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“Tolstói é o maior de todos os narradores”, assim Virgínia Woolf o define.

        Ainda que não seja uma verdade absoluta, também está longe de ser um absurdo. As opiniões acerca de quem é o melhor obviamente variam e nunca convergiram para um consenso, pois uma afirmação deste tipo precisa ser contextualizada, uma vez que não existe o autor sem o leitor. E quem julga é o leitor.

Bem, o fato é que Tolstoi é uma leitura envolvente não apenas pelo inegável poder narrativo - e isso sim se pode afirmar - mas pela sensibilidade com que ele constrói seus personagens. Seja qual for o contexto, seja qual for o conflito, seja qual for o caráter, Tolstói é preciso em todos.

        Recentemente li, assim meio que por acaso, “Felicidade Conjugal”, novela maravilhosa reunida em conjunto com “O Diabo” em uma edição da L&PM. Um livrinho de dez ou doze pilas que adquiri num dia em que estava de bobeira sem nada pra ler.

        E é essa a dica: está de bobeira? quer satisfação garantida? Tolstói é o cara. Ou ao menos é um deles.

Um amor de verdade

[...]

“No começo a gente só transava quando bebia. Ficava um clima meio estranho. Mas eu fui achando cada vez melhor e mudei pro quarto dele. Aí passei a não querer mais vê-lo na rua e pedi que ficasse em casa que eu daria um jeito nas despesas. Eu trabalharia por nós dois.”

[...]

 

Descubra a história de uma de um amor de verdade que não pôde ser reprimido em “Dionísio e Eu” na página Contos deste mesmo sítio ou impressa no livro Inventário das Delicadezas da editora Nova Prova.

 

 

 

Os contos fantásticos de Guy de Maupassant reunidos pela L&PM (série Pocket) em “O Horla & outras histórias”, chamam atenção muito mais pelo potencial narrativo do que propriamente pelo enredo — neste aspecto Guy fica devendo muito a Poe. Algumas das obras que integram este livro — e os critérios de seleção não estão incluídos — carecem de verossimilhança interna.  Mesmo assim alguns contos se destacam como, A Morta e A Mãe dos Monstros.

 

No entanto, o livro traz outro aspecto interessante. Permite entender um pouco do processo criativo do autor: O Conto que dá título à coletânea, O Horla — que foi publicado em duas versões diferentes — foi ensaiado em Carta de um Louco. Em ambas histórias, o autor explora o potencial dos sentidos humanos, especialmente a visão que, por ser limitada, limita a nossa percepção de mundo. Os dois contos nos conduzem à cena diante do espelho, que parece ter sido a idéia central e ponto de partida para a busca da história perfeita.

 

A cena em questão — e até a ambiência (no caso o quarto) onde ela ocorre é a mesma nas duas histórias — é de um homem atormentado que se julga espionado por um ser invisível e acaba vivendo experiências sobrenaturais. Ele crê que uma forma de vida (humana?) de corpo transparente (portanto invisível) co-habita o seu quarto. O homem passa a tentar surpreendê-lo, tocá-lo, aprisioná-lo, porém sem sucesso. Até que um dia, após perceber um livro sendo folheado espontaneamente, ele avança sobre a cadeira onde o intruso estaria sentado e este salta (a cadeira se mexe) ficando supostamente encurralado no canto do cômodo onde há um grande espelho. O homem que se detém diante dele, não vê sua imagem refletida neste espelho ao que conclui que o Horla — assim ele o nominou — está entre eles.

 

Maupassant percebeu que tinha ouro nas mãos quando criou esta passagem e parece não ter ficado satisfeito com o resultado, ou ao menos inseguro com relação à melhor escolha.

São duas histórias, com três desfechos diferentes. Difícil dizer qual é o mais brilhante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos Iniciantes

O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação.

 

Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há somente um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isso: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até a hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.

 

O texto acima pertence a “Cartas a um Jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke, obra elaborada por Franz Kappus que reúne a correspondência trocada entre ambos onde Kappus, admirador da poesia de Rilke, pede conselhos ao mestre a cerca de sua obra. É uma leitura leve e delicada com reflexões sobre a arte de escrever e sobre a própria vida.

