Em se tratando de Jerome David Salinger, podemos dizer que a morte biológica ocorrida no último dia 28 de janeiro foi apenas mais uma na trajetória do criador de Holden Caufield e Seymour Glass. Dizer que morreu o homem, mas permaneceu o autor é um clichê desnecessário. O que ocorre é que Salinger morre como autor quando desiste de publicar, morre como figura pública quando decide se isolar do mundo e, finalmente, morre como homem, fisicamente, pondo fim a expectativa de que fosse rever sua posição reclusão e retornasse ao mercado editorial.
Sim, porque ele teria dito em uma rara e breve entrevista em 1980: “Gosto de escrever e asseguro a vocês que escrevo com regularidade”. “Mas escrevo para mim mesmo, por prazer. E quero ficar sozinho para escrever”.
E por que o silêncio de Salinger era tão agoniante? Porque todos os jovens que se identificaram com o onipresente Apanhador nos Campos de Centeio e os adultos que se emocionaram com Nove Estórias, nutriam a expectativa de ter a experiência de ler algo inédito produzido pela mesma mente que criou a seleta bibliografia de formação de todos os desajustados (entendam por desajustados aqueles que simplesmente não se enquadram nos estereótipos da sociedade sem, necessariamente, terem de viver a margem dela).
Pensei alguns dias sobre que outro significado essa “morte” pode ter para quem ainda aguardava por alguma novidade vinda da montanha de New Hampshire, onde o escritor vivia desde a década de 50. Ao contrário do fim da esperança de ver impresso tais escritos inéditos, produzidos durante o período de reclusão, a saída de cena do excêntrico Salinger pode significar que todas as páginas guardadas nas gavetas da sua casa cercada por muralhas venham à tona liberadas por algum parente seduzido pelo potencial comercial que este material possa ter.
Sei que não é honesto com este senhor expor, após a sua morte, tudo o que ele se empenhou em esconder enquanto vivia, mas, pro inferno com a ética, Salinger nos sacaneou durante 40 anos. Agora pode ser a nossa vez.



