E agora, JD?

Postado em Beatniks, literatura com as tags , , , , , , em fevereiro 3, 2010 por lmcolucci

Em se tratando de Jerome David Salinger, podemos dizer que a morte biológica ocorrida no último dia 28 de janeiro foi apenas mais uma na trajetória do criador de Holden Caufield e Seymour Glass. Dizer que morreu o homem, mas permaneceu o autor é um clichê desnecessário. O que ocorre é que Salinger morre como autor quando desiste de publicar, morre como figura pública quando decide se isolar do mundo e, finalmente, morre como homem, fisicamente, pondo fim a expectativa de que fosse rever sua posição reclusão e retornasse ao mercado editorial.

 Sim, porque ele teria dito em uma rara e breve entrevista em 1980: “Gosto de escrever e asseguro a vocês que escrevo com regularidade”. “Mas escrevo para mim mesmo, por prazer. E quero ficar sozinho para escrever”.

E por que o silêncio de Salinger era tão agoniante? Porque todos os jovens que se identificaram com o onipresente Apanhador nos Campos de Centeio e os adultos que se emocionaram com Nove Estórias, nutriam a expectativa de ter a experiência de ler algo inédito produzido pela mesma mente que criou a seleta bibliografia de formação de todos os desajustados (entendam por desajustados aqueles que simplesmente não se enquadram nos estereótipos da sociedade sem, necessariamente, terem de viver a margem dela).

Pensei alguns dias sobre que outro significado essa “morte” pode ter para quem ainda aguardava por alguma novidade vinda da montanha de New Hampshire, onde o escritor vivia desde a década de 50. Ao contrário do fim da esperança de ver impresso tais escritos inéditos, produzidos durante o período de reclusão, a saída de cena do excêntrico Salinger pode significar que todas as páginas guardadas nas gavetas da sua casa cercada por muralhas venham à tona liberadas por algum parente seduzido pelo potencial comercial que este material possa ter.

Sei que não é honesto com este senhor expor, após a sua morte, tudo o que ele se empenhou em esconder enquanto vivia, mas, pro inferno com a ética, Salinger nos sacaneou durante 40 anos. Agora pode ser a nossa vez.

O Ingênuo Gatsby

Postado em literatura com as tags , , , em janeiro 7, 2010 por lmcolucci

O Grande Gatsby, de F.S. Fitzgerald, é considerado por boa parte da crítica como “o grande romance da literatura americana”. Mas, por quê?

Primeiro porque se passa justamente nos anos 20, década que marca o início da prosperidade da sociedade americana, quando se cunha a expressão, do “sonho americano”. Segundo porque é uma leitura prazerosa com um tema sedutor: o amor e a eterna juventude. 

Jay Gatsby é um ícone da sua época: jovem, rico, benevolente, culto, misterioso e amável anfitrião que promove festas de arromba em sua mansão em Long Island. O cativante milionário, parece não ligar para os aproveitadores que frequentam sua casa semanalmente e pouco se envolve com os convidados. Até entrar em cena Nick Carraway, vizinho de Gatsby e que não demora a se tornar seu confidente. É a partir desta relação (aliás é Carraway quem narra a história) que passamos a desvendar o mistério em torno do protagonista.

Um homem que fez fortuna de forma ilegal – vendendo bebida durante a lei seca (há algumas insinuações a este respeito) – tinha o mundo a seus pés, mas que era infeliz, pois lhe faltava Daisy. Garota com quem ele havia vivido uma pequena paixão no início da juventude e de quem se separara durante a guerra.

Gatsby dava estas festas na esperança de que Daisy comparecesse a alguma delas – afinal a cidade toda ia. E a reputação destas recepções repercutiam em toda a sociedade. Ele tinha verdadeira obsessão em reatar com ela, acreditava que o faria na primeira oportunidade. Carraway, adivinhem, foi o elo de ligação entre o casal, uma vez que era amigo próximo de Daisy (coincidência?).

A dissimulação de Daisy engana a todos no primeiro momento, até mesmo os leitores acreditam na reciprocidade do seu amor. Aos poucos a narrativa nos revela a rápida deterioração da convicção de Daisy com relação à sua escolha (ela abandonaria o marido para viver com seu velho), apenas o ingênuo Gatsby não percebe a fugacidade do sentimento de Daisy. E quando este sentimento é posto a prova, ela o deixa.