 

 

Por fim, as palavras de Rilke  - que quase me fizerem desistir de escrever - pregam respeito à literatura e nos desafiam a buscar a palavra certa com devoção e honestidade em cada linha que se escreve. Talento é outra coisa, mas o trabalho árduo está ao alcance de todos. 

[...]

… Uma garrafa de Johnny Walker vazia no chão e um copo ainda pela metade na mesa de cabeceira. O gosto adocicado na boca e a sensação de garganta, pulmão e narinas arrombadas denunciam o excesso. Sempre que eu bebo whisky as coisas saem do controle. O que teria sido desta vez?”

[...]

Trecho do conto “Uma Noite na Rua da República”

O que teria sido desta vez? 

Leia o texto na íntegra na página “Contos” deste mesmo Sítio e deixe suas impressões.

Texto publicado no livro “Inventário das Delicadezas”

 

Um dia, em sala de aula, ouvi do escritor Charles Kiefer (vou falar muito nele aqui neste blog) um comentário a respeito do meu texto que mudou a minha forma de ler e, conseqüentemente, de escrever: “O mais importante não é quem matou, ou como matou e sim por que matou?”, dizia ele a cerca de um conto onde eu pretendia tornar a morte do personagem o ponto alto da narrativa. “Isso é uma armadilha em que todos os novos autores caem”, completou ele.

 

O que ele queria dizer é que o texto bom não é aquele que tem o compromisso de causar uma surpresa no leitor e sim aquele que se constrói a partir da psicologia dos personagens e de como eles encaram determinados fatos relatados no texto. Toda a ação transcorre dentro da verdade do texto (a famosa verossimilhança) e quando entramos na mente, no coração e na alma do personagem somos capazes de entender porque matou, porque traiu, porque fugiu, porque sofreu e assim por diante.

 

Claro que alguns autores gostam de mostrar até onde vai a sua capacidade de criar tramas complexas que apontam para várias direções antes de decidirem-se pela menos provável. Seria uma relação de manipulação desonesta se não houvesse leitores dispostos a entrar nesta disputa de quem é o mais esperto e eles, os leitores, até pagam por isso.

 

Talvez o melhor assassinato da literatura seja o narrado em “Coração Delator” de Edgar Allan Poe. No primeiro parágrafo já sabemos que o protagonista vai matar o seu vizinho de quarto por uma razão que pode parecer banal. De fato, se analisado fora do contexto — extraída da brilhante narrativa — diríamos que ninguém mataria uma pessoa que lhe é tão amável apenas por ter um defeito físico — no caso um olho descolorido, possivelmente devido a uma catarata ou algo parecido. Mas ouvindo a vós narrativa — neste caso em 1ª pessoa, o que é sempre mais convincente — não há como não entender os motivos do assassino e, para quem chega ao fim do texto ainda sem convencer-se, a última cena acaba por justifica-lo. Embora ele tenha se esforçado para provar o contrário durante toda a narrativa, o mote foi a demência.

 

 

Comendo Poeira

Arturo Bandini é um aspirante a escritor que passa por apuros financeiros.  Vive num quarto barato de pensão no subúrbio de Los Angeles e está em busca da inspiração para sua grande obra.

Mesmo em situação de total penúria, Arturo Bandini mantém a dignidade. Anda bem vestido e comporta-se como se fosse um escritor consagrado.

 

Pouco importa se nenhum editor interessa-se por seus originais. Arturo Bandini está certo de que encontrará a história que inscreverá o seu nome no cânone dos escritores respeitáveis.

 

Em meio a este enredo de pura angústia autoral, que envolve a criação literária, ele conhece e apaixona-se por Camilla. Um amor platônico que ele procura sufocar demonstrando agressividade contra a moça que é garçonete em uma espelunca à qual Bandini não se cansa de freqüentar. Tratando-a com aparente desprezo ele procura fazer prevalecer seu nível intelectual superior, revelando total inabilidade com as mulheres.

 

E é dessa relação complicada com Camilla que Arturo tira sua inspiração. Levando-nos a crer que lhe faltava justamente o amor para que o seu texto vertesse.

