Cesar Alcazar

ERNIE E RUSS

O salão do Le Sphinx fervilhava com soldados, aventureiros e jornalistas. Todos comemoravam a recente libertação de Paris pela Résistance e pelos americanos da 4ª Divisão de Infantaria. Havia celebração em cada canto, e as prostitutas faturavam como nunca. A cidade era uma festa.
Cercado por oficiais e repórteres, um correspondente de guerra narrava de forma vibrante suas arriscadas experiências nos campos de batalha. O notável jornalista era também escritor de sucesso, um extraordinário contador de histórias. No entanto, já se cansava de entreter os militares e suas mentes simplórias.
Em meio às perguntas embriagadas, ele avistou um rapaz que bebia a sós na mesa escura do outro lado da sala. O semblante do jovem soldado possuía um ar de sagacidade e deboche que agradava o escritor. Pensando que aquele sujeito seria uma companhia mais interessante do que a que dispunha no momento, pediu licença aos demais e foi até ele.
– Posso sentar aqui? – perguntou ao rapaz enquanto puxava a cadeira e jogava um beijo para Camille, a prostituta que o recebera horas antes.
O jovem, por sua vez, reconheceu de imediato quem lhe dirigia a palavra e ficou sem saber o que dizer.
– Qual é o seu nome, soldado?
– Russell Albion Meyer, da 166th Signal Photo Company, senhor. Mas todo mundo me chama de Russ.
– Senhor? Por acaso tenho cara de militar? Ernie está bom.
O jovem cameraman sorriu com a inesperada informalidade do ilustre correspondente, que continuou:
– Você parece bem jovem, quantos anos tem?
– Completei vinte e dois em Março.
– Esteve no desembarque em Omaha Beach, correto?
– Sim, as imagens que fiz irão para o cine-jornal.
– Foi uma luta terrível. É preciso muita coragem para participar de uma coisa daquelas. Ainda mais desarmado.
– A câmera é minha arma – Russ contestou em tom espirituoso – e acho que não tive muita escolha.
– Como a pena do escritor, não é mesmo? Sempre mais forte do que a espada. E, também na escrita, não temos escolha. É escrever ou enlouquecer.
Os dois riram e sorveram longos goles de suas cervejas.
– Está se divertido, Russ?
– Bastante, senhor.
Ernie olhou para Russ com a sobrancelha direita erguida, em sinal de reprovação. O jovem percebeu no mesmo instante e corrigiu:
– Ah! Desculpe. Ernie…
– E então, qual delas você vai escolher? – Ernie gesticulou na direção das belas mulheres que alegravam os presentes.
– Infelizmente, não tenho dinheiro para isso.
– Depois de tudo que você passou? Além do mais, deve fazer um tempão que você não tem uma mulher por causa dessa guerra.
– Na verdade… Bem, como posso dizer… Eu nunca estive com uma mulher antes.
– Você está brincando?
– Não. É que talvez não seja certo, e além do mais, nunca tive a oportunidade.
O escritor ficou estupefato. Ele bebeu o que restava de sua cerveja em um gole só e falou:
– Quando se vai para a guerra ainda garoto, você tem uma grande ilusão de imortalidade. Outras pessoas são mortas, você não… Então, quando você está gravemente ferido pela primeira vez, você perde essa ilusão e sabe que pode acontecer com você. Pelo que posso observar, você ainda tem essa ilusão. A vida pode ser muito curta, rapaz. Por isso quero que você escolha a mulher que quiser aqui. Eu pago. Nem pense em recusar! Não há nada de errado nisso. Não sei como foi a sua criação, mas aposto que protegeram você demais. Esqueça tudo o que ensinaram sobre conceitos morais, pecado e essas outras bobagens. Não há nada de errado em viver. E aproveitar a vida é a única coisa decente que podemos fazer.
Russ ficou um pouco surpreso. Chegou a pensar que o jornalista estivesse brincando. Ernie logo exclamou:
– Vamos lá, escolha!
O rapaz olhou à sua volta e seus olhos se fixaram em uma belíssima morena italiana, de pernas fortes e seios fartos.
– Tome esses dólares, serão suficientes. Agora vá até lá e convide-a para subir!
Com um sorriso que era um misto de alegria e apreensão, Russ agradeceu e caminhou até a moça. Em seguida, os dois desapareceram do salão.
– Preparado para a guerra, despreparado para a vida. Exatamente como eu na Itália. – Ernie pensou em voz alta.
O Tenente Baldry, que ouvira a conversa o tempo inteiro, se aproximou do escritor e disse:
– Aprecio o que acabou de fazer pelo rapaz, Mr. Hemingway.
– Gostei dele. É um homem inteligente. Acho que terá um belo futuro agora.

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Cesar Alcázar nasceu em Porto Alegre, no ano de 1980. Admirador de Hemingway, Borges e Robert E. Howard, encontrou na literatura uma forma de exteriorizar seus devaneios aventurescos e sombrios. Participou das antologias “Sagas Vol. 1 Espada e Magia”, “Draculea – O mundo secreto dos vampiros”, “No mundo dos Cavaleiros e Dragões” e “Histórias Fantásticas Vol. 2”. É autor do livro “Cemitério perdido dos Filmes B” (como Cesar Almeida). Visite os blogs B Movie Box Car Blues e Sono da Razão.

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