Nick Carraway, de coadjuvante, assume o papel mais digno ao final do romance. Tentando, sem sucesso, sensibilizar os amigos de Gatsby – que há pouco tempo serviam-se de sua hospitalidade – a comparecerem ao seu funeral.

O livro de Fitzgerald, embora não tenha essa intenção explícita, pode ser lido como um ensaio, uma reflexão crítica, sobre os valores de uma sociedade que se formava. 

O Grande Gatsby não é um livro politicamente correto, é apenas um belo livro de amor.

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“Se algum dia você foi jovem e se apaixonou, Fitzgerald escreveu O grande Gatsby… só pra você” (Paulo Francis)

A Menina Invisível

Postado em Novos Autores, contos, literatura com as tags , , , em dezembro 22, 2009 por lmcolucci

[...]

“Uma fome horrível queima o estômago. Passa a pequena língua pelos lábios secos e chora lágrimas em pó. O cheiro é doce e fraco, e vai sumindo pela névoa da noite que engrossa, cobrindo seus olhos enquanto as pálpebras caem.”

[...]

Trecho de “Breve História de Uma Menina Invisível”, belíssimo conto do autor Valmor Bordin que pode ser lido na íntegra na página “Convidados” deste mesmo Sítio.

Quixote Mexicano

Postado em literatura com as tags , , , , , , , , em novembro 17, 2009 por lmcolucci

David Toscana ficou conhecido no Brasil após sua participação na Flip há alguns anos. Na ocasião estava sendo lançado no Brasil “O Exército Iluminado”, o qual era comparado a obra de Cervantes. Obviamente os dois romances não se equivalem em importância histórica ou literária, mas sim na trama ou carater de seus personagens, ou melhor ainda, a causa dos protagonistas é de certa forma semelhante.

O auto-denominado General Ignacio Matus – na verdade um professor de história (ou seria de geografia) – inconformado com a tomada do território mexicano pelos americanos, liderou uma revolta armada para tomar devolta as terras que pertenciam ao seu país ainda que isso tivesse acontecido quase um século antes.

O Exército Iluminado trazia em suas fileiras apenas 5 jovens soldados recrutados em um instituto para crianças com problemas mentais. O General Matus os fez sentirem-se de fato especiais, pois, pela primeira vez oferecia àquelas quase crianças algo de que pudessem se orgulhar, ao contrário de “ficarem pintando circulos e quadrados” o dia inteiro.

Outra excentricidade interessante do general foi a maratona imaginária que ele disputou nos jogos de Paris em 1928. Enquanto os atletas olímpicos corriam pelas ruas francesas, Matus percorria os mesmos 42.195 metros na cidade de Monterrey. O professor mexicano completou a prova com um tempo que o colocaria em terceiro lugar na prova parisiense, ao que passou a importunar por carta o corredor americano laureado com bronze para que lhe mandasse a medalha pelo correio.

Ainda que o autor escorregue em algumas passagens onde o raciocínio e, até mesmo o vocabulário, atribuído aos iluminados seja incompatível com o tipo de limitação que eles tinham, é uma leitura muito agradável e de personagens cativantes.

Dentre os iluminados o mais bravo é o Gordo Comodoro, incapaz de entender as regras de uma partida de dominó, mas disposto a cumprir o seu papel na batalha contra os ianques e ser eternizado como herói nacional.

Comodoro me fez lembrar Macário, o garoto criado por Juan Rulfo – magnífico contista mexicano – em um conto de mesmo nome no seu livro “O Planalto em Chamas”. Macário também tem uma percepção diferente da realidade por causa de seus problemas mentais e me parece bem provável que ele tenha influenciado a construção dos iluminados.

Uma Tumba definitiva para Poe

Postado em literatura com as tags , , , em outubro 25, 2009 por lmcolucci

No ano em que a morte de Edgard Alan Poe faz 160 anos, várias homenagens estãopoe original grave with roses sendo prestadas em diferentes partes do mundo. Na que mais orgulharia o autor de “A Casa de Usher”, 5 cidades americanas disputaram a honra de reter os restos mortais de Poe. Venceu Baltimore, cidade onde ele morreu aos 40 anos e que abriga um Museu dedicado a autor na casa onde ele viveu no final da adolescência.

Quando Allan Poe morreu em 1849, seu falecimento não se tornou público, por isso apenas 10 pessoas participaram da cerimônia de despedida. Então, no início do mês, Baltimore concedeu-lhe o funeral que ele realmente merecia. A mórbida cerimônia, que transferiu os restos mortais de Poe para sua morada definitiva, contou com um caixão tansparente que continha uma réplica da imagem do autor e foi acompanhada por uma legião de fãs da literatura fantástica.