 

Mas não é apenas nas tramas amorosas — Bandini ainda se envolveria com a misteriosa Vera Rivken — que está a força do romance. É a personalidade dele que faz com que este livro seja cultuado por aqueles que admiram personagens com caráter perturbador e apaixonante.

 

Peço ajuda de ninguém menos que Charles Bukowsky, que assina o prefácio das edições publicadas a partir de 1980 e sintetiza o impacto que Pergunte ao Pó é capaz de causar já nas primeiras linhas:

  

“Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.”

[...]

 “Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher.

Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e freqüentemente eu berrava para ela: “Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!”

 

 

PS.: Não tem nada a ver, mas escolhendo o título deste post lembrei de um baita som: Comendo Poeira da Estrada, um grande blues da banda Made in Brazil. Ouçam!

 

Muita gente torce o nariz para a literatura beat. De fato não se encontra primor literário nas obras produzidas pelos beatnicks. Escrevem com desleixo, sem preocupações estéticas e penetram pouco na psicologia humana. Mas e daí? São livros inspiradores. E isso basta. 

Jack Kerouac, talvez não tenha sido o mais importante representante deste movimento — essas coisas sempre são controversas —, mas On the Road — que este ano completa meio século de sua publicação — é o grande marco daquela geração. É meu livro de cabeceira; daqueles que podem ser abertos ao acaso e fornecer algum combustível para a noite ou (cuidado!) para a vida toda.  

Bem, On the Road, chega aos cinqüenta anos com sua reputação transgressora inabalada. E já não importa mais se ele representa uma época de contestação e rebeldia, que teve seu ápice nos anos 60 e arrefeceu. É um livro ainda capaz de causar uma revolução.  

[...]

“as únicas pessoas que me interessam são as loucas, as que são loucas por viver, loucas por falar, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam ou dizem uma coisa do senso comum … mas queimam, queimam, queimam como rojões através da noite”. 

[...]

Uma vida em dez segundos

[...] 

            Ainda recobrando os sentidos, tento agir com naturalidade. Certa vez fui abordado por policiais depois de ter derrubado uma garrafa de whisky junto com um amigo e me vi na mesma situação; tendo que simular equilíbrio. E todos sabem como é difícil passar credibilidade nestas ocasiões.

[...]

Trecho do conto “Acerto de Contas”

Por que este cara, aparentemente em apuros, pode ser considerado um homem de caráter? 

Leia o texto na íntegra na página “Contos” deste mesmo Sítio e deixe suas impressões.

Texto publicado no livro “Inventário das Delicadezas”

Mina Céu-Aberto

Caçapava do Sul (http://www.turismo.cacapava.net/index2.html) é um destes lugares onde a força da natureza provoca um desequilíbrio em nosso estado normal; uma inquietação.

Um pouco distante da cidade encontra-se a localidade de Minas do Camaquã. Este lugar ficou famoso alguns anos atrás quando tornou-se uma cidade fantasma - a população havia abandonado suas casas pois a jazida da Mina de Cobre que a sustentava esgotou-se - e era possível comprar um imóvel por R$ 700,00.

A região, privilegiada com belezas naturais (guaritas, pedra do segredo, cascata do Salso) e outras históricas (forte D. Pedro II e os escombros da Cia Brasileira do Cobre onde está a imponente Mina Céu-Aberto) tem ainda a fama de ser ponto preferencial para observação de ovnis (!).

Tudo isso, aliado às dificuldades econômicas da chamada “metade sul” do estado, dão a ambiência do local.

O que isso tem a ver com literatura?

É que lá foi rodada a adaptação cinematográfica de Valsa para Bruno Stein do autor gaúcho Charles Kiefer (http://www.charleskiefer.com.br). O filme, ainda inédito em circuíto comercial já teve sessões especiais em algumas salas de cinema da capital e interior do RS.

O romance, uma das melhores obras de Kiefer, gira em torno da olaria de Bruno Stein e sua paixão recém desperta pela esposa de seu filho e a incômoda forma como ela o domina.

Basta ler a primeira frase “Restavam poucos prazeres na vida do oleiro Bruno Stein: o fumo, a leitura, a música e a paixão de modelar.” para conhecer perfeitamente quem é o velho Bruno Stein e de que forma enfretará esta armadilha do destino.

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