Arquivo para Dostoiévski

Jogadores

Posted in Clássicos, literatura with tags , , , , on julho 20, 2016 by Leonardo Colucci

“Não importa se ganho ou se perco, eu quero é apostar”

Charles Bukowski

“Oh, como me batia o coração! Não, não é que o dinheiro me fosse caro! O que eu queria, então, era apenas que, no dia seguinte, todos aqueles, todas aquelas magníficas senhoras, falassem de mim, contassem a minha história,  ficassem surpresos comigo, me elogiassem e reverenciassem o meu novo ganho”

— Fiódor Dostoiévski

Aí está um tema fascinante para a literatura. Especialmente para aqueles que  admiram personagens psicologicamente bem construídos. Humanamente vulneráveis.

As narrativas mais primorosas que têm a compulsão pelo jogo como traço marcante em seus protagonistas, nos revelam pessoas angustiadas, fora de controle, mas conscientes de sua fraqueza. Tentam justificar-se aos leitores fingindo ter domínio sobre seus impulsos e, de forma inútil, dissimulam a sua incapacidade de sucumbir ao vício.

Autores hábeis, reproduziram a atmosfera que envolve os cassinos e as casas de jogos, mas, principalmente, criaram anti-heróis que comovem por sua incapacidade de contrariar a próprio destino, mesmo que ele represente a falência e ruína moral.

 

Eles sabem o que dizem VI

Posted in Clássicos, Gotas de Literatura, literatura with tags , , , on setembro 30, 2013 by Leonardo Colucci

[…]

“O coração batia-lhe de tal maneira, que sentiu turvar-se-lhe a vista e a cabeça começar a girar. Maquinalmente, pôs-se a acomodar seus míseros pertences no novo alojamento, desatou um embrulho com vários objetos indispensáveis, abriu um baú de livros e começou a colocá-los sobre a mesa; mas logo largou mão de todo esse trabalho. A imagem da mulher que ao primeiro encontro havia perturbado e transtornado toda a sua existência, enchendo seu coração de um entusiasmo tão convulsivo e incontrolável, resplandecia a todo instante diante dos seus olhos; era tanta a felicidade invadindo de uma só vez sua miserável vida, que seus pensamentos obscureciam e seu espírito sufocava em angustia e ansiedade.”

[…]

Dostoiévisky em sua melhor forma narrativa em trecho de “A Senhoria”

Veja mais “gotas de literatura” na seção Conta Gotas deste sítio

Mostrar ou Contar?

Posted in literatura, Sobre Escrever with tags , , , , , on outubro 27, 2011 by Leonardo Colucci

Se os livros tocam as pessoas de formas diferentes e se a relação que os leitores têm com a leitura é tão diversa, como, então, classificar a qualidade de uma obra literária? É possível estabelecer critérios simples para “pontuar” um texto? Se as pessoas julgam os livros que lêem a partir de critérios tão disitintos quem tem razão; quem gosta dos best sellers ou quem prefere os clássicos?

Um movimento criado no início do século XX na extinta União Soviética, conhecido como Associação para o Estudo da Linguagem Poética — OPOIAZ, criou um quesito chamado literariedade (em tradução livre) que seria uma espécie de medidor de quão literário um texto era. Este conceito é um tanto complexo e para entendê-lo melhor precisaria colocá-lo no contexto hostórico e social em que este grupo formado em Petesburgo o desenvolveu. Há bons artigos na Internet que revelam ou sintetizam o legado do “Formalismo Russo” para quem quiser aprofundar-se no assunto.

Basicamente, por tratar-se de um conceito acadêmico, as teorias formuladas pelo OPOIAZ não são tão fáceis de aplicar. Entretanto, algumas coisas simples podem ser úteis para separar uma coisa da outra: uma delas é o “Contar” e o “Mostrar”.

Existem duas formas de narrar uma história: a primeira, que é o caminho mais fácil e não requer esforço do autor nem do leitor, é o contar; a segunda, mais difícil para ambos, é o mostrar. Vejamos:

Um autor pode redigir linhas e linhas descrevendo como uma mulher é bonita. Outro pode simplesmente dizer algo do tipo: “os rapazes sentados à mesa e aqueles que andavam pela calçada acompanharam-na com os olhos quando ela passou”.

Na segunda opção, todos entendemos que trata-se de uma mulher bonita e permite que cada leitor crie a imagem de uma mulher bonita à sua maneira. Ao passo que o primeiro caso podemos até discordar que a descrição feita pelo autor não seja exatamente o nosso padrão de beleza.

Em Memórias do SubSolo o protagonista da novela de Dostoieviski inicia a narrativa dizendo-se um homem atormentado. Nem precisava, pois todas as atitudes e os pensamentos revelados pelo personagem não deixam dúvida de que estamos diante de um homem deprimido, com raiva, com a mente confusa, paranóica, ou, em resumo, atormentado. 

Alguns autores de best seller são capazes de passar o livro inteiro dizendo que um determinado personagem estava nervoso e, no entanto, nenhuma das suas atitudes convencem o leitor mais atento de que o personagem esteja realmente nesse estado.

Um bom autor nos faria concluir que o personagem está nervoso apenas descrevendo seus atos sem, necessariamente, utilizar algum clichê como andar de um lado para o outro ou bater os dedos sobre uma mesa. Isso é mostrar.

Além do subsolo

Posted in Beatniks, literatura with tags , , , , on julho 3, 2010 by Leonardo Colucci

Por três vezes iniciei a leitura de “Memórias do Subsolo”. Nas duas anteriores fui até a metade. Desta vez senti muita vontade de desistir no meio novamente. Lembrava de um dos princípios básicos do leitor: se um livro não te conquistar nas primeiras páginas, não vale à pena continuar. Por que, pela terceira vez, eu empacava no mesmo lugar? Seria o estilo? Com certeza não, já o conheço e gosto. O conteúdo? Provavelmente, pois até este momento o livro é um monólogo de um homem muito deprimido, amargurado e… raivoso. Eu próprio tive raiva dele. E como!Depois de refletir por uns três dias (quando inventariei todos os livros que tenho em casa e ainda não li), continuei. 

A segunda parte do livro, se apresenta com o título de “A propósito da neve molhada”. Algo animador para quem em duas tentativas anteriores não havia conseguido sair do subsolo  (Subsolo é o título da primeira parte).  A partir daí a narrativa toma um formato mais universal e deixa de ser um monólogo e passa a ser um relato de breves experiências do narrador (que nem tem seu nome revelado em todo o livro). É quando ele tenta vir a superfície para se relacionar com outras pessoas. Mas os monstros interiores que o atormentam permanecem ativos desafiando-o incessantemente. Dostoievsky usa duas passagens corriqueiras para trazer a tona todos os tormentos que o homem do subsolo passou as primeiras 50 páginas vertendo de maneira ácida e rancorosa. 

O homem convicto enquanto dialoga consigo mesmo na primeira metade do livro, revela-se confuso ao encarar o mundo real. Primeiramente em um jantar com amigos onde ele faz questão de atrair para si o ódio e o desprezo dos companheiros que não escondem o desagrado com as suas manifestações, a seguir, quando se defronta com a prostituta Liza que desperta nele sentimentos “repulsivos” tais como compaixão e ternura. A perturbação emocional que o narrador-personagem passa a viver a partir de seu encontro com a moça revelam uma espécie de anti-heroi que inspirou gente como Bukovisky e Fante.

Memórias do Subsolo é “a voz do sangue” como definiu Nietzsche. Uma travessia difícil.