Este traslado deve alterar a rotina do homem conhecido como “Poe Toaster” (em tradução livre, o homem que brinda Poe). Trata-se de um fã desconhecido que deixa uma garrafa de conhaque e rosas no túmulo original do autor. O visitante misterioso sempre aparece quando o cemitério está fechado, nas primeiras horas do dia e seu tributo nunca foi testemunhado por ninguém. Talvez seja um dos personagens prestando homenagem ao seu criador…

O Matador em Porto Alegre

Postado em Cinema, Rock'n'Roll com as tags , , , , , em setembro 22, 2009 por lmcolucci

Jerry Lee Lewis passou pela capital gaúcha no último dia 16 e mostrou porque chamou seu último trabalho gravado em 2006 de “The last man standing”.

Ao contrário de outros gringos que vêm ao Brasil apenas com a roupa do corpo, Jerry Lee trouxe uma banda de alta qualidade. Mesmo sem muita noção de onde estava, o Matador (the Killer, como se tornou conhecido) deu conta do recado e executou divinamente todos os clássicos que o público esperava ouvir. O show não durou mais do que 45 minutos – o que é compreensível para um senhor de 74 anos – tempo mais do que suficiente para tornar a noite inesquecível. Claro que assistir ao Jerry Lee nestas circunstâncias (anos 2000, América do Sul, etc) é como um prêmio de consolação para quem nasceu na época e no lugar errado. Mas ainda assim vale mais do que horas e horas de outros espetáculos que têm por aí.

Não vai faltar quem critique o som, a duração do show, a pouca interação dele com a platéia (lembrem da idade do homem), mas isso não apaga a emoção de estar diante de uma lenda viva e ouvir os clássicos imortalizados por ele e executados pelo próprio. (Nota: Jerry Lee tocou de verdade e improvisou o tempo todo).

A turnê que passou pelo Brasil é uma das últimas páginas na vida deste cara. As passagens mais marcantes e que definem a personalidade JLL estão no filme “Great Balls of Fire” – ou, “A Fera do Rock” (êta título sem vergonha) em português. Ali, além da personalidade arrogante do astro (interpretado por Dennis Quaid), vemos fatos antológicos como a cena em que ele incendeia o piano durante a execução da música que dá título à cinebiografia. Na ocasião o Matador estava escalado para subir ao palco após a apresentação de Chuck Berry (outra figuraça que andou por aqui este ano). Chuck, no entanto, recusou-se a entrar antes do novato que tinha apenas um clássico. Surpreendentemente o Jerry concordou em “abrir os trabalhos da noite” e aquecer o público para seu colega. Durante os pouco mais de 3 minutos que durou a canção o garoto louro da Lousiana levantou a platéia com uma performance arrebatadora. Antes do final da canção, Jerry Lee ateou fogo ao piano e foi assim que encerrou a sua apresentação. Diante de uma multidão incendiada ele retirou-se do palco e, dirigindo-se ao incrédulo Chuck Berry, disse algo como: “Vá lá, eles são todos seus.”

No link abaixo o clip do filme com Dennis Quaid e o próprio Jerry Lee Lewis:

http://www.youtube.com/watch?v=zUHzsH7kMPw

Cadillac Records

Postado em Blues, Cinema, Rock'n'Roll em setembro 13, 2009 por lmcolucci

cadillac_recordsO filme Cadillac Records conta a história da Chess, uma gravadora tão importante para a história do blues quanto seus mais famosos ícones. Na película de Darnell Martin é o lendário Willie Dixon (interpretado por Cedric The Entertainer) quem narra a história de Leonard Chess e de como ele reuniu e deu oportunidades a jovens negros que transformariam-se em verdadeiras lendas do blues. Nomes como Muddy Waters, Howling Wolf, Little Walter, Etta James e Chuck Berry frequentaram a pequena sala localizada no nº 2120 da Av. Michigan em Chicago e ali registraram boa parte das gravações mais antológicas do estilo.

O enredo aborda ainda os problemas enfrentados pelos músicos negros na década de 40 e 50, tais como: alcoolismo, preconceito racial, adultério entre outros. Passagens conhecidas, como a rivalidade entre Muddy e Howlling, os problemas de Chuck com a polícia e o fim precoce de Walter são retratados no filme de forma sutil apenas para colocar a história da gravadora no contexto social de seus maiores personagens.

