Arquivo para Os Ratos

Um russo no pampa

Posted in Autores Gaúchos, Clássicos, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on julho 4, 2017 by Leonardo Colucci

Os Ratos, obra mais importante do autor gaúcho Dionélio Machado, narra um dia na vida ordinária – opaca ou apática, poderíamos dizer – de Naziazeno Barbosa.

Nessa ocasião, o protagonista – um funcionário público como os personagens preferidos da literatura russa – encontra-se imobilizado diante de uma pequena dívida que tem a acertar com o leiteiro, mas que, embora se trate de um valor irrisório (pouco mais de R$20,00 em dinheiro de hoje), Naziazeno não dispõe da quantia. Recebe, então, um prazo para quitar a dívida até a manhã seguinte.

Pois bem, enquanto acompanhamos o homem elaborando estratégias para obter esse empréstimo vamos conhecendo um pouco mais do seu interior e de sua condição humana.

Aflito com a humilhação moral, Naziazeno parece inerte e, depois de ver seus planos – elucubrados sem muita coerência com a realidade – ruírem, está totalmente desamparado e com toda a sua fragilidade, emocional e de estima, exposta.

É neste momento que ele se une a outros que, assim como ele, vivem de contar migalhas vasculhando a cidade em busca de pequenas oportunidades que lhes permitam algum ganho. Fica, então, a mercê de suas ideias e os segue sem questionar atrás de remotas possibilidades de haver essa quantia dentro do prazo que o coitado precisa.

Ao contrário dos seus amigos, hábeis em transações diárias e otimistas em relação ao sucesso de suas empresas, Naziazeno chega ao fim do dia já desesperançado e abatido. Está exausto pelas longas caminhadas e pelo jejum que lhe acompanha desde o amanhecer, quando por fim obtém o dinheiro exato após uma operação engenhosa tramada por um de seus parceiros.

O problema emergencial parece resolvido, porém sua angústia está ainda longe de acabar. Atormentado por toda a sorte de pensamentos negativos, Naziazeno retorna ao lar preocupado com a explicação que ter de dar à esposa.

É nítida a associação que o autor faz entre seus personagens e os pequenos roedores que dão título ao livro e, igualmente, vivem de sobras da sociedade. Em sua noite insone enquanto espera pelo acerto de contas com o seu credor que chegará pela manhã, o homem pensa estar ouvido os ratos roerem o dinheiro que deixou sobre a mesa. Seu conformismo é tal, que não encontra forças para ir salvar o dinheiro do suposto ataque dos ratos.

O enredo segue a receita da literatura dos mestres russos ao relatar acontecimentos triviais do quotidiano de sua época, porém é no interior do protagonista que a verdadeira história acontece.