Assim nascem os blues – Cena IX: Selvageria na raiz do blues

O pobre homem estava prestes a ser espancado por um grupo de valentões que implicaram com a displicência com que ele caminhava. Devia ter ignorado as provocações e seguido adiante. Como não discernisse entre cortesia e ofensa — dado o seu estado de embriaguez —, irritou o trio que o insultava por conta da sua cor e do aspecto de suas roupas. Tornou-se uma vítima fácil da covardia dos cidadãos cuja existência tanto lhes incomodava.

Quando o corpo do homem jazia inerte sobre o chão duro, ainda a receber golpes e raivosos pontapés, um pequeno grupo de amigos que — pela providência divina — passava no momento intercedeu e afastou os agressores antes que levassem a cabo seu descabido intento.

Este grupo de amigos acabara de sair de um clube e vinha comentando com entusiasmo sobre a performance de um talento, mas ainda desconhecido, bluesman. “Ele tem o blues”, disse um. “Que controle de ritmo”, emendou o outro. O debate foi interrompido pela gritaria eufórica do espancamento que vinha da esquina. 

E para surpresa dos jovens justiceiros, perceberam que o rapaz que eles acudiram era o mesmo que há menos de uma hora os encantara no palco do clube blue night.

Assim nascem os blues – Cena III: Não tente dominar uma mulher do blues

Ele era um bom amante. Atraente, selvagem e misterioso. Uma boa companhia para passar um tempo. Pensei que ele me trataria bem e me daria bom sexo.

Mas não foi assim que as coisas aconteceram.

Com o passar do tempo ele começou a implicar com meus modos. Com meu jeito de cantar e até com a quantidade de whisky eu bebia.

– Hei, eu tenho meu dinheiro e faço o que quiser com ele – coloquei as coisas em seu lugar.

Mas ele insistia em me reprimir. Quis controlar minha vida e, por fim, implicou com um certo guitarrista que andava arrastando uma asa pra mim.

— Você não vai mais àquele bar. Já avisei a banda que você está fora — esbravejou, visivelmente embriagado.

Naquela mesma noite, a banda subiu ao palco e iniciou o tema de abertura – normalmente um improviso de 3 ou 4 minutos – e quando a dinâmica cresceu o baterista anunciou:

— Boa noite, Blue Hall, recebam a grande cantora de blues, Hot Mama Jones.

Enquanto Mama saudava o público e entoava as primeiras estrofes, seu ex-amante era mais um dos machões abandonados na estrada.

Que rolo é esse?

cinemaOutro dia encontrei no porta-malas do meu galaxie algumas cópias de filmes que sempre quero rever. Entendo muito pouco de cinema (dou a dica de dois blogs fantásticos ao final deste post), mas, considerando que não há filme sem roteiro, sem enredo, resolvi incluir este tema no universo do blog.

Muitos livros viraram filme e, invariavelmente se ouve: o livro é bem melhor. Alguns dizem isso com certo ar esnobe, pois num país onde se lê tão pouco, ainda é bacana dizer que leu este ou aquele livro. A verdade é que os bons livros nos decepcionam quando vão para a telona.

Tomemos por exemplo, “Amor nos Tempos do Cólera”, o filme de Mike Newell não é mau, mas não reproduz toda a intensidade dos personagens. Durante as duas horas de filme apenas uma fração da devoção de Florentino Ariza por Fermina Daza é transmitida ao espectador. Ao passo que na leitura do romance de Gabriel Garcia Márquez de a chance de conhecer intimamente o casal. Confesso que os primeiros dias depois que assisti ao filme me deixaram a sensação de que o encanto havia sido quebrado. Se  eu pudesse não ter assistido ao filme…

Depois desta experiência traumática com O Amor nos Tempos do Cólera, decidi que não mais assistiria filmes baseados em livros que eu já tivesse lido, mas aí veio O Ensaio Sobre a Cegueira. Embora nenhum dos dois seja extraordinário, acho que o Fernando Meireles conseguiu fazer um filme a altura do romance de Saramago (embora ambos – filme e livro – não sejam extraordinários). Ele captou a sensibilidade do autor e conseguiu, nas mesmas duas horas, condensar toda intensidade dos fatos e dos personagens dentro de uma linguagem cinematográfica. A fotografia, se é que entendo disso, também é excelente.

