Arquivo para John Fante

Enquanto a primavera não chega

Posted in Beatniks, literatura, Resenha with tags , , , on agosto 4, 2017 by Leonardo Colucci

O inverno rigoroso no Colorado imobiliza a família Bandini. Com pouco serviço pelo acúmulo da neve, Svevo Bandini gasta suas horas de ócio na companhia de seu amigo Rocco, italiano como ele, mas uma má influência aos olhos de Maria, sua apaixonada esposa.

Sem crédito no armazém, Maria apela para a generosidade do proprietário para que possa “comprar” mais alguns mantimentos e abastecer a cozinha para alimentar os três meninos.

Svevo arranja como cliente uma viúva rica e vê ali a oportunidade de garantir um bom natal para sua família. Porém, a solitária viúva tem outras intenções e acaba envolvendo o hábil pedreiro em uma relação conflituosa que coloca frente a frente o orgulho e os valores do humilde imigrante.

Em meio a tudo isso, o pequeno Arturo – o mais velho dos três irmãos – está envolvido em um amor platônico e trágico de sua pré-adolescência.

De uma forma divertida somos apresentados à personalidade rebelde de Arturo Bandini, o o escritor atormentado de Pergunte ao Pó.

“Espere a primavera, Bandini”, é um presente de John Fante aos admiradores da sua obra e da sua capacidade de construir cenas cheias de significado.

 

 

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Sobre Diálogos

Posted in Cinema, literatura, Sobre Escrever with tags , , , on setembro 26, 2011 by Leonardo Colucci

O uso de diálogos em narrativas literárias sempre me pareceu uma ferramenta poderosa na hora de revelar a personalidade de um personagem. Talvez uma forma de pensar a narrativa de ficção sob o prisma do cinema e, mais ainda, do teatro, onde os diálogos são fundamentais.
Assim, sempre refutei as teorias de que o uso do diálogo empobrece o texto e que seria um recurso de autores preguiçosos ou inábeis. Me parecia um certo preconceito.
No entanto, ao ouví-la (a teoria sobre diálogos) de críticos nos quais passei a confiar, resolvi examinar mais atentamente o tema.

Pois bem, ao ler “O sol também se levanta” de Hemingway, entendi o porquê dessa corrente crítica. A capacidade de Hemingway é inegável e notória, assim como “O Sol também…” é um clássico incontestável. Porém, mesmo um mestre como o Hemingway – e numa obra como esta – nos deixa a sensação de que poderia ter feito melhor se reduzisse os diálogos e investisse mais na narração. O livro parece ter sido escrito como roteiro de cinema – e talvez tenha sido, pois foi filamado em 57 pouco tempo após a sua publicação. Sensação estranha…

Por outro lado, há autores que utilizam muito bem este recurso, como Fante por exemplo -, que parece aplicá-lo na medida certa, pois o texto não parece que ficaria melhor sem os diálogos. 

Portanto, use com moderação. Ou lembre-se de Pedro Romero, o toureiro de “O Sol Também se Levanta”, e tenha a sensibilidade de fazer as escolhas certas em cada situação.

Um Pequeno Carcamano

Posted in Beatniks, contos, literatura with tags , , , , , , on outubro 8, 2010 by Leonardo Colucci

Escrito em forma de contos que dialogam entre si, O Vinho da Juventude relata as peripécias e inquietudes de Jimmy Toscana, um garoto que vive em Denver e é filho de italianos.

Jimmy é um projeto de homem com extrema personalidade e que carrega uma cretinice latente que só está sob controle por conta dos seus valores familiares muito fortes. Isso nos leva a crer que quando adulto será um cretino adorável, típico personagem da literatura beat.

A coleção de contos explora dramas comuns do garoto que está saindo da infância, em uma literatura envolvente e ágil. O autor narra os dilemas do pequeno italiano que se vê entre a curiosidade em explorar e contestar limites e os rígidos valores morais de uma família cristã.

Simbolicamente o vinho – que dá título ao livro – representa a liberdade profana da embriaguez e os rigores da religião. É sobre essa linha tênue que o garoto tenta se equilibrar, hora pendendo para um lado hora para outro. Um belo exemplo desse conflito está no conto “A liga dos Campeões”, onde a rebeldia e auto-suficiência de um futuro grande jogador de beisebol (uma convicção inabálavel para o pequeno jimmy), fraqueja diante do carinho protetor da Irmã Agnes que o livra de algumas enrascadas.

