Valmor Bordin

BREVE HISTÓRIA DE UMA MENINA INVISÍVEL

             “Uma lembrança dolorosa que até hoje eu choro”.

 Carolyn S. Spiro

O fiapo de gente sobe a escadaria da capela engatinhando como um espinhaço beijando o chão. Melancólica e doente rasteja até a porta e pelas frestas fareja o interior da Igreja, enquanto as velas se apagam.

Vai dormir na calçada, exposta ao frio. Passou vergonha todo o dia ao estender sua mão para mãos indiferentes. Nunca conheceu o peito materno. Tem a vista limitada, mas o nariz é apurado como um cão tossindo. Faz o sinal da cruz e deita.

Nunca, em sua existência, comeu um pedaço de pão que não fosse o negro pão amassado e misturado ao fel da mão estendida com fingimento.

Enquanto o sono não chega, conta os carros que passam em frente aos seus olhos baços — cem, duzentos, quinhentos.

Tem os braços e o peito cobertos de marcas vermelhas. É um pedaço de bicho que andou entre lixeiras-covas e que aos poucos foi perdendo a vontade de viver. Fatigada, não suporta mais a luz do sol. Andou no dia faiscante pelas cansativas ruas do centro, ofegando de calor e com a língua amarga de fome. Buscou novidades e vagou pedindo esmolas aos passantes caridosos.

A escuridão traz o alívio. Tenta dormir como um cão de olhos medrosos que não tem o benefício da visão clara, mas que à noite preta fareja o dono à longa distância.

A noite cai, devagar.

Como uma víscera palpitante equilibra as mãos cruelmente rasgadas na lâmina fria do concreto. Arfa o peito raquítico com medo que alguém pise os dedos ou que seja enxotada do seu pequeno paraíso.

A boca saliva. As narinas excitadas e olhos grandes e pretos abrem-se ligeiros. Roda a cabeça deslumbrada cheia de lêndeas e piolhos. Levanta o cobertor, convencida de que um pequeno ser humano se aproxima da escada.

Cruza em frente aos seus olhos doentes uma outra menina de mãos dadas com a mãe, passeando a língua sobre um sorvete de morango.

Vê o vulto encolhido embaixo do cobertor e pergunta:

“O que é mamãe?”

“Não é ninguém”.

(…)

A guloseima atiça a saliva enquanto os piolhos e as lêndeas farejam seu sangue gotinha por gotinha. O cheiro doce entra pelo nariz e foge pelas nervuras.

Seu corpo é muito magro. Chupou há pouco um pedaço de carne vermelha, catada numa lixeira e o sangue ressequido ficou grudado na boca.

Uma fome horrível queima o estômago. Passa a pequena língua pelos lábios secos e chora lágrimas em pó. O cheiro é doce e fraco, e vai sumindo pela névoa da noite que engrossa, cobrindo seus olhos enquanto as pálpebras caem.

Em sua breve existência grudada nas latas de lixo como um carrapato, sobreviveu ao sarampo, à varicela, à disenteria, à gripe e até à fome. Forte como uma bactéria resistente, passou com um mínimo de roupa e alguma comida. Para a alma, não teve nada. Não sobreviveu à solidão.

É manhã. A menina morta é recolhida na escadaria da capela e colocada na tina de formol de uma asséptica sala de necrotério, depois é transportada para uma mesa de alumínio.

Pálida, de olhos abertos como uma boneca de cera olhando o vazio, ainda tem embaixo das unhas o fiapo de lã do cobertor e restos de sangue ressequido ao redor da boca.

Um grupo de colegiais chegam na primeira aula de anatomia, usam jalecos brancos manchados de suor pegajoso. Na cabeceira da mesa o anatomista interrompe o silêncio da sala. Um perdigoto escapa da boca. Desenha um corte imaginário sobre o peito da menina:

— Abram o tórax e rebatam os músculos. Prezem pela riqueza dos nervos e veias.

Dezenas de bisturis com regularidade mecânica vão fatiando o corpo da menina. As peças, de tão fininhas e leves, podem até voar.

Minguando aos poucos, a menina torna-se um invisível cobertor de células sobre a lâmina fria de um microscópio.

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Valmor Bordin nasceu em Jacutinga-RS. É psiquiatra e reside em Passo Fundo. Publicou Contos nas antologias, Contos Imperdíveis, 102 que Contam e Inventário das Delicadezas. Foi premiado no Concurso Nacional de Poesias de Bento Gonçalves e recentemente publicou “Voo Rumo às Asas”, de onde foi extraído este conto.

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3 Respostas to “Valmor Bordin”

  1. Valmor Bordin Says:

    Caro Leonardo, que honra poder participar do teu blog. Todos os textos que escreves tem medida certa. Elegância. Comprometimento social e sobretudo uma diverssidade ìmpar. Gosto de todos os teus contos, e ensaios literários. O conto PÁREO CORRIDO, então é soberbo. Além disso, és um ser humano de grande caráter. Abraço, Valmor Bordin

  2. lmcolucci Says:

    Valmor,
    O orgulho é todo meu em poder partilhar com os leitores deste blog um texto tão bonito produzido pela tua escrita afiada.
    Espero como admirador do teu texto que cumpras a promessa de criar um blog para que eu possa continuar acompanhando a tua produção, ainda que de longe.
    Um grande abraço,
    leonardo

  3. Valmor Bordin Says:

    Leonardo! Estou terminando a construção do meu site. E, vou pedir que você fale sobre blues. Pedirei que o Nleson Coelho de castro do qual sou eterno adimirador, possa falar sobre o panorama da música gaúcha. Abraços, Valmor

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