Paulo Juner

FUGA

No momento exato em que toca ao longe o alarme da penitenciária e a noite começa vagamente a se dissipar, chegas à beira do mato. Conseguiste. Vais ter que continuar correndo feito um louco, mas eles perderão tempo até acharem tua trilha. Antes de voltares a correr, paras um pouco, a fim de respirar e recuperar o fôlego. Agora vem a selva, desconhecida. Olhas para trás, sem nada observar, apenas porque tua imaginação monta a cena dos guardas preparando as armas e os cães para a perseguição. Ainda ofegante racionalizas que deu certo, até agora deu certo, bem feito para eles. “Eu não a matei”, murmuras por entre os dentes, enquanto te viras para a semi-escuridão e o que consegues ver a apenas poucos palmos, acima, abaixo, para os lados, são vultos de troncos, galhos, arbustos, touceiras. Como se adivinhasses que foi dado início à tua busca, estendes mãos e braços à frente do corpo e partes acelerado mato adentro.

Algumas passadas e sofres a primeira queda. Teu antebraço protege a cabeça, mas bates forte com teu pulso direito em um tronco pegajoso e teu joelho dobra de mau jeito antes de desabares num chão úmido e cheio de gravetos. Abafas um grito e gemes de dor enquanto massageias o pulso e o joelho e espanas a sujeira molhada das mangas e das calças. Levantas e voltas a correr, agora com passos curtos, pés espaçados, o corpo quase em zigue-zague. Notas que ficou melhor. Tropeças, resvalas, mas não cais. Tuas mãos e teus braços seguem abrindo caminho, fustigados por pontas, espinhos, folhas secas, cascas resinosas, galhos quebradiços, ramos flexíveis, que volta e meia te atingem a cara, o dorso, as pernas. Arranhões que nem sentes. Teus olhos começam a se acostumar. Deve estar clareando. Já desvias com naturalidade de árvores, ramadas, cipós. Pulas sobre raízes expostas. Pensamentos se interpõem. “Por que ela estava logo na sacada?”. “Será que ela não viu que eu estava apontando o revólver para o chão?”. “Eu só queria assustá-la!”. Uma fina angústia te atinge o peito enquanto estreitos fios de luz penetram a mata. Moléculas de sol bailam nas folhas mais altas. “Manhã”, expressas com alívio enquanto prossegues a marcha. Entendes que podes avançar mais rápido agora, mas também os teus perseguidores. O susto dessa lembrança te apressa, te desconcentra, e escorregas em uma ribanceira. Tentas te agarrar em algum caule, em alguma raiz, algum arbusto, mas não consegues e continuas caindo, lavrando as coxas, ferindo dedos e cotovelos, os pés não travam em nada. Até quê.

Teu colega de cela estava certo: havia um rio que cortava a mata. Foi o que descobriste antes mesmo de encharcares teus sapatos e a água turva chegar-te até acima dos joelhos, quando descortinaste, na queda, reflexos em movimento por entre as folhagens, e te soltaste. Agora deixas teu corpo fluir na corrente, saboreando devagar o líquido frio que faz arder e em seguida apaziguar tuas arranhaduras, tuas feridas, tuas dores, teus músculos. Teus olhos limpos pela água vêem o dia claro iluminar mais e mais a paisagem, recolhendo as sombras das árvores para o aconchego das bordas verdes. Nesse curto relaxamento, uma sinuosa memória guardada para sempre vem à tona em tua mente. Ela, recuando, batendo de costas no parapeito da sacada, mergulhando com um grito longo e seco do sexto andar do prédio. Tu, repetindo “Meu Deus! Meu Deus!”, mãos na cabeça, o revólver ainda em uma delas, olhando abaixo, o corpo dela em cruz, filamentos de sangue espalhando-se na calçada como rios desenhando-se em um mapa. Eles, muitos, te vendo da rua e das janelas, na manhã ensolarada. Tu, com a arma. Tu, fugindo.

