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Homem-lobo

Posted in Clássicos, Literatura Fantástica, Resenha, Sobre Livros with tags , , , on abril 16, 2017 by Leonardo Colucci

O romance “O Lobo da Estepe” de Hermann Hesse nos apresenta de forma magistral os conflitos internos de um homem, Harry Haller, que “andava sobre duas pernas, usava roupas de homem e era um homem, mas, não obstante, era também um lobo da estepe”.

Haller, era um intelectual detentor de conhecimento e a mais fina cultura, porém convertera-se em um homem arredio e solitário. Crítico demasiado da vida burguesa de sua época e de pouquíssimo trato social. Esse caráter um tanto selvagem de sua personalidade ele próprio atribuía ao lobo da estepe que habitava dentro de si.

Homem e lobo competiam pelo domínio de sua alma. Viviam em constante conflito que Haller não era capaz de apaziguar. Os prejuízos desta luta ininterrupta traziam infelicidade e angústia a Haller que tinha dificuldade de entender quem, ou o que, ele realmente era.

Pois bem, quando a repulsa à sua própria fragilidade chega ao limite, o homem compreende que um único fim lhe seria justo; o suicídio. Porém, a falta de coragem o impede de levar a cabo esse destino.

Por medo de ficar sozinho, evita voltar pra casa. Erra pelas ruas até encontrar abrigo em um prostíbulo onde sua vida começa a ganhar outro sentido. As pessoas que conhece naquela noite lhe dão acesso a experiências que vão ser significativas na vida do personagem e do leitor. Sim, porque o drama de Haller é análogo a qualquer inquietude que o ser humano encontra em algum momento da vida.

Entre tantas experiências fantásticas, Haller assiste a um espetáculo onde um homem fisicamente idêntico a si, exibe um número como domador de um lobo. A forma como este homem subjuga o animal selvagem e o transforma em uma “dócil criatura”, causa profundo desconforto no espectador. Haller observa um lobo totalmente adestrado que consegue tristemente controlar seus instintos e obedecer todo o tipo de ordem e reproduzir todo o tipo de truques de forma servil e apática.

Este espetáculo é apenas uma das metáforas que Hermann Hesse oferece para que o leitor, realizando um exame profundo da condição humana de Haller, reflita sobre a sua própria natureza.

Por conta do forte conteúdo psicológico e filosófico das entrelinhas, o leitor que concluir a leitura de “O Lobo da Estepe”, não será mais o mesmo que começou.

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A Morte de Santiago Nasar

Posted in contos, literatura, Novos Autores with tags , , on janeiro 16, 2008 by Leonardo Colucci

Se o título não fosse suficiente e, distraídos, abríssemos Crônica de uma Morte Anunciada de Gabriel Garcia Márquez já na primeira linha entenderíamos do que trata a novela:

“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5:30h da manhã…”

Mais algumas páginas e já conheceríamos quem são os assassinos e as armas do crime. Os fãs de literatura policial fechariam o livro decepcionados com o fim do mistério.

Mas é justamente aí é que começa a tensão do livro, pois não são apenas leitor e narrador que conhecem o destino de Santiago: o povoado inteiro sabe das intenções dos irmãos Vicário. Os próprios assassinos ajudam a espalhar a notícia de que estão armados para executar aquele que desrespeitou as prendas viriginais de sua irmã Ângela.

Por conta de toda essa publicidade, ninguém acha necessário prevenir a vítima, pois alguém – já que a cidade inteira sabe – há de avisá-lo. Outros preferem não dar crédito às ameaças dos supostos assassinos. Todos, na verdade, eximem-se da responsabilidade e Santiago, ignorante, ruma para a morte.

Outro ponto interessante é que os irmãos nitidamente não desejam – de fato – matar Santiago. Cumprem o papel de lavar a honra da irmã com o sangue de quem a desonrou, mas adiam, retardam o ataque para que alguém os impeça. Pelas mesmas razões anteriores, ninguém intervém e eles obrigam-se a executá-lo.

O núcleo da trama reside aí: um mal que poderia ter sido evitado e não foi porque ninguém teve coragem de fazê-lo. O que está exposto é o caráter deste povoado caribenho que, quando posto a prova, retraiu-se de forma egoísta. (Um bom tema para reflexão: Esta sociedade ficcional encontra espelho no mundo real?)

Consta que o próprio Garcia-Márquez buscou o enredo para esta novela no assassinato de seu amigo Cayetano Gentile Chimento, que foi morto em situação semelhante. Por respeito à família, Márquez só veio a publicá-la 30 anos depois do ocorrido.

O fantástico aparece nos últimos momentos de Santiago Nasar, que reconstitui suas entranhas espalhadas na calçada pelas lâminas dos irmãos Vicário e ainda contorna a casa dirigindo-se à porta dos fundos com todo o aparelho digestivo nas mãos.

Disseminando Moeda-Corrente

Posted in literatura with tags , , , , , on janeiro 9, 2008 by Leonardo Colucci

      Podem acreditar: tem gente nova manufaturando boa literatura – um livro de qualidade, caso eu tenha sido meio solto. Encontrei um que me deixou uma pessoa apaziguada neste fim-de-ano. No meu caso, nem precisei disseminar muita moeda-corrente, pois obtive o meu exemplar de maneira emprestada. Na verdade uma amiga me entregou “Tudo se Ilumina” de Jonathan Safran Foer e ordenou que eu lêsse, pois ela informou que era um livro inordinário.

      É mais ou menos assim que Alex, o narrador apaixonante criado por JSFoer descreveria o livro de estréia do autor. Alex, um jovem ucraniano – que me fez lembrar de Holden Caufield o tempo todo – conta em seu inglês limitado (daí a forma de falar estranha que nos sugere uma tradução mal feita como a do parágrafo acima) a viagem que o autor fez àquele país a procura das raízes de sua família.

      Jonathan pretendia realizar (ou manufaturar, como diria Alex) um livro de conteúdo histórico resgatando a origem da família Safran há 8 ou 9 gerações. Ocorre, que ele – que de fato realizaou a viagem – não obteve referências suficientes para construir uma obra histórica. As informações – e as pessoas que poderiam reconstituir a saga – perderam-se após o ataque nazista ao povoado onde seus ancestrais mais remotos teriam vivido. Assim, Jonathan viu-se obrigado a rechear os fatos reais desconexos entre si, com fatos fictícios fabricados pelo autor que justificariam as personalidades de seus antepassados e, de certa forma, a dele próprio.

    O resultado é um livro emocianante e divertidíssimo, que através de três figuras narrativas distintas (a voz de Alex, o próprio texto de Jonathan e as cartas de Alex enviadas a ele) conta aquilo que poderia ter sido a história de uma família, da qual ele representa o presente, através de três séculos.

      Compre o livro, pegue emprestado, procure em uma biblioteca, mas leia. Me contem se conseguiram parar depois de terem lido a primeira página.