Arquivo para Charles Bukowsky

Jogadores

Posted in Clássicos, literatura with tags , , , , on julho 20, 2016 by Leonardo Colucci

“Não importa se ganho ou se perco, eu quero é apostar”

Charles Bukowski

“Oh, como me batia o coração! Não, não é que o dinheiro me fosse caro! O que eu queria, então, era apenas que, no dia seguinte, todos aqueles, todas aquelas magníficas senhoras, falassem de mim, contassem a minha história,  ficassem surpresos comigo, me elogiassem e reverenciassem o meu novo ganho”

— Fiódor Dostoiévski

Aí está um tema fascinante para a literatura. Especialmente para aqueles que  admiram personagens psicologicamente bem construídos. Humanamente vulneráveis.

As narrativas mais primorosas que têm a compulsão pelo jogo como traço marcante em seus protagonistas, nos revelam pessoas angustiadas, fora de controle, mas conscientes de sua fraqueza. Tentam justificar-se aos leitores fingindo ter domínio sobre seus impulsos e, de forma inútil, dissimulam a sua incapacidade de sucumbir ao vício.

Autores hábeis, reproduziram a atmosfera que envolve os cassinos e as casas de jogos, mas, principalmente, criaram anti-heróis que comovem por sua incapacidade de contrariar a próprio destino, mesmo que ele represente a falência e ruína moral.

 

Comendo Poeira

Posted in contos, literatura with tags , , , , , , on abril 8, 2008 by Leonardo Colucci

Arturo Bandini é um aspirante a escritor que passa por apuros financeiros.  Vive num quarto barato de pensão no subúrbio de Los Angeles e está em busca da inspiração para sua grande obra.

Mesmo em situação de total penúria, Arturo Bandini mantém a dignidade. Anda bem vestido e comporta-se como se fosse um escritor consagrado.

 

Pouco importa se nenhum editor interessa-se por seus originais. Arturo Bandini está certo de que encontrará a história que inscreverá o seu nome no cânone dos escritores respeitáveis.

 

Em meio a este enredo de pura angústia autoral, que envolve a criação literária, ele conhece e apaixona-se por Camilla. Um amor platônico que ele procura sufocar demonstrando agressividade contra a moça que é garçonete em uma espelunca à qual Bandini não se cansa de freqüentar. Tratando-a com aparente desprezo ele procura fazer prevalecer seu nível intelectual superior, revelando total inabilidade com as mulheres.

 

E é dessa relação complicada com Camilla que Arturo tira sua inspiração. Levando-nos a crer que lhe faltava justamente o amor para que o seu texto vertesse.

 

Mas não é apenas nas tramas amorosas — Bandini ainda se envolveria com a misteriosa Vera Rivken — que está a força do romance. É a personalidade dele que faz com que este livro seja cultuado por aqueles que admiram personagens com caráter perturbador e apaixonante.

 

Peço ajuda de ninguém menos que Charles Bukowsky, que assina o prefácio das edições publicadas a partir de 1980 e sintetiza o impacto que Pergunte ao Pó é capaz de causar já nas primeiras linhas:

  

“Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.”

[…]

 “Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher.

Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e freqüentemente eu berrava para ela: “Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!”

 

 

PS.: Não tem nada a ver, mas escolhendo o título deste post lembrei de um baita som: Comendo Poeira da Estrada, um grande blues da banda Made in Brazil. Ouçam!