Entre leves braçadas que dás apenas para te manteres na superfície do rio, pensas que já não importa. “Se tive culpa ou não, azar, já paguei”. Tranqüiliza-te.  “Desta vez não vão me pegar”. A corrente que te leva acelera e se torna mais rumorosa, mas somente atinas isso quando confundes trechos do ruído crescente com o latir da matilha que imaginas vir emergindo em algum ponto atrás na mata. Pensamento que te faz ficar assustado de novo e que empurra tuas braçadas no sentido da outra margem do rio. Tentas nadar forte, não consegues, é impossível vencer a correnteza, a margem até não está distante, mas o barulho se amplifica – “Uma cachoeira!” – o  rio te engolfa, cada vez mais rápido, até que o vês mais. Não há como parar, não há onde se segurar. Entendes, em um lapso de razão, que, ou morres, ou estarás finalmente livre, enquanto infinitos fios de água se desentrelaçam e te acompanham na queda dentro de uma nuvem de vapor e trovão. Agora vem o destino, desconhecido.

Emerges com brusquidão e tua boca busca em desespero o ar que falta. |Estás de frente para a cachoeira, e enquanto se passam longos segundos para tua respiração se acalmar, vês, mas não anima nem deslumbra teu espírito, a dança de miríades de arco-íris que ornamentam o branco manto de espuma bordado de verde e coroado de azul ao sol matinal. Porque algo houve. Além do impacto com a água. Batestes com a cabeça no fundo, ou em uma pedra, um estalo, por dentro. Teus braços se mexem, mas se tentas movimentá-los, eles não obedecem, estão como que apenas boiando. Assim teu corpo. Assim tuas pernas. Instantaneamente compreendes. Teu grito – “Não!” – é um clamor sem fim que reverbera naquela gruta aberta à luz do mundo, natureza luxuriante que te acolhe. E te expulsa.

A água vai transportando delicadamente teu corpo até depositá-lo em uma estreita faixa branca, tua cabeça no travesseiro de areia, teus braços transversais ao tronco, balançando no mesmo ritmo das ondas leves que tocam a margem, tuas pernas acomodadas em linha no declive suave da terra adentrando aquela piscina natural. Moves a cabeça para todos os lados, percebes que de nada adianta, o corpo está desconectado, respirar começa a doer, os gritos por socorro morrem na garganta, a imagem dela beijando teu melhor amigo salta de teu interior, e se desfaz, mergulha na mesma profundidade escura para onde foi teu pensamento, e.

Já nem sentes mais a areia lixando a nuca molhada, não percebes mais o vento úmido em tua cara, não ouves o latido dos cães se aproximando, não consegues mais cuspir a água que volta e meia chega em tua boca, entra em teu nariz, onde está teu queixo? És agora apenas teus olhos que tu fazes girar freneticamente mas que não abarcam mais nada além daquela paisagem de sonho, até que enxergas um enorme e negro passáro entrar na estática cena que vês, se fixar como uma cruz oblíqua contra o intenso azul do céu, e notas, em teu último horror, que teus olhos também pararam, e que esta é a tela final que guardarás em tua memória para nunca.

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Paulo Juner é gaúcho de Minas do Camaquã. Técnico em Telecom e Professor de Matemática, além de escritor. Tem poemas e contos publicados em antologias e é autor de uma série de crônicas bem humoradas sobre futebol sob o título “O esporte é nosso forte”.

Publicou “A Fuga” e mais dois contos – “B de Política” e “Um Verdadeiro Mano” – em “Inventário das Delicadezas” em 2007.

Uma resposta to “Paulo Juner”

  1. Paulo Juner Says:

    Caros, a idéia de escrever este conto em 2ª pessoa, veio de uma noveleta de Carlos Fuentes, panamenho naturalizado mexicano, chamada “Aura”, que é narrada desta forma, o que, como diz o Leo, dá uma sensação um tanto “perturbadora” no leitor. Abraços a todos, PJ.

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