Arquivo para Ray Bradbury

Tragédia ilustrada

Posted in contos, Literatura Fantástica, Resenha with tags , , on setembro 3, 2016 by Leonardo Colucci

Diz-se das tragédias – os gregos ensinaram isso – que são o desfecho inevitável do qual não se pode fugir.

Nos acostumamos como leitores a encontrar personagens que lutam para ludibriar o destino, esperançosos de que possam – com algum golpe astuto, ou mera cautela – escapar das mazelas que lhe foram prometidas no dia em que nasceram. Édipo, talvez o mais lembrado, mas existem tantos outros, inclusive na literatura moderna.

Acreditemos ou não em predestinação, as tragédias diferem da vida real apenas no fato em que há sempre uma premonição fantástica que alerta a personagem para algo terrível que lhe esteja reservado para o futuro.

É também assim em “O Homem Ilustrado” de Ray Bradbury. O conto narra a decadência de um trabalhador do mundo do circo que, por ter engordado muito, perde a utilidade como montador de tenda e acaba demitido. “Me deixe ser seu homem gordo!”, chega a pedir ao chefe, mas até para isso era preciso ter talento e ele não tinha nada de especial.

Então, Willian Phillipus Phelps, ouve falar de uma mulher cega capaz de fazer tatuagens incríveis e ele tem a ideia de ilustrar todo o seu corpo na expectativa de se tornar uma atração do circo e reconquistar o respeito da esposa que o despreza por sua inutilidade e desleixo.

A dolorida sessão de modificação corporal têm fim e Willian deixa o casebre da bruxa com 100% da pele coberta pelas mais diversas e incríveis figuras. Duas, porém, uma no peito e outra nas costas, parecem inacabadas e ficam cobertas por uma bandagem (recomendação da Velha tatuadora que explica que em intervalos de uma semana as duas imagens se completarão e revelarão o futuro).

O homem passa a ser a curiosa novidade do espetáculo. “Vamos revelar o que nos diz a tatuagem do peito do Homem Ilustrado!”, anuncia o mestre de cerimônias. Diante uma multidão assombrada descortina-se a horrenda cena de um homem, o próprio Willian pode-se notar, matando brutalmente uma jovem, que logo se percebe ser Lisabeth, sua esposa. A mórbida previsão não tarda a acontecer. Por mais repúdio que Willian tenha a esta possibilidade – ele a amava – e se empenhasse em convencê-la que não tivera nenhuma interferência na execução do desenho agourento, circunstâncias acabam levando-o a repetir o quadro pintado em seu peito.

O homem foge com um horda de artistas no seu encalço disposto a vingar o brutal assassinato. Quando finalmente o alcançam, Willian é espancado até a morte. Em seu corpo inerte, deitado de bruços, finalmente se revela a última imagem: um homem gordo, tatuado, espancado por anões, mulheres barbadas e outras figuras do mundo circense.

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A NASA chegou atrasada

Posted in contos, literatura with tags , , , , on agosto 15, 2012 by Leonardo Colucci

A chegada da sonda-robô americana Curiosity ao solo marciano, foi recebida com entusiasmo pelo meio científico. No entanto essa notícia não desperta nenhum interesse para os leitores de Ray Bradbury. Quem leu as Crônicas Marcianas, já teve oportunidade de explorar o planeta vermelho com uma riqueza de detalhes e sensações que artefato nenhum poderá capturar e retransmitir. Enquanto a agência americana gasta bilhões para mandar o robozinho até lá, nós que podemos ter o universo ao alcance da mão em uma estante de livros, temos a chance de passar uma tarde no terreno arenoso de Marte sem precisar sair de casa.

“… Saul acordou, nesta manhã em particular, às sete horas. Era um homem alto, franzino, emagrecido pela doença. Fazia uma manhã quieta em Marte, o leito do mar morto, plano e silencioso – nenhum vento. O sol brilhava frio e claro no céu vazio. Ele lavou o rosto e tomou seu desjejum.”

“… Mais tarde, durante a manhã, Saul tentou morrer. Deitou-se na areia e ordenou a seu coração que parasse.Ele continuou batendo.”

– Trecho do conto “O Visitante” de Ray Bradbury

°C/5 = (°F – 32)/9

Posted in Cinema, literatura with tags , , , on maio 13, 2010 by Leonardo Colucci

Através da fórmula acima descobrimos que 451ºF equivalem a 232ºC. E o que tem isso? É que essa é a temperatura em que os livros pegam fogo…

Fahrenheit 451 é um livro sobre livros. O romance de Ray Bradbury foi publicado em 1953 e embarca em temática semelhante a 1984, publicado 4 anos antes. A exemplo do clássico de George Orwell, Bradbury desenha um futuro onde uma elite dominadora exerce o controle de massa a partir da censura ao livre pensar. Em 451ºF, vivemos num tempo onde os livros são declarados inimigos e como tal devem ser destruídos. O serviço fica a cargo dos bombeiros que, ao receberem denúncias – geralmente anônimas – de que algum indivíduo mantém biblioteca clandestina, deslocam-se imediatamente ao endereço indicado e ateiam fogo aos livros. Essa inversão no papel do bombeiro – que em inglês se chama fireman – é metáfora temporal, uma vez que no futuro de Bradbury as casas possuem tecnologia contra incêncios e os bombeiros ao invés de água expelem querosene por suas mangueiras.

Guy Montag é um bombeiro convicto de seu ofício. Até o dia em que esbarra acidentalmente com uma nova vizinha, a jovem Clarisse McClellan. É a partir das conversas com essa menina extrovertida e curiosa, que começa a transformação de Montag. O bombeiro passa a questionar-se sobre como as pessoas se isolam e o convívio social é quase nulo. Mildred, sua esposa, é o estereótipo da sociedade adormecida neste futuro incerto. Passa os dias interagindo com a televisão – que ocupa três das quatro paredes da sala – com personagens que eles chamam de família. Não demora muito até que Montag roube o seu primeiro livro.

Depois de denunciado por sua mulher, Montag vê sua casa ser queimada (ele já contava com uma pequena biblioteca) e foge para não ser preso, protagonizando a primeira perseguição em rede nacional.

Ele escapa pelo rio e encontra uma comunidade de exilados que vive nos arredores da cidade. Vivem como sem teto e recitam obras inteiras decoradas de memória. É deste lugar que eles assistem a cidade ser destruída por uma guerra meio inexplicada dando-lhes a chance de um recomeço.

Um livro sobre livros. Para refletir sobre a importância da literatura na sociedade.