Isto posto, minha dica é: não compare o livro com o filme. Ambos podem ser bons, cada um na sua.

Extras:
Minhas dicas de blog sobre cinema são:
http://bmovieblues.blogspot.com/ e http://dollarirosso.blogspot.com/
Não deixem de visitar.

Lua para todas as noites

            “A Longa Noite sem Lua” nos leva a uma reflexão sobre a liberdade. Retrata uma comunidade simples que, invadida pelo inimigo poderoso, resiste em se submeter ao jugo e domínio de seus conquistadores. Ao longo de suas 134 páginas (ed. Record) John Steinbeck nos mostra uma estratégia militar frustrada por uma população desarmada que luta motivada pela fé na dignidade humana.

            O que torna este romance único é a exposição da fragilidade de um exército bem treinado em táticas de guerra, mas despreparado para a rejeição e desobediência de uma cidade conquistada.

            O livro, escrito num momento crítico da história (II Guerra Mundial), foi considerado subversivo por pregar ideais de liberdade e consta que a simples posse de uma cópia de A Longa Noite sem Lua (que circulava de mão em mão, às vezes mimeografada) fosse motivo para fuzilamento sumário por parte dos nazistas.

            Os apuros de um povo dominado são terríveis, mas a sensibilidade (como na passagem a seguir) com que Steinbeck retrata os conflitos pelos quais passam os soldados invasores é o ponto alto da obra. Eles estavam preparados para tudo, menos para a rejeição e o ódio.

 

— Não me agrada a forma como o Tenente Parkle está se comportando, senhor — disse Loft.

— O que ele está fazendo?

— Não está fazendo nada, senhor. Mas anda muito deprimido.

— Eu compreendo. É um problema sobre o qual já cansei de falar. Treinamos os nossos jovens para a vitória e ninguém pode negar que eles são gloriosos quando ela sobrevém. Mas eles não têm a menor idéia de como agir na derrota. Nós lhes dissemos que eles são mais inteligentes e mais bravos que os outros jovens. E é um choque para eles quando descobrem que não é isso o que acontece.

Um amor de verdade

[…]

“No começo a gente só transava quando bebia. Ficava um clima meio estranho. Mas eu fui achando cada vez melhor e mudei pro quarto dele. Aí passei a não querer mais vê-lo na rua e pedi que ficasse em casa que eu daria um jeito nas despesas. Eu trabalharia por nós dois.”

[…]

 

Descubra a história de uma de um amor de verdade que não pôde ser reprimido em “Dionísio e Eu” na página Contos deste mesmo sítio ou impressa no livro Inventário das Delicadezas da editora Nova Prova.

Aconteceu na Cidade Baixa

[…]

… Uma garrafa de Johnny Walker vazia no chão e um copo ainda pela metade na mesa de cabeceira. O gosto adocicado na boca e a sensação de garganta, pulmão e narinas arrombadas denunciam o excesso. Sempre que eu bebo whisky as coisas saem do controle. O que teria sido desta vez?”

[…]

Trecho do conto “Uma Noite na Rua da República”

O que teria sido desta vez? 

Leia o texto na íntegra na página “Contos” deste mesmo Sítio e deixe suas impressões.

Texto publicado no livro “Inventário das Delicadezas”

Literatura e outras coisas

Estou abandonando o conta-gotas, meu antigo e desleixado blog, para recomeçar neste novo espaço.

Aqui podem ser encontrados o Josué – retirante que fugiu da seca com a família para estabelecer-se no Rio de Janeiro -, a Maria Alice – que escolhia seus homens de maneira muito peculiar, o Vadão – morto pelo seu companheiro de crime -, entre outros.

Pequenas passagens dessas histórias serão inseridas entre e um e outro post apenas para despertar a curiosidade pelo texto integral que pode ser encontrado no menu contos.

Por que porta-malas? Aguarde o próximo post.