Mas como o mote é o blues, é nesse clima que os quase 120 minutos de filme se desenrolam. Refilmagens de seqüências magníficas como At Last de Etta James interpretada com muita inspiração por Beyonce, que pra mim, até então, não passava de uma dançarina. Quase dá pra acreditar que aquilo seja real.

Por fim, acesse o link abaixo; vale muito a pena.

http://www.sonypictures.com/homevideo/cadillacrecords/

Raul Seixas e Raulzito

Postado em Rock'n'Roll com as tags , , em agosto 25, 2009 por lmcolucci

RaulzitoAgora no aniversário da morte de Raul Seixas surgem matérias tentando mostrar “o outro lado”, ou a “outra face” do maluco beleza. Uma manobra desonesta para tentar enquadrá-lo em uma categoria um pouco mais normal.
Enquanto era vivo Raulzito reagiu com deboche aqueles que lhe tentaram colar algum rótulo, como na passagem abaixo que faz parte da música “As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor”:

“Raul Seixas e Raulzito
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o lobisomem”

O Leitor e o Escritor

Postado em Cinema, Sobre Escrever, literatura com as tags , , , em julho 28, 2009 por lmcolucci

o-leitor-livro

Assisti recentemente ao filme “O Leitor”. O título sugere uma temática interessante e o filme não decepciona.

Os créditos ainda corriam e eu me pensei: este filme deve ter saído de um baita livro. E procurei por alguma informação que confirmasse minha suspeita. De fato, se eu não cruzasse pela seção de Best Sellers das livrarias de cabeça baixa e com certo desdém eu já saberia que sim, este filme é baseado em um romance homônimo.

Como continuei — e continuarei — não prestando atenção aos mais vendidos. Fui para internet e encontrei uma biografia de Bernhard Schlink um autor alemão ainda vivo que tem uma obra extensa que não justifica o fato de eu ainda não conhecê-lo, embora tenha pouco ou quase nada traduzido para o português.

Posso estar sendo injusto com o Sr Schlink, mas li os dois primeiros capítulos do livro e não gostei. Parece que o que tinha de bom mesmo era o enredo. Escrevo este post após pesquisar sua biografia na Wikpedia e tendo lido apenas quatro ou cinco páginas do seu romance. Portanto, se alguém quiser sair em defesa do autor que faça. Talvez eu reveja meus conceitos e me retrate, mas pela amostra que tive não me motivei a ler mais nada. Pelo menos, por enquanto…

As luas de Mempo Giardinelli e Mario Arregui

Postado em contos, literatura com as tags , , , , em julho 12, 2009 por lmcolucci

A lua exerce fascínio sobre a humanidade desde que o primeiro homem saiu da caverna para contemplar a noite. Desde então muitos acontecimentos são atribuídos a ela. Mito ou não, o fato é que uma bela lua cheia influencia as atitudes dos homens, especialmente daqueles mais sensíveis.

Dois autores latino americanos — um argentino (Mempo Giardinelli) e outro uruguaio (Mario Arregui) — transformaram-na quase em personagem de seus melhores relatos. Luna Caliente de Giardinelli e Lua de Outubro de Arregui, contam como a lua incendiou duas adolescentes e fez com que dois homens experientes, vividos, perdessem a cabeça.

As histórias — separadas por aproximadamente 20 anos, e não mais do que 1000 km — trazem muita semelhança entre si. Em ambas, uma família tradicional recebe em sua residência a visita de um jovem que encanta-se pela filha mais nova de seu anfitrião. As meninas, como que despertas pela lua cheia, insinuam-se para os forasteiros e iniciam um jogo velado de sedução que acaba na cama depois que a família inteira vai dormir. A intensidade do sexo é semelhante e a volúpia das garotas impressiona e extasia seus parceiros.

Os dois homens, Ramiro e Pedro, tem caráter idêntico. Julgam-se garanhões, mas acabam amplamente dominados por suas amantes adolescentes que, apesar da reclusão e isolamento em que vivem, possuem uma personalidade assustadora e uma dose de loucura que é — nas duas narrativas — o ponto alto da história.

Difícil dizer qual dos dois tem o pior destino: se Pedro Arzabal que tem sua cabeça estourada por Niña Leonor ou, Ramiro que vive com o fantasma (!) de Araceli a lhe assombrar por onde quer que ele ande.