Nelson Rego

2.222 cisnes brincando de locomotiva e vagões

“Tá com vontade?” Acordei (estou meio acordado) agora. Ela também? Pergunta-me se quero. Estamos encaixados em forma de S, S duplo, meu braço por cima de sua cintura. Desde quando assim? Que horas são? Pelo sol oblíquo da persiana, pouco mais que madrugada. Dormimos tarde. Acordei? Ainda tenho o último sonho na mente. Uma vez, vimos cisnes nadando em fila, surgidos da neblina sobre o lago. Eu os via de novo, ainda agora. Vinham à margem atendendo ao chamado dela, surgiam sem parar da neblina encostada sobre as águas. Cerravam, um por um, sonhadores, os olhos, quando ela acariciava suas cabeças sedosas.
Se estou com vontade? Foi o que ela perguntou, virando o rosto devagar, falando baixinho. Desde quando a amo? A essa hora, não é hora de fazer contas. Eu a amo desde a primeira vez que a vi. Ela sempre multiplicou a beleza do mundo. Amor e paixão são diferentes. Como é possível estar assim por tanto tempo apaixonado? Olho os desenhos centrípetos, centrífugos de sua orelha. Espiral, eu vou. A curva interna de seu pé esteve no início de um caminho. Prestar atenção em sua voz silencia meus pensamentos. Felicidade grande de deixar-se deixar ser, por segundos, por minutos. Dez, vinte anos? “Tá com vontade?” Ela se virou suave e perguntou com os lábios colados em meu nariz.
Ama-se quando o pequeno mau hálito da manhãzinha, da noite que não teve tempo de escovar os dentes, é o perfume que reinicia o beijo.”

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Nelson Rego, é autor de “Tão grande quase-nada” e “Daimon junto à porta”. É professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com formação em geografia, sociologia, filosofia e educação. Além das obras de ficção tem trabalhos acadêmicos, ensaios e outros textos voltados à educação, atuando como autor ou organizador. Sobre a vivência na escrita declara: “Escrevo com prazer. Ficção é a página da frente ou do verso, que forma com não-ficção uma bailarina tântrica muito gostosa”. Esse é o Nelson.

Cesar Alcázar nasceu em Porto Alegre, no ano de 1980. Admirador de Hemingway, Borges e Robert E. Howard, encontrou na literatura uma forma de exteriorizar seus devaneios aventurescos e sombrios. Participou das antologias “Sagas Vol. 1 Espada e Magia”, “Draculea – O mundo secreto dos vampiros”, “No mundo dos Cavaleiros e Dragões” e “Histórias Fantásticas Vol. 2”. É autor do livro “Cemitério perdido dos Filmes B” (como Cesar Almeida). Visite os blogs B Movie Box Car Blues e Sono da Razão.

Uma resposta to “Nelson Rego”

  1. Deborah Anderson Says:

    Que mistura belíssima de singeleza com sugestão de profundidades! Lindo! Lindo!

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