Qualquer semelhança com o perfil de Holden Caufield de Salinger, provavelmente, não é mera coincidência. Em tempo, “O Apanhador nos campos de Centeio” foi publicado quase 10 anos depois.

O Vinho da Juventude, foi publicado em 1940 e é mais uma pérola de John Fante o criador de Arturo Bandini de “Pergunte ao Pó”.

Células Beat

Posted in Beatniks, contos, literatura with tags , , , , , on maio 16, 2009 by Leonardo Colucci

Se fosse possível a multiplicação de seres vivos a partir de uma única matriz, mais ou menos como as células se reproduzem a partir do embrião, para formar um indivíduo…

Poderíamos supor que Sal Paradise, Arturo Bandini, Hank Chinaski e outros, seriam adultos derivados de Holden Caulfield, o protagonista adolescente de “O Apanhador nos Campos de Centeio”, de J. D. Salinger. Ou que estes personagens de Kerouac, Fante e Bukowisky, seriam o jovem Holden quando adulto.

O que há de sedutor no caráter desta turma é a liberdade levada às últimas conseqüências. Uma opção de vida que não se abala nas dificuldades ou provações impostas pela sociedade e encontra dignidade em situações que seriam suficientes para deixar os cidadãos comuns sentindo-se envergonhados de seu destino. A minha trajetória como leitor me levou a Salinger pelo caminho inverso. Como quem nada contra a corrente para encontrar a nascente e lhes digo que foi uma experiência gratificante. Mas e agora, para onde ir? Existe alguma coisa antes de Holden? Não que eu saiba. Então o negócio é deixar-se levar novamente pela correnteza e apreciar a que outras paisagens este caudal pode me levar.

Seguindo o veio principal encontrei Seymour Glass, Esmé e o Sargento X no livro Nove Estórias, também de Salinger. E dali em diante vários outros afluentes.

Nove estórias vive à sombra do Apanhador…, mas traz relatos ácidos, afiados e surpreendentes de vários destes “desajustados”. Em sua grande maioria não tiveram força para manterem-se no jogo, mas a sua dignidade permaneceu intacta.

Nove Estórias é um daqueles livros que precisam ser lidos, mas comece pelo Apanhador… esse sim fundamental.

Comendo Poeira

Posted in contos, literatura with tags , , , , , , on abril 8, 2008 by Leonardo Colucci

Arturo Bandini é um aspirante a escritor que passa por apuros financeiros.  Vive num quarto barato de pensão no subúrbio de Los Angeles e está em busca da inspiração para sua grande obra.

Mesmo em situação de total penúria, Arturo Bandini mantém a dignidade. Anda bem vestido e comporta-se como se fosse um escritor consagrado.

 

Pouco importa se nenhum editor interessa-se por seus originais. Arturo Bandini está certo de que encontrará a história que inscreverá o seu nome no cânone dos escritores respeitáveis.

 

Em meio a este enredo de pura angústia autoral, que envolve a criação literária, ele conhece e apaixona-se por Camilla. Um amor platônico que ele procura sufocar demonstrando agressividade contra a moça que é garçonete em uma espelunca à qual Bandini não se cansa de freqüentar. Tratando-a com aparente desprezo ele procura fazer prevalecer seu nível intelectual superior, revelando total inabilidade com as mulheres.

 

E é dessa relação complicada com Camilla que Arturo tira sua inspiração. Levando-nos a crer que lhe faltava justamente o amor para que o seu texto vertesse.

 

Mas não é apenas nas tramas amorosas — Bandini ainda se envolveria com a misteriosa Vera Rivken — que está a força do romance. É a personalidade dele que faz com que este livro seja cultuado por aqueles que admiram personagens com caráter perturbador e apaixonante.

 

Peço ajuda de ninguém menos que Charles Bukowsky, que assina o prefácio das edições publicadas a partir de 1980 e sintetiza o impacto que Pergunte ao Pó é capaz de causar já nas primeiras linhas:

  

“Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.”

[…]

 “Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher.

Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e freqüentemente eu berrava para ela: “Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!”

 

 

PS.: Não tem nada a ver, mas escolhendo o título deste post lembrei de um baita som: Comendo Poeira da Estrada, um grande blues da banda Made in Brazil. Ouçam!