uma história inventada, que não aconteceu?”, indagou de forma que julgou arrebatadora e definitiva de sua argumentação.

“Os personagens são fictícios, mas as histórias são reais. Pois tratam da natureza humana e se não aconteceram, foi por mero capricho dos fatos”, respondeu inapelável seu debatedor.

Aí está, uma bela definição da ficção.

 

Sobre escrever XI

Posted in contos, Sobre Escrever, Teoria Literária with tags , on maio 20, 2017 by Leonardo Colucci

[…]

“O conto é algo assim como uma gota d’água vista com uma lupa e portanto nela está o universo inteiro”.

[…]

– Hector Mureña, contista argentino

O meu e o teu narrador

Posted in Sobre Escrever, Teoria Literária with tags , , on outubro 12, 2015 by Leonardo Colucci

Se é verdade que todo o autor – ou a maioria deles – busca uma identidade ou uma marca que permita que os leitores e, sobretudo, os críticos sejam capazes de reconhecer a unidade de sua obra através de características que o diferenciem dos demais. Há vários caminhos para este intento: a linguagem, a estética, a geografia, a poética, suas referências ou, até mesmo, o narrador.

Este último é um tema recorrente em qualquer entrevista ou mesa redonda em encontros literários: o teu narrador é sempre muito angustiado, ou o teu narrador é um excelente observador…
Mas será que é realmente bom ter um “estilo”? Não seria isso uma limitação criativa de repetir fórmulas que deram certo?

Difícil chegar a um consenso – mesmo que consigo mesmo. Já vimos muitas experiências desastrosas nas tentativas de criar este tal traço pessoal. Repetir fórmulas, pode significar limitação ou preguiça. Os maiores autores experimentaram muito antes de encontrarem a sua voz e alguns são especiais, justamente por não ter características demasiado acentuadas a ponto de se tornarem a sua marca.

Tampouco significa selo pessoal de qualidade utilizar cada vez um narrador diferente. Fazer da versatilidade uma obstinação, igualmente poderá conduzir a uma armadilha. Autores que se propõem a surpreender a cada obra, como prova de um talento superior, poderão esgotar o repertório de originalidade e terão dificuldade de manter a sua escrita com o mesmo nível de qualidade. Um narrador mal escolhido, pode matar uma boa história.

Essa discussão confirma a tese de que para se produzir a boa literatura – não a que mais vende – não existe fórmula. Talvez a melhor marca que um autor pode deixar é ser honesto em seu trabalho. Imprimir a sua identidade de humano que vive, sente, ama, odeia, chora e ri. Que é incoerente e instável e que transfere todas essas emoções para texto que nos oferece através do narrador que ele, com sua técnica, julgar o mais adequado para contar a história.

Suspensão da descrença

Posted in literatura, Teoria Literária with tags , , , , on novembro 1, 2014 by Leonardo Colucci

Quando se estuda a ficção um dos primeiros temas que precisam ser compreendidos é a suspensão da descrença.

Ou seja, a narrativa de ficção só convence se o autor for capaz de trazer o leitor para dentro da história de tal forma que este considere irrelevante refletir se as situações e os personagens que fazem parte da trama que está sendo contada são reais ou não.

O sucesso deste intento depende também da disposição do leitor em aceitar tal pacto. A boa vontade do leitor em dar crédito ao narrador, no entanto, pode acabar subitamente se o elemento essencial desta equação estiver presente: a verossimilhança interna.

O tema “verossimilhança” já foi abordado em outros posts, hoje vamos nos ater ao tal pacto para suspensão da descrença.

O leitor precisa estar disposto a aceitar que porcos falem – como em “A Revolução dos Bichos” – ou que se possa viver em Marte – como em “As Crônicas Marcianas” -, mas ele só o fará se o autor for hábil e se nada perturbar o universo em que o leitor se inseriu à convite do livro que tem nas mãos.

Quanto à habilidade do autor não há discussão, é condição primária. Quanto à perturbação do universo ficcional, porém, há controvérsias. Vários são os autores que se intrometem na narrativa para lembrar o leitor que aquela história que se conta não passa de ficção. Machado de Assis, talvez seja o mais óbvio de ser citado. Ele se dirige ao leitor o tempo inteiro inclusive sugerindo que pule um capítulo ou que interrompa a leitura para pensar. Mas há outro que fez isso mais modernamente e de maneira magistral: José Saramago. Em “O Homem Duplicado”, por exemplo, ele fala sobre a influência externa que o autor exerce sobre o personagem e o rumo da história como no trecho reproduzido abaixo.

“Há alturas da narração, e esta, como já se vai ver, foi justamente uma delas, em que qualquer manifestação paralela de ideias e de sentimentos por parte do narrador à margem do que estiverem a pensar os personagens deveria ser expressamente proibido pelas leis do bem escrever” … Edição da Companhia das Letras pág. 34.

Além de uma opção técnica essa exposição do autor carrega um pouco de vaidade. Pois a intervenção faz lembrar que existe um trabalho narrativo e o foco se desloca para a capacidade técnica do escritor em explicar o domínio que tem sobre a arte de escrever.

Ainda assim, é uma opção arriscada, pois apenas quem tem domínio da técnica e o controle do texto saberá fazer estas inserções sem prejuízos à narrativa e sem ofender a verossimilhança interna.